Com muita dificuldade Heloísa vence a dor e entra no quarto do filho pela primeira vez em anos. Aquele era território proibido para ela, domínio exclusivo de Ricardo, onde nem a empregada Rute podia entrar. As roupas lavadas e passadas eram deixadas num cabideiro no corredor e as sujas, num cesto no banheiro. Heloísa não via problema nisso, "adolescência é assim mesmo", conformava-se o seu ex-marido, pai de Ricardo. Heloísa imaginava fotos de mulheres nuas na parede do quarto do filho, e que ele ficaria com vergonha se ela as visse. Nunca tivera curiosidade em confirmar suas hipóteses.
Agora ela estava ali, no lugar sagrado do filho, tentando entender como tudo tinha acontecido. A cama estava desarrumada, seguindo o padrão de todo o quarto. Restos de maconha na mesa de cabeceira. Os cds estavam espalhados pelo chão, que agora era molhado pelas lágrimas discretas que caíam quase em câmera lenta do rosto de Heloísa. Na mesa do computador, dois boletos da faculdade e são dois meses de atraso e já faz dois dias que Ricardo não está mais lá e são só dois minutos que Heloísa suporta ficar ali.
Também em dois minutos, Ricardo e mais cinco amigos espancaram um torcedor rival até a morte.
No jornal da noite, a empregada Rute vê o moço da televisão falando que o pedido de habeas corpus de Ricardo fora negado. Rute não sabia o que era habeas corpus, mas entendeu que o menino que a ignorou por 15 anos dentro daquele lar iria continuar preso. Rute só achou estranho quando a apresentadora se referiu aos assassinos do torcedor como "Grupo de jovens da Barra" e em uma outra notícia sobre roubo de carros no bloco seguinte, a mesma apresentadora falou de uma "Quadrilha da Baixada."
Olá Lênin, texto mais que atual, não? Bom pra reflexão, inclusive pela distinção percebida no noticiário.
Na edição, sugiro três pequenas correções:
- "o filho tivesse fotos de mulheres nuas na parede e ficasse com vergonha se ela as (refere-se às fotos) visse"
- "já faz dois dias" - aqui o verbo fazer indica tempo e é impessoal (sem sujeito), por isso a 3ª p.s.
- habeas corpus.
Abraço.
Obrigado Tetê pelas dicas.
Muito útil...
Abraços...
Legal te ver de novo por aqui, Lênin. Abração.
Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 29/6/2007 17:53
Olá Lênin, a violência, atualmente, nos parece tão óbvia. Tive a impressão que vc estava contando algo comum, só que não consegui parar de ler, ao contrário das reais notícias. Gostei.
Um grande abraço marajoara de alguem com um pé em Campos.
Olá Saulo, bom voltar mesmo!
Lígia que bom que gostou...
Grande abraço!
Olá Lênin, Salve!
Seu texto é muito bom. Sugestivo e atual. Gostei. Terá meu voto.
Também estou com o poema "Tema de Ângelus" em edição no banco de cultura, quando houver tempo, tardinha dessas dá um pulo lá, analize-o e deixe seu comentário; e se gostar aguardo voto. O link é: http://www.overmundo.com.br/banco/tema-de-angelus-1
Bjs. Benny.
Gostei!
Esses Ricardos, que nem sempre tem desculpa na vida social, econômica, familiar.... estão por aí destruindo vidas.
Que bom escrever sobre eles.
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