É interessante observar como os tratados políticos do passado focavam seu interesse nas grandes questões do Estado. Esse gigante, esse imponente Leviatã, como cunhado por Hobbes, ocupava plenamente o imaginário e o pensamento dos pensadores políticos até bem pouco tempo. Sua estatura possivelmente inspirava a grandeza humana, ou o gigantismo que a humanidade criou para se espelhar utopicamente.
A conquista do Estado, bem se sabe, significava “o” controle e “o” domínio sobre um povo ou a administração dos corpos, basicamente. A melhor e mais eficaz forma de se obter o poder do controle e do domínio, certamente. As formas de controle e de alcance do poder variaram, mas o objetivo não passou do controle, por direito ou pela força, da hoje chamada simploriamente de “máquina” do Estado pela imprensa. Ou, mais que isso, a magnificência que emanava e fazia resplandecer aquele que se erguia nos palácios. Mesma a Igreja era um Estado, ou tão grandiosa e articulada como um Estado. Havia, paralelo à crença no poder da força e do engenho estatal, um encantamento com esse artefato de força e imponência.
Uma nova divisão do poder
A história se incumbiu de fazer com essa crença e esse encanto ganhassem paulatinamente, a partir do desenvolvimento das forças produtivas fundadas na acumulação de riqueza, concorrentes de cada vez maior peso: as chamadas “organizações”, as megaempresas. O Estado, hoje, mantém sua fundamental importância de parâmetro organizador do poder, mas tem sua força diminuída exatamente pela pressão das organizações numa realidade ditada pela lógica econômica. Isso significa que o antes todo-poderoso Leviatã se sujeita, na contemporaneidade, a forças que antes não estavam definidas como suas opositoras, mas que o poder econômico disperso da revolução burguesa criou e tornou robustas demais para que aceitem um papel secundário na divisão do poder.
O Estado parece agora circunscrito à função de servir a esses novos senhores, como a onda neoliberal, que já completa 30 anos, bem demonstra. Com certeza, estamos falando de uma nova forma de poder, de conquista do poder, que não passa necessariamente pela tomada do Estado, mas o circunscreve, seja quem for o seu mandatário, a suas ameaças e circuitos econômicos. Muitos dão a esse novo quadro o epíteto de “Capitalismo Tardio”.
Pequenos leviatãs
O cidadão está fora dessa peleja, como estava quando o Estado tinha sua magnitude. Continua obedecendo, agora a reis e governantes diversificados, que assumem diferentes nomes, mas que conservam a marca do mando e do controle sobre os demais. O poder se dividiu, mas manteve sua identidade como algo que determina a liberdade de ação e, tomados os parâmetros da evolução das forças produtivas rumo à produção da subjetividade, determina principalmente pensamentos, sentimentos e desejos.
Com essa nova divisão, é interessante notar que, do ponto de vista da subjetividade, o que se estabelece é uma nova crença: a de que se há mais vagas para poderosos – e qual é o homem que nunca sonhou ser poderoso?. O cidadão, assim, alimenta a crença idealizada de que, de algum modo, pode ocupar o lugar do poder em diferentes níveis pois aquele monumento deificado, o antigo Estado, está agora em todas as praças e ruas, escritórios e gabinetes, esperando ser conquistado com menor esforço do que antes. Mais: parece que todos crêem que são ou podem ser, no circuito de sua vida pessoal e profissional, soberanos não apenas sobre si mesmos, mas sobre uma boa parcela dos que os cercam. Podem, por exemplo, comandar uma empresa, uma espécie de pequeno feudo no qual se pode exercer o domínio e o controle, como um pequeno Leviatã.
É uma falsa crença, mas afinal que crença se pode afirmar categoricamente verdadeira? Não certamente a crença no Leviatã Estatal, que somente se ergueu pela promessa de bom comportamento por parte de todo aquele que a ele não tivesse acesso, pois é preciso lembrar que o sentido do Estado, para Hobbes, era promover a segurança de todos, que deveriam abrir mão de muitos de seus interesses em prol da soberania do Leviatã e, certamente, do soberano que o controlava. Alguém duvida da imensa insegurança presente nessa abdicação da própria “boa vontade”? Ao existir, o grande Estado leviatânico, como monstro que sempre foi, rebaixa a noção ética, pois para que imaginar uma melhor forma de relação do homem com a realidade ou entre seus pares se há alguém ou algo a zelar por isso?
Reis escravos
O que fazia um soberano melhor do que os cidadãos? Essa é a questão irrespondível para o sujeito contemporâneo. Em vez de tentar respondê-la, afirma para si mesmo que, de alguma forma, na sua inteligência de rebanho, nada há de melhor em outrem, formalizando a democracia no que esse sistema tem de mais característico: a sustentação dos que, apesar de nada serem, projetam, na sua vã fantasia de poder, a certeza de que são, cada um projetado na força do conjutno, muito maiores do que nenhum Estado conseguiu ser em toda a história.
Em outros termos, as reses do rebanho, no contato físico da corrida para o matadouro, sentem, na força que o conjunto fornece a cada uma, uma potência inaudita. O que não sabem é que a força que sonham ter é tão concreta e bovina que, como sempre acontece com coisas com essa essência, se dissolve imediatamente no ar no primeiro contato com o mundo que está além de suas pretensões. O máximo que conseguem é idolatrar a imagem de si mesmos que, diga-se de passagem, não criaram, com a ajuda de objetos que lhes sustentam essa crença comoventemente frágil.
Hoje, para escrever um tratado sobre as grandes questões políticas, o que se impõe é que se volte a atenção não mais para os magníficos Estados dos moldes clássicos, mas para as sombras que eles deixaram projetadas na alma dos já chamados homens de boa vontade. Boa vontade, aliás, que os faz agora pensar ser deuses, para além de reis, monarcas ou governantes, justamente no momento em que nada são, além de meros escravos, como jamais os comuns foram em toda a história. Pois, a força que os controla e domina não mais está lançada em imagens beatíficas nos céus ou no alto de minaretes e torres. Habita dentro de cada sujeito contemporâneo e de lá, desse espaço no qual nem sequer o próprio sujeito conhece bem, comanda o tempo, as ações e todos os fluxos criados para administrar corpos e essas novas maravilhosas invenções, as subjetividades, emanadas dessa figura emblemática que se supõe governar a obscuridade da alma, o imponente e impotente Eu.
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