Dois Córregos Revisitada

eugeni_dodonovd
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José Carlos Brandão · Bauru, SP
3/6/2008 · 92 · 6
 

Dois Córregos Revisitada


“Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...”

Fernando Pessoa – in Lisbon Revisited, 1926



Outra vez te revejo, Dois Córregos da minha infância.
Outra vez te revejo, Fundo e Lajeado correndo
Não de encontro ao do Peixe,
Mas ao fundo do meu coração.
Outra vez te revejo, Matão pairando como um templo
Sobre o menino de outrora
Que mora em mim ainda hoje.
Ainda está gravada a minha imagem, nua,
Porejando orvalho verde,
Na terra vermelha do barranco alto e largo
Na estrada de casa.

A figueira está lá, imponente e majestosa,
Dominando a paisagem;
As folhas caem amarelas como ouro frágil,
Ou verdes ainda – é sempre outono em mim.
A casa está lá, com o jardim na frente,
As rosas e as dálias,
E a varanda preguiçosa na sombra,
Com as lagartixas curiosas.
A vida ventava por todas as janelas,
Por onde entravam os pássaros
E as frutas do pomar, as jabuticabeiras,
Mangueiras e laranjeiras.
Nunca se conjugam todos os verbos
Da infância – eram tantas
As jabuticabeiras, tantos os olhos brilhantes
De tão negros das jabuticabas.

Dois Córregos é uma fotografia na parede da alma.
Dois Córregos é como a presença invisível de Deus,
Presente num perfume que estonteia,
Nas mãos sujas,
Nos pés sujos,
Por mais que os limpe sempre sujos
Do verde e vermelho da infância.

O ribeirão corria lá ao fundo,
Vinha do capão de mato fechado, aberto ao sonho,
Vinha e continuava
Para além com suas águas cristalinas
De uma suavidade que lava a alma de beleza
Para sempre.
Está lá o tronco onde eu me equilibrei
Sobre o abismo
E vi o mundo, pequeno como eu e enorme
Como o desconhecido,
E sonhei o universo que assombra a minha pequenez.

Dois Córregos dói, mas passa.
Tudo passa nesta vida.
Passaram o Fundo e o Lajeado,
Estão passando,
Mas digo sempre que já passaram para nunca mais,
Nunca mais verei quem fui, então, com eles.

Pousada Alegre dos Dous Córregos, quanta tristeza!
A pousada passou, os córregos passam e passam,
Continuam passando e me levando, já me levaram.
Quem sou é um eco, uma sombra, uma fumaça
Se elevando
E morrendo no mato, entre as queixadas e os caititus,
Um cincerro ouvido na curva da estrada, no pescoço
De uma égua madrinha já morta há séculos.
Passaram as capivaras e as onças nas águas plácidas,
Eu montado no lombo, lutando, sendo estraçalhado,
E cavalgando para sempre, no sonho, no mito.

Dois Córregos sou eu
E meus fantasmas envergonhados.
Os paralelepípedos sérios, conversando nas esquinas,
À sombra dos lampiões da fábula,
Com óleo inextinguível.
Uma vez vi um lobisomem sobre um muro,
Tinha dentes de bicho
E vergonha de homem
– Fugimos devagar, um olhando para o outro.
Tantas sombras na rua,
Todos os parentes mortos dialogando no escuro
E se apalpando para ter certeza
De que estão mesmo mortos.
Um pigarro, outro pigarro, e de pigarro em pigarro
A alma de Dois Córregos se acende
Na ponta de todos os pitos de barro.

O saci-pererê não andou por aqui,
Nem a mula-sem-cabeça,
Nem o unhudo da Pedra Branca
E suas jabuticabas bravas.
Andou por aqui o meu avô,
Andou por aqui o meu bisavô João Ventura
Que abriu o sertão de um mato enorme,
Que por isso chamou de Matão,
Que virou uma fazenda,
Depois multiplicada para os descendentes, amém.
Dois Córregos é o meu pai andando no cemitério
E contando os mortos,
Orgulhoso daqueles mortos todos,
Que vieram antes povoar esta terra
E agora dormem com ele,
Refestelados nas brumas do eterno.

Outra vez te revejo, Dois Córregos,
E mais uma vez caminhamos
Lado a lado como dois estranhos. Não me reconheces
E eu não te reconheço.
Mas o mesmo sangue corre nas nossas veias,
A mesma estranheza
– A mesma fraternidade! – aos olhos de fora,
Pasmos, tão outros.
A mesma alma nos habita,
Como uma casa muito antiga
Com os seus fantasmas esquecidos
Passeando pelos corredores.

O menino que fui, homem de barro,
Cacos pelos caminhos.
Tudo foi dado ao menino e tudo tirado ao homem,
Mas permanece, pulsando dentro, como boa paga.
Estendo a mão, aberta, vazia
– Somente eu sinto o peso
Do homem que ela carrega,
Um tição queimando na noite
E a terra vermelha e a árvore verde
Cantando com todos os pássaros.
Eu sozinho, menino e homem,
Como uma bilha quebrada
E com toda a inteireza
De ainda ser bilha: matéria humana
E quase divina.
Como os dois córregos que não correm para o mar,
Mas para outro córrego,
Eu corro para o meu destino
Já traçado, pequeno
E quase divino.

Sobre a obra

Memória da infância perdida, como tudo que se viveu, mas guardada no fundo da alma. Ah, se todos os fantasmas que assombram os homens fossem tão doces com os da minha infância - encantada num Paraíso Perdido, o Matão, no município de Dois Córregos, SP.

Morei os primeiros oito anos da minha vida no Matão. É de lá que eu falo. Saudades do Matão.




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José Carlos Brandão
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Samuel Luciano Assunção
 

"Dois Córregos sou eu
E meus fantasmas envergonhados.
Os paralelepípedos sérios, conversando nas esquinas,
À sombra dos lampiões da fábula,"

parabéns josé...
abrindo sua votação com muito prazer.
um abraço.

samuel

Samuel Luciano Assunção · Angra dos Reis, RJ 2/6/2008 16:04
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clara arruda
 

Queria poder fazer um comentário à altura.
Ao citar Fernando Pessoa já me fez apagar o comentário escrito.
Seu texto e suas lembranças me deixaram uma saudade do meu interior do Rio de janeiro.Parabéns!
Votado.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 2/6/2008 16:42
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Cherry Blossom
 

Lindíssimo meu querido! Um poema a altura desse teu amor derramado em memórias!! Sabe o quintal da minha infância ainda é enorme, gigantesco. Tem um imenso pé de Flamboyant carregadinho de flor e há dias que me sento a sua sombra e quando percebo meus pés ficaram mergulhados na terra arenosa e vermelha e minhas mãos tão sujas das doces mangas colhidas do quintal da minha avó. Eu também tenho um amigo saci que antes me assombrava e que agora que percebeu que eu cresci, senta-se do meu lado e desaba a me contar lindas histórias então eu começo a rir. Ele me oferece o pito e eu lhe digo: ___Se eu fumasse..
Fiquei emocionada...
beijos

Cherry Blossom · Dracena, SP 2/6/2008 23:33
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alcanu
 

Lindo mesmo !
Um abraço !

alcanu · São Paulo, SP 3/6/2008 04:59
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Náthima Danel
 

José, bendito seja Deus que te mandou escrever tão bela composição, tão bela canção à alma. É das mais lindas e encantadas homenagens. Vejo que você é o homenageado, pois é protagonista de tão belas lembranças, amores de infãncia e que ainda pulsam em sua alma de menino.
Veja, seu espírito é leve, muito leve, é encantador, e me trouxe as sempre lembranças de minha infância, também, é... de Rosilândia, no Maranhão.
Sinto-me próxima de você nesse poema.
Obrigada. Não é à toa que você é José. Para mim, José é nome lindo, de pessoa de Deus.
Grande abraço.
Obs: você vive ainda a infância, ela está em seu coração.

Náthima Danel · Boa Vista, RR 3/6/2008 14:38
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Gena Maria
 

Zé Carlos, vc escreve muito bem, amei os textos, parabéns!
Votei em todos!
Bjs da Gena

Gena Maria · Marília, SP 12/6/2008 15:14
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