DIO E A FIDELIDADE DO CACO
“A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas"
JMC (Mia Couto)
Caco era amigo do meu primo Dio. Eles estudavam juntos, ou, talvez, mais bebiam juntos.
Dio morava lá na cidade. Fora criado no bairro; mas, bem depois dos vinte e cinco e ainda longe dos trinta anos, conseguiu diminuir o copo e finalmente realizar o sonho de ir estudar em faculdade; o que o fez sair de casa, mal empregar-se numa autarquia e ir viver com amigos perto do campus, onde conheceu Caco.
Depois disso nunca que ele vinha ver a gente. Quase nunca!
Quando aparecia, nem ia na casa do pai; vinha logo bater em nossa casa, cheirando as panelas e fazendo gracejos pras minhas irmãs – arre!
Foi assim que apareceu num domingo, trazendo junto o tal Caco.
Um tal que sabia tudo sobre tudo.
Comeram muito, mas também não pararam de beber cerveja o dia todo. E o Caco falando, falando. Tipo atraente, a conversa dele prendia a atenção de todos, principalmente a das moças – fez encher o fundo do quintal. Bem mais jovem que Dio, foi pra escola ainda criancinha e nunca perdeu um ano; tinha família estudada, carro próprio, e sabia tudo de cinema. Fez curso de música, piano, violão, judô, paraquedismo, canto, natação; e, como afirmaria Dio, aprendeu mais de uma língua, conhecia os livros clássicos, cometia versos e até lia razoável em latim e grego.
Vivia, assim, circundado pelas moças bonitas, os rapazes inteligentes, e algumas cabeças diferentes pela experiência e rudez, como o primo Dio.
Comia todas, e rivalizava com qualquer um.
Afinal, dizia meu primo com um arzinho de inveja, era o rei dos cursos; tinha respostas para tudo, qualquer tipo de questão; até sobre aviação, astronáutica, ou o que mais fosse, sempre haveria de lembrar um curso longínquo para respaldar-lhe as opiniões. Mas não era de vangloriar-se se o assunto fosse relações amorosas; sou fiel a todas as minhas mulheres, dizia, tão sarcástico quanto prematuramente desiludido com a raça humana.
______
O primo Dio nunca foi um homem de muitas mulheres; mas, descrente da existência, tão, ou mais, que o jovem amigo, também soube aprender ser fiel a suas poucas.
A desilusão existencial os aproximava e parecia afiná-los intelectualmente. Segundo Dio, na faculdade teriam realizado em conjunto um bom número de trabalhos nota dez, além de bem sucedidos colóquios.
Numa das bebereções lá no fundo do quintal, sempre cheio quando eles apareciam, lembro dos dois a expor com sarcasmo sua teoria gravitacional da História; segundo a qual – tudo tende a ir pro buraco, dizia eufórico o embebalhado Caco, ao som de gargalhadas do fiel parceiro, que remendava: – ontem foi melhor que hoje, e hoje vai ser melhor que amanhã.
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Depois de graduados, na “gravitacional” e, profissionalmente, pouco promissora, área de História, Caco seguiu fiel aos estudos, enquanto primo Dio preferiu a fidelidade ao copo.
O amigo, antes de sair de cena, ainda teria insistido alguns meses, tentando convencê-lo a não se entregar a um cômodo niilismo; mas, desgraçadamente vulnerável, primo Dio cedera ao eixo do destino, que levou ele sim pro buraco – inapelavelmente.
Coma alcoólica!
Ou overdose.
Foi a notícia que circulou pelo bairro.
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Wancisco Franco
Vandin apresenta-nos seu primo Dio
Você descreveu tão bem as conversas no fundo do quintal que até consegui participar.
Muito bom.
Ivette G M
Hummmm vc me fez lembrar de uns tempos remotos... mas nem sei dizer se me identifico com Caco ou com Dio. Com os dois, se é possível...
Suraia · Rio de Janeiro, RJ 23/4/2009 02:02
Olá, deixo aqui meus votinhos...
Adoro seus contos.
Pois é o álcool já destruiu muitas vidas e lamentávelmente continua. As pessoas sempre pensarão que overdose é coisa de fraco.
abçs
Parabéns! Um texto com a riqueza de dois personagens muito bons! Gostei bastante, só lamento a sorte de Dio...Bjs.
poesiabrindada · Rio de Janeiro, RJ 23/4/2009 18:06
Wancisco,
Como diz os sublimes ensinamentos: - " A porta da perdição é larga!".
Abraços
Mais um belo trabalho com um jeito todo simples e envolvente de mostrar os acontecimentos.
Parabéns.
Votado.
Wancisco amigo, estes "causos" acontecem todo dia. Pior é com pessoas as vezes que queremos bem... Toda vez que junto alguns amigos para formarmos um "Samba de Raiz" , tem um amigo que bate um tantan tanto de acompanhamento como de corte que é uma beleza. Mas tudo tem que ter um "quente". Bota uma garrafa na mesa rapidamente esvazia. Outro dia operou catarata curou no buteco. Anda falando que tem três mulheres... que é isso e aquilo... magro como uma vara de bambu, cheio de cachaça... Falei pra ele: Estás brincando com este corpitcho e este bafo não tem mulher que aguente... Esse é um que apesar dos 45 anos não demora muito.
Mas seu conto foi ótimo. Como Ivette falou eu tambem participei desta brincadeira no seu quintal...
Parabéns amigo. Votado . Bjs, Mirtes
Olá Wancisco,
Você escreve de um modo que nos transporta para a cena. Entro no texto e participo.
Gostei muito.
Parabéns
Votado.
Beijos
Patty
Wan,
triste história que se repete e repete...
se vc perdeu um primo para o alcoolismo eu perdi um irmão.
foi triste demais!
Quando resolveu mudar já era tarde, a cirrose o matou...
bjs e votos
Oie Wancisco,
O seu texto mexe com a emoção da gente.
Emocionante.
Votado e publicado com merecimento.
Parabéns
Kisses,
Naith
Admiravável, fantastico. É, um enredo parecido familiar a qualquer um, no entanto enriquecido pela prosa.
abraço
andre.
Triste fim para primo Dio. Ele cumpriu à risca a lição do 'ontem melhor que hoje, e hoje melhor que amanhã'. Construiu um futuro vazio. Retirou do pote até secar. Acredito numa corrente filosófica contrário: Hoje melhor que ontem e amanhã ainda mais vindouro... Boa história! Boas reflexões!
llamar al pan · Belo Horizonte, MG 23/4/2009 19:55
votando... dê uma olhada neste vídeo em edição... http://www.overmundo.com.br/banco/farrapos
andré diefenbach · Santa Maria, RS 23/4/2009 20:43
Belo conto cheio de ensinamentos e alertas...
Bravo!Votado
Suas histórias são tão bem contadas que parece que de fato aconteceram. Já que não dá mais para esbarrar com o Dio, quem sabe algum de nós não acaba encontrando o Caco por aí.
Abs
Alcool...caminho do precipício...
Gostei da historia...embora triste...
Wan. interessante a narrativa e muito corriqueira inclusive em nossos lares. A forma que escreves nos coloca realmente como integrante de sua narrativa. Bjs e votos.
Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2009 00:12
Wancisco,
Beleza de texto. Sabia tudo esse Caco, hein ? Até sobre a "teoria gravitacional da História". Dessa eu nunca tinha ouvido falar, rs (e olhe que eu fiz graduação em História). Seu texto nos remete aos bons tempos da faculdade, de tantas amizades, aulas e estudos, mas também de uma cervejinha vez em quando, rs... Só foi triste o que aconteceu ao primo Dio.
Parabéns ! Deixo o meu voto...
Um abraço
belo texto .....votado gostei
Vanderlei Rodrigues Alves · São Paulo, SP 24/4/2009 00:39SEU JEITO DE CONTAR ENCANTA MUITO.A MESMA DOR,E OS SERES TRILHAM CAMINHOS DIFERENTES.CADA UM TEM UM JEITO DE LIDAR E COM A DOR. O POETA TRABALHA COM AS PALAVRAS PARA DECIFRAR NOSSOS SENTIMENTOS.PARABENS.BELO TEXTO.
solares · São Paulo, SP 24/4/2009 10:51
wancisco franco · São Paulo (SP)
DIO E A FIDELIDADE DO CACO
Um texto agradavel de ler embora tenha um final triste, com a condição da morte. Mas foram iguais a muitos poetas brasileiros que morriam tuberculosos e eram sonhadores da liberdade e emancipação política com a república.
lembrou também Lord Byron uma espécie de Che Guevara daquela época, que morreu em Missolongui pra onde foi, para lutar pela independência da Grécia que é a Pátriia dos Poetas.
...A desilusão existencial os aproximava e parecia afiná-los intelectualmente...
Ficou muito bom.
parabéns.
Abração Amigo
Wan,
como é bela sua maneira de contar historias.
Causos de quintal e histórias que podem ser de todos nós, mas com personagens tão reais, que algumas vezes me pergunto se você criou ou recriou.
Na verdade, escrever é isso, é falar de gente, fazer gente sentir, fazer gente pensar. Usar da arte que lhe foi dada, para quem sabe transformar Dios e Cacos, ou Cacos em Dios.
Um beijo grande.
Deixo meus sinceros agradecimentos à atenção e apoio de todos
- grande abraço!
Franco,
você apresenta a diferença entre o que mata e o que cura: a dose. Tempos de faculdade, de conversas em torno de uma garrafa de qualquer coisa...
Abraços
P.S.: Essa citação de Mia Couto, transcendente!
Anderson Frasão · Canhotinho, PE 25/4/2009 18:12
Parabens e sucesso!
Andre Luiz Mazzaropi
Wacisco,
Eu adoro conto e os seus são muito bons porque agem em nos, este ai em especial me remete a tantos Dios e tantos Cacos que conhecemos ao longo da vida. Enquanto lia, eles foram passando...
Muito bom e votado com prazer
vandin nostálgico e frio, de humor...
dio seria diógenes?!
abraço,
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