home · banco · textos-ficcao · dias de ausência para alícia kowalski

Veja também


Dias de Ausência para Alícia Kowalski
J. Felipe Brito · Rio de Janeiro (RJ) · 7/8/2008 17:34 · 115 votos · 9 comentários ·  
1
overponto
A lua, distante, salpicava de centelhas douradas os montes de gramíneas molhadas pela breve chuva que caiu. Ao longe, alguns quilômetros adiante, era possível avistar um brilho mais intenso. Ao aproximar-se, um lago. Às margens, simples e envelhecidas embarcações, redes de pesca esburacadas, debruçadas nos galhos retorcidos da vegetação que adentrava o espelho d’água. O barulho forte do vento que se infiltrava na fresta do vidro semi-aberto era entorpecente, a mantinha flutuante, no fluido espaço entre a vontade de cantar canções de liberdade a plenos pulmões e a necessidade de permanecer num silêncio enriquecedor. Seu olhar focava não só as curvas, demasiado constantes, mas, sobretudo, as expectativas caudalosas que criavam torrentes no seu imaginar. Ela abriu ainda mais o vidro, e o vento, exímio agitador de tudo o que existe, parecia lhe dizer numa voz rouca e provocante: prossiga!

Com os primeiros raios de Sol despertando o arvoredo ao redor da casa, Alícia ergueu-se em ânimo. Aspirava aquele ar distante das avenidas e das gentes como se jamais o tivesse feito sem automação. Era potente, dominava seus gestos, seu corpo! Atrás da porta da cozinha, por onde entrou na noite anterior, despejou sua mochila e toda sua pressa. Repousou sua agitação habitual na límpida água que jorrava da torneira dos fundos, instalada próxima ao roseiral, onde lavou o rosto. Abandonou suas preocupações rotineiras no fogo do café, riscado a fósforo, onde também acendeu um cigarro do único maço que levou consigo. Sentou no degrau de madeira que levava à porta e ali ficou a fumar, despretensiosamente, como se esperasse um canto qualquer dos diversos pássaros que por ali ciscavam para adentrar e servir-se à mesa, num desjejum solitário e nem por isso com menor deslumbre.

Ao cair da tarde, sentindo o calor se despedindo com o ocaso, descascava legumes e se divertia com as semelhanças que conseguia perceber entre Bizet e as bandas de rock que admirava. Grieg e Mendelssohn remetiam-na aos desenhos animados de sua infância! Debruçou-se em livros ao anoitecer. Leu uma coletânea de contos de Poe. Quando o sono surgiu, mais cedo que esperava, ajeitou as cobertas, calçou outro par de meias e deixou para o dia seguinte o exame dos filmes e documentários que os amigos emprestaram-lhe.

Saiu para caminhar quando ainda estava escuro. Pôs uma calça de ginástica sob o moletom, um casado com gorro e luvas. O frio era intenso, o orvalho da noite umedeceu as placas da estrada e os poucos carros que encontrava. Tudo estava quieto. Seu coração também estava, e este confundia-se com o pavor pela temperatura baixíssima e o desejo de sair por aí desavisado. Os poucos moradores do vilarejo que já haviam saído de suas casas para tocar seus afazeres a olhavam com curiosidade, olhares sérios, quase interrogando-lhe. Um povo que labuta desde cedo, que come o que cultiva, que trabalha para si e que tem como compromisso o gosto pelo que faz e o apego à família. Reconheceu o padeiro, que no dia anterior lhe vendera pães suíços recém saídos do forno. O homem acenou com a mão, demonstrando que por ali havia também hospitalidade aos visitantes.

Chegou ao mar. E ali, na estrada de terra marcada entre a vegetação rasteira, observou o furor das ondas e seus sopros e rugidos que amedrontavam. Sentiu-se desprotegida e apertou-se com as mãos inquietas. Quis sentar na areia e assim o fez. Ficou a admirar aquela gigantesca porção de um azul acinzentado. Sentiu-se intimidada, como se o oceano fosse um velho e sábio senhor que a observava e que em tudo lhe sabia. Ficou um tempo perdida nesta metáfora, até mirar uma senhora e um cão, vindo em sua direção, trilhando passos pela areia fofa. Já se via a aurora por trás da enorme rocha que protegia a praia. A senhora e o cão pararam antes de aproximarem-se mais, ela alongava-se e o animal corria para tocar a espuma do mar e retornava à dona, a todo instante. Alícia vislumbrava aquele cenário e não conteve um riso que redirecionou seu pensar, agora em mansidão, tendo toda aquela simplicidade como estranheza e encantamento.

Algumas manhãs depois, já acostumada com a névoa que lhe incomodava as narinas ao buscar o jornal matinal, Alícia refletia sobre o que deixava para trás naquele período em que se permitia ser outra. Retornaria ao seu vasto mundo de atividades aceleradas e vontades outras. Outros cantos, outros olhares. No entanto, algo tornava-se claro: este tempo, em que se ausentava das coisas de sempre, lhe mostrava que a vida está sempre presente onde nos sentimos livres, no seguir, no descansar e no contemplar. E recuperando a voz após uma tosse seca, deu bom-dia ao homem dos jornais.

*Primeira parte da trilogia "Warszawa"


tags: Rio de Janeiro RJ textos-ficcao conto-literatura reflexoes sol mar frio warszawa fuga natureza estrada viajar
 
canto_esquerdo informações canto_direito
Data   07/8/2008
Arquivo   5 Kb ·13 downloads
Licença  
 
pdf
5 Kb
download
 

 
canto_esquerdo comentários rss postar novo comentario canto_direito
 
Nada como dias de ausência para recuperar a paz de espírito...
Helena Aragão · Rio de Janeiro (RJ) · 4/8/2008 14:55 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Você também por aqui? =)

Cá estamos nós, na urbe, cercados por 'presenças' demais... Há de se 'ausentar' da rotina algumas vezes... ;)
J. Felipe Brito · Rio de Janeiro (RJ) · 5/8/2008 01:50 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

gostei muito.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca (SP) · 6/8/2008 13:03 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Adorei sua poesia e estou deixando meu carinho
Poeta
Meu pai era poeta e se chama José Felipe Brito,fiquei curiosa com seu J,,rs,porque sou Julia Brito,quem sabe ,nao somos parentes?Rs
Ailuj · Niterói (RJ) · 6/8/2008 14:32 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Felipe,
isolamento e mergulho interior são conquistas difíceis, mas essenciais.
abs.
MarcilioMedeiros · Aracaju (SE) · 6/8/2008 15:22 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Ailuj, espero que não sejaos parentes...hehe Mas obrigado pelo carinho. =)

Marcilio, tão essencial quando mergulhar em experiências de introspecção é escrever, que não deixa, jamais, de ser uma destas.

Abraços!
J. Felipe Brito · Rio de Janeiro (RJ) · 7/8/2008 01:36 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Ailuj munha querida obrigada pelo convite.
J.Feipe Conquistastes meu coração.
A maior dificuldade reside no desistir.
E isso sei que vc não fará jamais.
Um beijo em seu coração.
PUBLICADO.
clara arruda · Rio de Janeiro (RJ) · 7/8/2008 17:35 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

=)
J. Felipe Brito · Rio de Janeiro (RJ) · 7/8/2008 19:41 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   

Gostei muito, Felipe. Blz de conto.
Abs.
Juscelino Mendes · Campinas (SP) · 8/8/2008 19:13 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil   
 



  Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

 
canto_esquerdo   canto_direito