Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Do Livro dos Esquecimentos, Parte II

1
Pepê Mattos · Macapá, AP
9/2/2008 · 98 · 13
 

Introdução para uma canção sem letra e música

Meio que perdido em lembranças me encontro onde as dores soam feito badaladas surdas do relógio na ante-sala
de todas as solidões.

Depois da coruja desnorteada adentrar num vôo cego
na sala de estudo e o silêncio fugidio
na noite erma e cálida algo que não se vê
se adensa e comprime: dor nenhuma o espírito acusa
do que a dor de se sentir só em meio à turba.

O fato irreversível denunciado pelo impacto da distância
involuntária e indesejada, porém consentida,
outorga o ato intrínseco de se desejar
o corpo amado ardentemente, ainda que quilômetros posterguem o encontro,
qualquer encontro.

Um olhar desavisado denuncia o vazio;
os olhos não ratificam o que o coração sente.

Por trás da penumbra concreta dos dias a revolver o que o tempo e a distância não conseguem obnubilar, teu sorriso é um sol,
o maior dentre todos os sóis conhecidos, a iluminar o desenrolar de minhas andanças neste lugar, ao sul de meu coração.

O sopro deste vento frio a tentar cortar incessantemente
os laços atemporais que me povoam os sonhos
é o fantasma derradeiro e insurreto transmutado em lágrimas, todas as lágrimas não derramadas dos amores desfeitos e dos desamores que se estendem para além do fato de já não serem mais que arremedos sombrios, vultos invisíveis a arrastarem
correntes e grilhões nos corredores empoeirados de suas desvivências.

É também o sopro selvagem do furacão, este sonoro e ameaçador,
a devastar paixões de alicerce fútil que se liquefazem no hoje
e que nada mais são que representações sem pantomimas do gélido e moribundo cotidiano vivenciado entre quatro paredes.

Folhas desgarradas dos álbuns de amareladas fotografias
soçobrando ao sabor dos vendavais inter-relacionais.

Destarte, trago incrustado na memória o som mavioso de tua voz a despedaçar os silêncios e a silenciar o vozerio retumbante da anarquia.

Sou, inexoravelmente, o cavaleiro de couraça impenetrável
a atravessar o inimigo que se escamoteia
ora na deslembrança vacilante,
ora no luxurioso e torto olhar,
anátemas fantasmais a fustigar-me o espírito.

Vastas distâncias tão presentes são minimizadas toda vez
que o desejo se materializa;
torrentes do que a expectativa cria são alvíssaras cada vez mais concretas à medida que o tempo escorre
de um hemisfério a outro do relógio de areia.

Uma vez concretizado o encontro o sonho se desfaz
dando corpo ao que mente e alma, noite e dia,
verdadeira e insistentemente, clamam em silêncio
posto que o amor, por ser forte e verdadeiro,
flui incólume no desvario insano destes dias onde se alternam frio e calor, memória e esquecimento, resignação e ânsia,
sedimentando o que foi segredado feito tesouro intocável a ser oferecido em instâncias que aqui não cabem pormenores.

compartilhe



informações

Autoria
Pepê Mattos
Ficha técnica
An internet affair... again...
Downloads
137 downloads

comentários feed

+ comentar
Eduardo Butakka
 

Nossa... Sem dúvida um dos poemas mais belos que já vi.
A distância, sempre presente. As distâncias físicas eu aprendi a transpor, as outras, ainda não.
Gostei de como relata o olhar, esse traídor.
Parabéns!

Eduardo Butakka · Cuiabá, MT 6/2/2008 19:46
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Pepê Mattos
 

Valeu, Eduardo... À guisa de explicação são alguns poemas escritos em 2005 sobre "an internet affair"... Sairá em mais duas ou três partes... Talvez quatro, vamos ver... Obrigado pelo "Nossa"... e pela continuação desse nossa, rss... É, a questão do olhar é um fato... Não é fácil controlá-lo quando a distância existe... Abraços...

Pepê Mattos · Macapá, AP 6/2/2008 20:35
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
brigitte
 

Pepê,
Perdi a parte I, isso não me perdoo, embora peça a você dsculpas pela minha falha.
Desde a primeira estrofe até a pultima é faboloso seu sentir e seu expressar. PERFEITO.
Abraços e volto.

brigitte · Goiânia, GO 6/2/2008 23:22
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Nydia Bonetti
 

Belíssimo, Pepê!
Melancólico, porém, sem perder a esperança...
Bjo!

Nydia Bonetti · Campinas, SP 7/2/2008 13:51
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
BETHA
 

Pepê,
estou acompanhando esse "internet affair", e devo te dizer que, com happy end ou não, ele te rendeu versos maravilhosos, porque tua sensibilidade se percebe em cada letra de teu canto tão amoroso e ardente! Lindo poema...
abçs de betha.

BETHA · Carnaíba, PE 8/2/2008 10:05
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
brigitte
 

Retornei pois gostei demais.

brigitte · Goiânia, GO 8/2/2008 12:32
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Nydia Bonetti
 

Merecidos votos.
Bjs.

Nydia Bonetti · Campinas, SP 8/2/2008 22:25
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Benny Franklin
 

Grande! Muito Grande!
Pepê Teu Canto é de encher o estômago de palavras sinceras.
Grito de nós!
Abçs.
Benny Franklin

Benny Franklin · Belém, PA 9/2/2008 12:26
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Vinícius de Barros
 

Merecidos votos mesmo!

dê, depois, uma olhada no meu texto:
gostaria da sua opinião:
http://www.overmundo.com.br/banco/as-maos-e-o-amor

Vinícius de Barros · Cuiabá, MT 9/2/2008 13:11
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Thyago Mourão
 

Magnífico PePê!...abraço...meu voto

Thyago Mourão · Cuiabá, MT 9/2/2008 15:39
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marcos André Carvalho Lins
 

muito bom, Pepê.
parabéns!!!
abraços,

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 9/2/2008 17:26
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cintia Thome
 

Vastas distâncias tão presentes são minimizadas toda vez
que o desejo se materializa;
torrentes do que a expectativa cria são alvíssaras cada vez mais concretas à medida que o tempo escorre
de um hemisfério a outro do relógio de areia.


SÓ CABE A VOCÊ. COMO SÓ CABE A ESTE POEMA DIZER: PERFEITO. ESCORRE NO REAL DE UM PEITO.
SHOW.

Cintia Thome · São Paulo, SP 9/2/2008 18:07
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Branca Pires
 

Uau, Pepê!
Esse eu naõ tinha visto. Mas sem dúvida não é uma lembrança perdida, mas encontrada em todos os teus versos. Nossa, ficaria por horas e horas viajando...
E que sol esse sorriso, heiN O mais belo de todos os sóis... Puxa, iluminadíssimo o sul do teu coração.
Adorei!
Abração

Branca Pires · Aracaju, SE 14/2/2008 09:16
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados