- Como é a primeira vez, a heroína você enfia por uma veia do pé, pra não subir muito rápido. Ela disse, um pouco antes de eu começar a sonhar.
Cores flutuantes, ela dançava segurando um pano vermelho por trás da cabeça com as duas mãos. Flutuavam as cores todas, incandescência ruiva, russa, linda. Ela fosforescia, as bochechas redondas, rosadas, um par de seios enormes, decote, fendas nas roupas, nas bochechas covas. A luz amarelada a despia, ela se despia, despia-me e passava, inadvertidamente, a mão por detrás dos meus cabelos. Juntos dançávamos, mas eu permanecia sentado, estático, em paz, numa agitação subterrânea, subcutânea, bonita, obscura. A sensação de pertencer ao meu corpo pela primeira vez e do corpo dela pertencer-me ainda mais, sensação de sentir-se, de estar ali. Vontade absurda de ficar suspenso pelos pés, bom, curado, perdoado de todas as falhas que eram muitas, tantas. Falhava mais, mas não sentia culpa nem dor nem medo nem vontade de chorar nem de rir. Ela dançava, voava, eu a enxergava como radiografia, a minha filha na barriga. O nariz dela, um olhar como o dela, outra dela, cópia, que se dançasse como ela para alguém como eu teria as pernas quebradas pelo pai. Pai, eu via o meu pai, minha mãe, minha avó, o pai dela com ela de braços dados pelo corredor branco, flores brancas tudo branco, muita luz, havia muita luz. Claro, alvo, brancura excessiva para os meus olhos pretos, escuros, sujos, olhos de pessoa louca, que enxergam mas não estão ali. Ela sim estava, cabia, media, encaixava-se no sonho como peça imprescindível. Aos pouco se esvaia, ia, não valia mais a pena. Flutuava inconstante, a dança descompassada, feia, cheia de sobras, falhas, medo. Não acompanhava nada, nenhum som, música, barulho-de-gota-da-torneira. Movia-se espalhafatosa sem propósito, sem a menor graça. Levantei-me sem me mover, sem sair do lugar e bater a cabeça dela quantas(?) vezes na parede. Ela caiu sem morrer, sangrava sem pingar, sem sujar todo o carpete marrom eu não estava em pé nem flutuava. Nada estava bonito, ficou tudo sujo, asco, sangue vermelho da cor da parede rosa.
- Como é a primeira vez, a heroína você enfia por uma veia do pé, pra não subir muito rápido. Ela havia dito, e disso eu me lembrei, um pouco antes de voltar a sonhar.
Pedro de Oliveira
lindo texto, bem elaborado.votei.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 2/8/2008 18:09
Parabéns,
Meu voto pelo lindo trabalho
Venha conhecer meu trabalho ok
Edson Rufo
.
Porrada pura!
Gostei!
Aproveito e convido a me fazer uma visita:
http://www.overmundo.com.br/banco/urbano-iii
texto forte e alucinante muito bom cara!!! um abraço
O poeta oculto · Teresina, PI 4/8/2008 13:49Duas vezes vim ler para criar coragem de votar, não sei esse texto me deu uma agonia da qual eu não consegui me livrar...
Angélica T. Almstadter · Campinas, SP 4/8/2008 16:24Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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