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DO TEMPO DE MEU PAI

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Carlos Mota · Goiânia, GO
3/4/2009 · 110 · 18
 

De tudo que eu li nos livros, minha vontade maior era de ter tido mais tempo do tempo de meu pai. Um debruçar sobre o saber simples das coisas de meu pai, aquilo de encostar-se na vivência dos anos, de se deitar na rede com os pés virados pra porta. Meu pai tinha o tamanho das coisas maiores e a voz de um tenor em cantares de ária, mas era água de poço e era passarinho. Nos dias de todas as semanas meu pai lia seus livrinhos de bolso, caubói – o seu livro falta dez folhas – já sabia de cor a história. E o vizinho se ria da gaiatice do meu pai, e ele, meu pai, já tinha noventa anos. E do garimpo: o rapaz andava com um baita problema de hemorróidas - passa açúcar – e sara?! – sarar não sei, mas o fiofó! garanto que fica doce! meu pai contava e de resto era só ouro em pó em frasco de penicilina. E meu irmão se tremendo em sezão de Jacundá a Ouro Fino. Quando era dia grande meu pai punha terno de linho. Isso agora eu acho que invento aqui neste parágrafo, pode ser que fosse apenas daquelas calças de algodão cru e camisa xadrez, mas confesso que me pareceu chique meu pai de terno em domingo de missa e quermesse. E a bateia e a chinela de tiras guardadas na dispensa. E o cachorro Peri latiu pro homem do censo. Cachorro não sei por que não gosta do censo nem dos correios nem dos testemunhas de Jeová. Daquele dia do circo que eu já contei num poema eu guardei foi a mágoa do meu irmão e o cheiro de glostora no cabelo. Do meu pai eu não guardei mágoa, e até me esqueci foi rápido do circo e do meu jeito de palhaço. Eu posso dizer aqui que meu pai bamburrou, mas inventar não vai deixar mais gordo o testamento, este que nem ouve se bem me lembro - meu pai que deixou muito mais que bens materiais. Um dia que estávamos passando por Belo Horizonte, meu pai viu a estação e disse que se lembrava, e meu irmão cismou – qual nada, aqui o senhor nunca passou. E ele conhecera aquilo da década de trinta: uma boroca rota, calças surradas, a chinela de tiras, uma perna mal curada de uma ferida braba distanciando o destino. Havera de chegar em São Paulo. É que quase vira suco... Pro seu Benedito Alves assuntou que não tinha o soldo pro que lhe era oferecido. E esse era outro tempo do meu irmão inda bastante pequeno, aquele da sezão e de BH. E o amigo: - não queria dinheiro de imediato - era só pra ajudar por causa da chegada recente e das crianças pequenas.
O leitor há de observar que minha narrativa não se atém ao plano do tempo e espaço, e assim o personagem viaja de cidades em cidades e de situações em situações às vezes em um único parágrafo. Como escrevi inda a pouco, o meu pai não quis as terras – eram terras - oferecidas pelo amigo, e foi criando assim meus irmãos em casas alugadas e bem depois foi que eu apareci: um parto de risco, se é que se atinava pra época, pr’uma mulher de 42 anos.
Aquela de rezar pra cobra – e ela não sai do lugar! - ouvi das conversas na beira da fogueira, mas nunca vi a cobra paralisada nem nunca vi a cobra não paralisada. E era meu pai que contava e eu me encantava com essas suas verdades de mentira. A caravana dos piauí trouxe no lombo dos jumentos, costumes credos rapadura e farinha, e essa gente humilde e meu humilde pai, e o povo se fez vila: a Vila Piauí.
- Sou mesmo muito rápido, quando pensei em cair já tava no chão! E o dissicleta, isso mesmo, era como meu pai o chamava, e o corcunda e o porrola, os que eu me lembro do nome eram animais dóceis e servis, mas eram jumentos... - minha tropa! -
Pra se ir dali pra capital já se fazia em ônibus de carreira, e era uma daquelas jardineiras bicudas e arredondadas que se vê em filmes antigos. E agora minha lembrança é um filme antigo de estrada esburacada e atoleiros, e de caminhões e caminhões e toda sorte de veículos, e um trator aqui e acolá a desarrancar da lama mais um dos tantos atolados. Meu pai disse que mais tarde o asfalto ia chegar com os militares. Ele na sua inocência. Soubesse e preferia os buracos e as quase quinze horas de viagem. Hoje é bem ali e esconde fundo algum passado. Tristemente.
Da lembrança de pouquinho de casado: - não, nunca mais beberia nada alcoólico. Seu compadre o interpelara - bêbado no bar?! - te levo em casa! Apenas uma inocente cachacinha antes do almoço, nem bebida, sobre o balcão da bodega.
Não à cerveja. Não ao vermute. Nem mesmo um copinho sequer de um inocente ‘Elefante’. Muito tempo já crescidos os filhos. Era assim a opinião que era dele meu pai.
O ano de 1995 lembrará ao leitor algum acontecido, ao menos que seja tão novo e não vivera já tanto tempo, e foi nesse ano que meu pai se despediu. Janeiro o velho contou 92. Nascera em 1903 no Piauí. – minha festa durou dois dias! Isso dissera o velho ao seu amigo Manuel, o mesmo Manuel que ouviu dele duas semanas depois - estou cansado! Premonição? A pneumonia foi quem levou meu pai. Internado.
E meu pai não mais abriu os olhos. Parece que dormia o sono dos justos.



Sobre a obra

... minha vontade maior era de ter tido mais tempo do tempo de meu pai.

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Carlos Mota(Uruaçu Nascimento)
Goiânia Go
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Doroni Hilgenberg
 

Carlos,
que história linda e comovente.
Que bom que vc tráz no coração lembranças desses tempos, momentos contados pelo seu pai, momentos vividos e momentos lembrados. E essas lembranças do garimpo são demais, comicas e dolorosas mas marcaram uma época.
E você hem? cai não cai...mas caiu e se fixou na vila Piaui.
Mas seu pai viveu uma vida, tem história, deixou exemplos e saudades.
Gozado que a gente pensa isso mesmo, queríamos ter tido mais tempo para passar com nosso pai.
Só sei que depois dessa leitura, dá uma vontade de desandar a falar do pai da gente também, pois parece que desse tempo, todos os pais eram iguais .
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 30/3/2009 14:49
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graça grauna
 

Meu querido Carlos Mota: a memória é parte da nossa identidade e quando as boas lembranças remetem ao universo dos nossos pais, aí então precisamos render todas as homenagens possíveis a um tempo que um desejamos que fosse nosso. De certa maneira, quando metamorfoseamos as lembranças em papel e tinta ou mesmo buscando a imagem de uma velha máquina de escrever, nas paragens virtuais, aí nos expomos ora como contadores de histórias ou poetas conscientes de que sem a história memória dos nossos pais a nossa história memória não seria possível. A sua narrativa é maravilhosa, tem identidade; dá até pra sentir o sangue latejando na sua veia de grande escritor. Paz e bem, Grauninha

PS: beleza de título...."Do tempo do meu pai".

graça grauna · Recife, PE 30/3/2009 19:20
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graça grauna
 

CORRIGINDO:
...render todas as homenagens possíveis a um tempo que um dia desejamos que fosse nosso...

graça grauna · Recife, PE 30/3/2009 19:21
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Pat Borato
 

Este texto me emocionou porque é muito belo! Parabéns. abração.

Pat Borato · Rio de Janeiro, RJ 30/3/2009 21:41
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José Cycero
 

Seu texto é por assim dizer a vitória da lembrança sobre o esquecimento. Reminiscências que nos toca a alma, valeu amigo e parabéns volto sim e voto. Valeuuu

José Cycero · Aurora, CE 31/3/2009 22:35
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Carlos Mota
 

Doroni Graça Pat J.Cycero,
obrigado pela leitura que fizeram do meu texto.
fiquei deveras emocionado
beijos,

Carlos Mota · Goiânia, GO 1/4/2009 10:46
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Doroni Hilgenberg
 

voltando
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 1/4/2009 14:53
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camuccelli
 

Quando lemos algo assim.Ficamos imaginando a leveza,sutileza dos dedos dançando sobre as teclas do comutador.Dos olhos dançando de cantoa canto.A mente administrando idéas soltas.Depois vem a revisão.Será foi preciso revisar?

camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2009 16:16
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Cláudia Campello
 

...lindo. mais ainda pelo o q despertou em mim.....essa vontade doida e doída de abraçar o meu.
gostei mtoooo

bjsssss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 2/4/2009 00:57
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Cláudia Campello
 

mas não posso mais. nao mais.

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 2/4/2009 00:58
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nina araújo
 

O texto denso que dá alegria de votar e reler outras vezes...beijos poéticos,

nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 2/4/2009 15:55
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LAURO WINCK
 

Muito bom, gostoso de ler, parabéns.
votado
bjs

LAURO WINCK · Rio Pardo, RS 3/4/2009 09:01
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raphaelreys
 

Momentos magicos que devem serem lembrados!

raphaelreys · Montes Claros, MG 3/4/2009 09:29
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wancisco franco
 

Um texto delicioso.
Muito bom viajar pelo tempo do teu pai.
Votado.

wancisco franco · São Paulo, SP 3/4/2009 09:33
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

belíssimo trabalho, um grnade texto.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 3/4/2009 10:42
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Mirtes Carvalho
 

Carlos, Graça e Doroni tem razão, Muito bonito o texto. O carinho com que você fala dele é muito bonito e realmente emociona. Parabéns amigo, já fechei seus pontos para completar a votação.
Continue contando fatos pois você é bom nestas coisas e passa emoção. Conte mais garoto, anda!!!!
Bjs, Mirtes Carvalho-

Mirtes Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 3/4/2009 13:19
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meus traços e linhas
 

Carlos, qto tempo não te visito!
viaajei na tua narativa... lmbrei do meu pai tb, qdo vc falou de glostora, aquele óleo que colocava no cabelo e deixava uma passoca, e o cheio ese nem se fala! rsrs...

Muito bom voltar no tempo,e o carinho que devotas a ele , muito lindo!

bbjss

meus traços e linhas · Cabedelo, PB 4/5/2009 20:27
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ayruman
 

Um grande abraço. jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 6/5/2009 01:10
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