Essa história começa no terminal, sob os primeiros raios de sol em uma manhã agradável de outono. Aparentemente, a natureza quer te dar bom dia, mas com todo esse barulho, você passou por ela com indiferença, e mais uma vez, sem cumprimentar.
O primeiro passo fora de casa e já vem a companheira de sempre, a resignação.
Uma caminhada decidida para o ônibus, e à sua cabeça vêm o Chico, encarnado em sua consciência, cantarolando baixinho “todo dia eu só penso em poder parar, todo dia eu só penso em dizer não, depois penso na vida para levar, e me calo com a boca de feijão”.
No coletivo cheio é quase poético. E irônico.
Na verdade, é no coletivo que você vai sentir essa ironia de verdade. Alguém te empurra, outro pede licença, alguém reclama, você se aperta, sente raiva, sente pena, sente o fedor. No fim você pensa que ta fazendo isso pra ganhar a vida, aí você lembra que é ali que você perde a vida, todo dia um pouco.
E na sua cabeça, o nada para fazer, o tédio mental em meio ao martírio do corpo, te faz refletir.
Nada pode ser mais cruel que pensar em uma hora dessas. Afinal de contas, não servem seus compromissos, suas batalhas diárias, sua falta de tempo, suas necessidades e determinismos? Era primordial não sobrar tempo para pensar.
Sua vida precisa ter sentido. Você precisa achar que acordar, mesmo com sono, tem um motivo. Achar que agüentar o hoje vai valer a pena amanhã. Ocupar-se com o dia-a-dia para não se ocupar com o resto.
E aí, você fica tentando entender o mundo. Você fica tentando entender você. E no fim, essas coisas não parecem certas. O trânsito lento e uma matemática que não combinam: no coletivo engarrafado mais de 100 coisas se acotovelando, nos carros ao lado, indivíduos, sozinhos, ocupando espaços que dariam para mais coletivos.
Com mais coletivos, ainda que ocupados pelos indivíduos dos carros, os coisas poderiam ficar mais bem distribuídos. E quem sabe se descoisificariam um pouco. Os coisas poderiam ser indivíduos, quem sabe.
Aí você fica pensando em justiça, mas enquanto está distraída, alguém bateu uma bolsa pesada em você. Quase como um despertar, a ausência de um pedido de desculpas acompanhadas de um olhar hostil esvaziam sua mente das indagações.
Ufa! Você se coisifica de novo, e de volta ao seu cotidiano você consegue continuar o seu dia, no desejável conformismo de sempre. Só uma pequena revolta se instala em você: Porque não te poupam, ao menos, de pensar? Porque não evitam essa angústia?
Então você reclama, como todo mundo (reclamar é uma maneira rápida de aliviar as revoltas sem precisar tomar nenhuma outra providência). É, talvez quem sabe organize um protesto.
Na sua cabeça, você já imagina: cartazes espalhados em frente a prefeitura, o povo gritando “Televisão no ônibus, JÁ!!”
Olá hamartia!
Estou deixando aqui as boas vindas.
Gostei do texto, apesar da visão pessimista que ele carrega, espero ler outros... E lembre-se, sempre há um outro lado.
Beijos.
"todo dia 'ela' faz tudo sempre igual..."
Andamos assim aqui em sp, gostei do texto e como disse o amigo Robert, "Estou deixando aqui as boas vindas". Um abraço!
Olá, obrigada pelos incentivos e pelas boas vindas!
Robert Pois é, ficou um pouco carregado! Mas foi o sentimento de uma sexta-feira congestionada, em pé em um ônibus por quase 2 horas! ehehe Não teria como ser muito positiva!
Higor Nosso cotidiano paulistano é realmente uma repetição diária de situações desgastantes!
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