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Diálogos da esfinge (XXI) - O anjo negro de ardilosa gentileza

José Afonso Viana
1
Cida Almeida · Goiânia, GO
25/6/2007 · 70 · 2
 



Palavras dançam no fundo do espelho



A esfinge de novo me acordando para os detalhes onde

mora o seu OLHO. Essa inquietude de dentro abrindo caminho para

os espectros de cada palavra fora de lugar, dos sentimentos que

não se ajustam à razão do texto das vontades desembrulhadas

daquela emoção profunda que um dia subverteu a ordem das

coisas. O OLHO que viu as fugas, que sentiu o vazio, a presença, às

vezes oca, que estranhou o brilho de alegria incontida e assistiu o

baque no espaço das minhas tentativas de esmurrar a porta, a

inexistente porta dos mistérios que se aninhavam comigo. Tantas

vezes diante da esfinge impassível... Tantas vezes a figura do

oráculo se impôs no horizonte do meu olhar... Nada vi e nem

suspeitei, embora estranhasse os movimentos e não-movimentos.

Mas como poderia, se meu olhar estava cativo por uma certeza

cega que venerava como uma VERDADE de pé no chão. E tudo

tremeu, e tudo ruiu, como um cristal precioso rodopiando os

perigos de cada gesto e cada palavra nesse itinerário das máscaras

que insistem em grudar como segunda pele. Raspo a minha pele no

limite do sangue e deixo escorrer os fluidos de um tempo.


Ontem, de novo a esfinge, com o seu OLHO, invadiu a camada mais

profunda da minha noite. De novo me deu a visão de dentro. E me

fez dialogar com um oráculo que vestiu a pele de um anjo negro.

Ele me ouvia, sem querer, como que cumprindo um ritual de

delicadeza por ter sido jogado na cena. Ele me disse que não

estava vivo, que era de outro mundo. Mas já que iniciamos o

DIÁLOGO, afrouxei a correia das palavras e deixei minha alma

derramar um pouco das dores e confusão dos perturbadores

pensamentos das cansativas vigílias. Os pensamentos imperfeitos, o

caminhar em círculo, a batida do tambor sempre no mesmo

compasso de sobressalto, as muralhas e os paredões onde ecôo

como se estivesse em um beco sem saída.


A imagem do anjo negro e a forma como se abriu para o diálogo

comigo, mesmo sem ser desse mundo. Em essência, ele era

ESCUTA. E sua imagem já trazia o significado. Antíteses vertiam de

sua imagem, contando outros sentidos para essa enigmática

aparição. O anjo negro, o que furou os olhos de um inocente anjo

louro, e deu de presente a sua imagem noturna de uma última

visão, fixada fundo na memória, como um horror, como um pavor.

Perturbador demais! O anjo gentil de alma cruel. E as antíteses do

anjo ululam dentro da lembrança dessa noite estranha, desse

sonho vagando nos sentidos da minha alma. E um outro sentimento

claro é o de impotência, que aparece na figura do uso de um

espaço inválido. Nesse encontro, a esfinge pisou fundo o indelével

e o fugidio das palavras, e deixou suas marcas numa impressão de

suas outras faces. Ela deixou a visão das palavras no fundo do

espelho, salpicando-o de imagens e nomes para que não pairasse

qualquer nuvem contra a clareza do ato de ver e ver o que não se

quer, o que está escrito na alma e na pele desses dias que me

arrastam e contra os quais luto sangrentamente para sair com a

inteireza da compreensão.


A esfinge, definitivamente, agarrou-me pelos tornozelos e os fios

parecem invisíveis, mas estão cravados no mais profundo da boca

do peixe que se recusa a ver a LUZ. Quero os sentidos da

superfície. Mas o único caminho de passagem é o da ESFINGE. Vivo

com a esfinge e os seus caminhos tortuosos me perseguem. Não há

fuga e nem desejo de me opor. Convivo e sigo...



Goiânia, 2-5-2006.


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informações

Autoria
Cida Almeida
Ficha técnica
Diálogos da esfinge. Aviso aos navegantes: aqueles diálogos jungianos, freudianos, quixotescos, dantescos... A linguagem no limite ou simplesmente transbordando. Imagens, símbolos, signos... Coisas do inconsciente rodeando o toco.
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Nivaldo Lemos
 

Cida, minha grande poeta,
a beleza da esfinge é o mistério, o que existe em cada palavra, o que subverte e verte, como sangue. Em todos. Como nós. E que, exangue, dorme e amanhece até o fim. E de novo se inicia com o sol. Como uma amanheCIDA nuvem de palavras. Uma Afrodite a afrouxar a correia que distende a alma, na fronteira entre a noite e o dia. Entre a dor e o verbo. Entre a felicidade e a desdita, o medo e a poesia. Como um pássaro solitário no deserto. Arcanjo ferido de "ardilosa gentileza". Pura poesia, desterro. Sem mais palavras, calo-me em regozijo. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 21/6/2007 15:48
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carlos magno
 

Estou aqui para apludir e votar neste magnífico trabalho, minha querida poeta Cida. Beijos.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 23/6/2007 19:53
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