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Diálogos da esfinge (XXII) - De sombra e escritura

José Afonso Viana
1
Cida Almeida · Goiânia, GO
5/7/2007 · 88 · 5
 






Um tropel invade a noite que deixei estendida na janela. Recolho

os passos que chegaram sem as rédeas de quem os domavam. Afago

o animal exausto e sinto a carícia entre pêlos e suor, deslizando

quente dos meus olhos. Espicho a escuta longe, longe, onde a

esfinge espreita minha solidão e o vazio ecoando na sala. De novo,

tropeço no enigma das palavras.

- Sinto muito a sua falta!

- Não consigo viver sem você.

Dois punhais atravessados na minha garganta, estrangulando um

grito medonho, que se perdeu de mim.

Estanco. Paraliso.

Mas VEJO:

O bloco das palavras escorregadias. Aperto os olhos e afino o olhar,

até enxergar as duas frases petrificadas dentro do meu instante. A

esfinge as deixa ali, sob meus olhos ardidos, como um enigma

aberto à claridade seca do dia.

As palavras são cinza e cintilantes. E repousam absolutas em uma

folha de papel de superfície tingida de preto. No topo da página,

leio o que me fere, realçado pelo fundo negro, como se fosse o

avesso de um carbono, de um filme, um negativo. Negro, carvão,

luto, morte.

Mas o papel está rasgado. Como se um oráculo caprichoso quisesse

ir mais fundo para me cutucar com vara curta. Provocativamente

rasgou um pedaço da folha, até à base do incômodo texto. E a tira

que falta forma uma letra invertida, onde vejo um V.

Claramente percebo a mensagem. A letra invertida suprimindo o V

de Verdade ou o ato de VER, o verbo. Dobro a folha ao meio. Mas

na hora não percebo o que se desenhou depois na minha mente.

Ao dobrar a folha, o V assume a claridade do branco, vazio, sem

fala, inerte.

Triste, a esfinge se repete. Já não me conta novidades. Decifrei o

que não quis, o que já tinha me engolido por dentro, devorado nas

entranhas e à flor da pele, todos os meus dias perfeitos. Dou

chutes nas perguntas certas. Atiro-as para longe de mim e tento

acertar o olho da esfinge. Não preciso mais das respostas nesse

minho de torturas, tonturas e loucuras.

Abro novamente a janela. E deixo entrar o que chegou depois de

tudo... O meu ESPANTO!



Goiânia, 28-6-2006.


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informações

Autoria
Cida Almeida
Ficha técnica
Ainda, a impureza desses diálogos.
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Benny Franklin
 

DORA, seu texto é poética, é primoroso. Parabéns!
Ah! Estou com poema CORTE CESARIANO na Fila de Edição do Banco de Cultura, hora dessas dá um pulinho lá... O link é: http://www.overmundo.com.br/banco/corte-cesariano
Abçs. Benny Franklin

Benny Franklin · Belém, PA 4/7/2007 19:16
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Andre Pessego
 

Legal mesmo, um abraço, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 5/7/2007 07:07
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Adroaldo Bauer
 

Cida,
Adoro tuas esfinges em diálogo aberto com um tempo ido e um presente vívido.
Agora,
para mim restou o enigma de por que Beny chamou-te Dora.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 5/7/2007 15:25
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carlos magno
 

Olá amiga poeta Cida,
o teu texto tá muito bacana, com imágens maravilhosas, um verdadeiro show de poesia. Meus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 5/7/2007 20:20
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Benny Franklin
 

Cida, me desculpe pelo DORA. Rs. Bjs.

Benny Franklin · Belém, PA 6/7/2007 14:09
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