Um tropel invade a noite que deixei estendida na janela. Recolho
os passos que chegaram sem as rédeas de quem os domavam. Afago
o animal exausto e sinto a carícia entre pêlos e suor, deslizando
quente dos meus olhos. Espicho a escuta longe, longe, onde a
esfinge espreita minha solidão e o vazio ecoando na sala. De novo,
tropeço no enigma das palavras.
- Sinto muito a sua falta!
- Não consigo viver sem você.
Dois punhais atravessados na minha garganta, estrangulando um
grito medonho, que se perdeu de mim.
Estanco. Paraliso.
Mas VEJO:
O bloco das palavras escorregadias. Aperto os olhos e afino o olhar,
até enxergar as duas frases petrificadas dentro do meu instante. A
esfinge as deixa ali, sob meus olhos ardidos, como um enigma
aberto à claridade seca do dia.
As palavras são cinza e cintilantes. E repousam absolutas em uma
folha de papel de superfície tingida de preto. No topo da página,
leio o que me fere, realçado pelo fundo negro, como se fosse o
avesso de um carbono, de um filme, um negativo. Negro, carvão,
luto, morte.
Mas o papel está rasgado. Como se um oráculo caprichoso quisesse
ir mais fundo para me cutucar com vara curta. Provocativamente
rasgou um pedaço da folha, até à base do incômodo texto. E a tira
que falta forma uma letra invertida, onde vejo um V.
Claramente percebo a mensagem. A letra invertida suprimindo o V
de Verdade ou o ato de VER, o verbo. Dobro a folha ao meio. Mas
na hora não percebo o que se desenhou depois na minha mente.
Ao dobrar a folha, o V assume a claridade do branco, vazio, sem
fala, inerte.
Triste, a esfinge se repete. Já não me conta novidades. Decifrei o
que não quis, o que já tinha me engolido por dentro, devorado nas
entranhas e à flor da pele, todos os meus dias perfeitos. Dou
chutes nas perguntas certas. Atiro-as para longe de mim e tento
acertar o olho da esfinge. Não preciso mais das respostas nesse
minho de torturas, tonturas e loucuras.
Abro novamente a janela. E deixo entrar o que chegou depois de
tudo... O meu ESPANTO!
Goiânia, 28-6-2006.
DORA, seu texto é poética, é primoroso. Parabéns!
Ah! Estou com poema CORTE CESARIANO na Fila de Edição do Banco de Cultura, hora dessas dá um pulinho lá... O link é: http://www.overmundo.com.br/banco/corte-cesariano
Abçs. Benny Franklin
Cida,
Adoro tuas esfinges em diálogo aberto com um tempo ido e um presente vívido.
Agora,
para mim restou o enigma de por que Beny chamou-te Dora.
Olá amiga poeta Cida,
o teu texto tá muito bacana, com imágens maravilhosas, um verdadeiro show de poesia. Meus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Magno.
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