Palavras dançam no fundo do espelho
A esfinge de novo me acordando para os detalhes onde
mora o seu OLHO. Essa inquietude de dentro abrindo caminho para
os espectros de cada palavra fora de lugar, dos sentimentos que
não se ajustam à razão do texto das vontades desembrulhadas
daquela emoção profunda que um dia subverteu a ordem das
coisas. O OLHO que viu as fugas, que sentiu o vazio, a presença, às
vezes oca, que estranhou o brilho de alegria incontida e assistiu o
baque no espaço das minhas tentativas de esmurrar a porta, a
inexistente porta dos mistérios que se aninhavam comigo. Tantas
vezes diante da esfinge impassível... Tantas vezes a figura do
oráculo se impôs no horizonte do meu olhar... Nada vi e nem
suspeitei, embora estranhasse os movimentos e não-movimentos.
Mas como poderia, se meu olhar estava cativo por uma certeza
cega que venerava como uma VERDADE de pé no chão. E tudo
tremeu, e tudo ruiu, como um cristal precioso rodopiando os
perigos de cada gesto e cada palavra nesse itinerário das máscaras
que insistem em grudar como segunda pele. Raspo a minha pele no
limite do sangue e deixo escorrer os fluidos de um tempo.
Ontem, de novo a esfinge, com o seu OLHO, invadiu a camada mais
profunda da minha noite. De novo me deu a visão de dentro. E me
fez dialogar com um oráculo que vestiu a pele de um anjo negro.
Ele me ouvia, sem querer, como que cumprindo um ritual de
delicadeza por ter sido jogado na cena. Ele me disse que não
estava vivo, que era de outro mundo. Mas já que iniciamos o
DIÁLOGO, afrouxei a correia das palavras e deixei minha alma
derramar um pouco das dores e confusão dos perturbadores
pensamentos das cansativas vigílias. Os pensamentos imperfeitos, o
caminhar em círculo, a batida do tambor sempre no mesmo
compasso de sobressalto, as muralhas e os paredões onde ecôo
como se estivesse em um beco sem saída.
A imagem do anjo negro e a forma como se abriu para o diálogo
comigo, mesmo sem ser desse mundo. Em essência, ele era
ESCUTA. E sua imagem já trazia o significado. Antíteses vertiam de
sua imagem, contando outros sentidos para essa enigmática
aparição. O anjo negro, o que furou os olhos de um inocente anjo
louro, e deu de presente a sua imagem noturna de uma última
visão, fixada fundo na memória, como um horror, como um pavor.
Perturbador demais! O anjo gentil de alma cruel. E as antíteses do
anjo ululam dentro da lembrança dessa noite estranha, desse
sonho vagando nos sentidos da minha alma. E um outro sentimento
claro é o de impotência, que aparece na figura do uso de um
espaço inválido. Nesse encontro, a esfinge pisou fundo o indelével
e o fugidio das palavras, e deixou suas marcas numa impressão de
suas outras faces. Ela deixou a visão das palavras no fundo do
espelho, salpicando-o de imagens e nomes para que não pairasse
qualquer nuvem contra a clareza do ato de ver e ver o que não se
quer, o que está escrito na alma e na pele desses dias que me
arrastam e contra os quais luto sangrentamente para sair com a
inteireza da compreensão.
A esfinge, definitivamente, agarrou-me pelos tornozelos e os fios
parecem invisíveis, mas estão cravados no mais profundo da boca
do peixe que se recusa a ver a LUZ. Quero os sentidos da
superfície. Mas o único caminho de passagem é o da ESFINGE. Vivo
com a esfinge e os seus caminhos tortuosos me perseguem. Não há
fuga e nem desejo de me opor. Convivo e sigo...
Goiânia, 2-5-2006.
Cida, minha grande poeta,
a beleza da esfinge é o mistério, o que existe em cada palavra, o que subverte e verte, como sangue. Em todos. Como nós. E que, exangue, dorme e amanhece até o fim. E de novo se inicia com o sol. Como uma amanheCIDA nuvem de palavras. Uma Afrodite a afrouxar a correia que distende a alma, na fronteira entre a noite e o dia. Entre a dor e o verbo. Entre a felicidade e a desdita, o medo e a poesia. Como um pássaro solitário no deserto. Arcanjo ferido de "ardilosa gentileza". Pura poesia, desterro. Sem mais palavras, calo-me em regozijo. Um abraço.
Estou aqui para apludir e votar neste magnífico trabalho, minha querida poeta Cida. Beijos.
Carlos Magno.
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