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Doces presentes da mala de mascate

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Roberta Tum · Palmas, TO
18/10/2007 · 108 · 7
 

- “Eu vou te dar um presente. Trouxe de longe pra você!” – a conversa começou assim naquela manha de terça-feira na casa de Natália.O pai, herói sem tamanho aos olhos da menina de nove anos abria a mala em cima da cama. Cheia de pacotes. Comerciante. Esta era sua profissão. Saia do interior de Goiás para São Paulo, para fazer compras. Na loja, os clientes de sempre, gente que conhecia de toda uma vida, esperavam pelas novidades. Vendia de tudo. O que mais fascinava Natália eram as capas cinzas de um tecido pesado, imensas. Elas cobriam o cavaleiro em cima do cavalo - explicara o pai. Ah, e também tinha chapéus Panamá. Grandes caixas enfileiradas, em cores diferentes, com aquele cheirinho inconfundível, num material mais resistente, macio, do qual desconhecia o nome. Os homens daquele tempo, com certeza eram mais elegantes.

Da mala surgiu uma caixa de doces, bem embalados em papel manteiga. Ao abrir, se deparou com aquelas delícias que marcaram sua infância. “Belawe”. Até hoje, sempre que visitava um grande centro procurava por eles. Eram feitos em camadas de folhados, com nozes e mel. Um sonho. Desta vez tinha também uma jaqueta jeans, para o frio, e um cachecol. Seus olhos brilharam de novo. Dependurou-se no pescoço do pai, e beijou seu rosto, bem barbeado, cheirando a lavanda e loção pós barba. Dali saiu correndo para o quintal. Não sem antes passar pela cozinha e deixar o pacote com Ermelinda, a cozinheira. A mão melada de doce, ia lambendo, enquanto percorria o corredor de chão batido até o fundo do quintal da vizinha, onde sua melhor amiga esperava todos os dias para brincar.

Do fogão um cheiro especial exalava pelo ar. Dia da volta do pai, era sempre um motivo de festa. Ele próprio continuaria o ritual de desfazer as malas, com mais presentes para a mulher e para o filho mais novo, a esta altura com sete anos. Abaixo deles tinha o bebê, outra menina, linda, de grandes cabelos lisos - que mais tarde iriam encaracolar. Formavam os três uma família típica. Ele, árabe residente no Brasil, ela professora primária, e os três filhos. O carneiro cozinhando, antes de ir para o forno para assar era o prato do dia, acompanhado de molho feito exclusivamente de tomates, servido com pão sírio.

A rotina dos três se quebrou naquela tarde quando Natália se machucou. Brincava no quintal, debaixo do pé de manga, montando vacas, cavalos e carneiros com palitos e coquinhos que caiam por ali. Foi quando o cachorro do vizinho soltou-se da corda e ameaçou seu pato de estimação. Na tentativa desesperada de salvar o bichinho caiu de mau jeito, e bateu com a testa na tampa da caixa de gordura (coisa comum nos quintais de antigamente). O sangue da filha descendo testa abaixo cegou a visão daquele homem que de longe, parecia duro. Pegando a menina no colo não esperou mais nada. Eram tempos antigos, quando telefone era artigo de luxo, e ainda não tinham um deles em casa. Jamil venceu rapidamente os quatro quarteirões que o separavam da farmácia.

Era uma construção antiga, com assoalho de madeira e prateleiras de vidro num grande casarão. Tudo ali cheirava a éter. As fórmulas pareciam ser feitas do outro lado da parede que escondia um laboratório. Pelo menos Natália pensava assim. No colo do pai, enquanto o velho farmacêutico de fartos cabelos brancos fazia seu curativo teve a exata noção do que significava segurança. Os braços trêmulos dele, a voz gaguejante, no susto de vê-la correndo perigo lhe dizia muito. Do doce trazido na mala de mascate, àquele momento meio trágico, tivera numa só manhã, duas provas de amor do homem que seria seu exemplo para toda vida. Assim cresceu Natália. Forte e segura, achando que poderia ter tudo que quisesse. Afinal, via o mundo com os olhos de sua casa. Até então, uma casa feliz.

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Autoria
Roberta Tum
Ficha técnica
Capítulo do livro "Rua 4, (...)"
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Branca Pires
 

Roberta, espero que essa casa continue feliz para Natália. E que ela continue olhando o mundo com esses olhos de felicidade. Porém, acho que ela cresceu, ampliou o seu olhar... mas certamente, sempre irá lembrar dessas chegadas festivas do seu pai mascate.
Que linda prosa! Acaso tens haver com essa menina linda, a Natália?É o teu sobrenome que me chamou a a tenção, é árabe, não é?!
Bom, ficção ou baseada em fatos reais, a história é linda, me fez lembrar as sempre chegadas do meu pai, que era comerciante no interior do Maranhão e trazia fretes em seu barco de Belém Pa.
Belas lembranças.
Bom dia, abração

Branca Pires · Aracaju, SE 17/10/2007 08:09
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Roberta Tum
 

Branca,
o universo dela tem muito a ver com o meu. Este texto é parte de um livro que estou escrevendo. Já postei outros aqui, vou te mandar os links. Gostando, acompanhe a história toda.
Bjs e obrigada por vir!

Roberta Tum · Palmas, TO 17/10/2007 15:39
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Branca Pires
 

Ok, linda, votadinha!
Beijos. Vou aguradar então.

Branca Pires · Aracaju, SE 18/10/2007 00:53
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Noelio Mello
 

Roberta, querida.
Lindíssimo texto. Rico em detalhes. palavras doces, certeiras. Na realidade um retrato de familia sonhado por todos.Leio e releio e fico na boca e nocoração com o gosto do mel com nozes.
Lindo. Inveja-me, com doçura, teu talento de escritora e jornalista.
beijos
Noélio

Noelio Mello · Belém, PA 18/10/2007 13:43
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Roberta Tum
 

Noélio,
seu coração é grande, como é poderosa a sua pena.
Obrigada!

Roberta Tum · Palmas, TO 18/10/2007 14:47
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Kais Ismail
 

é quase a história do meu pai!
gostei!!

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 18/10/2007 16:28
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carlos magno
 

Gostei demais do teu texto minha querida amiga Roberta. Foi um momento de preocupação e medo que o pai de natália amargou diante daqueles problemas que surgiram momentos depois de de tantas satifações. Como sempre o teu conto está muito bem desenvolvido, Maeus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Mgno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 18/10/2007 19:02
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