Aquela noite estava garantida. Saíram os três caminhando a pé para o ponto de ônibus. O sábado só começava, e eles já estavam na produção para a balada. Thi, Lú e Nicole eram inseparáveis. Pelo menos naqueles tempos de muita energia. Nenhum deles tinha mais que 22 anos. Aliás, esta era a idade de Lú naquele verão de 2006, a mais velha entre os três.
Morena jambo dos cabelos levemente encaracolados, olhos grandes, desbocada e debochada ela é famosa por falar palavrões, se embebedar com vodca e acordar no dia seguinte, no mesmo lugar da festa. Muitas vezes na calçada. Mas essa sua mania é motivo de riso e nada mais entre os amigos. Thi é suave, tem cabelos curtos, jeito de adolescente rebelde londrino, meio punk nos braceletes e nas camisetas. Seus 20 anos não lhe trouxeram nenhum juízo, e neste dia estava sem casa. Fora expulso da sua pelo pai, que descobriu sua preferência gay. Mas estava entre amigas, e sempre haveria algum lugar para onde ir após a balada.
De todos a mais interessante sempre foi Nicole. Talvez por isso os outros dois gravitassem em torno dela.
-Amiga, senta do meu lado – dizia Lú – “você é bonita, o povo te olha, e o que você não quiser sobra pra mim"completava entre gargalhadas.
Magra, com uns olhos profundos, e um jeito de menina bem nascida, mas nada esnobe, ela estava em pleno brilho, vigor e efervescência. O jeito de adolescente solitária, morando longe dos pais lhe dava um charme a mais. De toda forma já tinha 19, e duas decepções amorosas no currículo para contar. Desembarcaram os três na pracinha charmosa da cidade serrana, alguns quilômetros depois. O point era um bar meio underground, espaço pequeno, bem decorado, onde o show da noite prometia. Mais de cem pessoas se apertavam entre as mesas na intenção de dançar, paquerar e pedir mais uma cerveja.
Olhares e flertes duraram a noite inteira. Muita gente interessante fervia por ali ao som do violão daquela moça de pegada forte e voz rouca, acompanhada por dois belos rapazes tocando pandeiro e engrossando os refrões. Madrugada a dentro conheceram e se enturmaram com a galera do bar. Atrás do balcão, agitando aqueles drinks coloridos estava Laura, trinta e poucos anos de muita simpatia. Era sócia do bar, e gostava de se misturar ás tribos que freqüentavam o lugar. Sentou com eles lá pelas três da madrugada e começaram a conversar. Nem percebeu que estavam os três perdidos na noite procurando o que fazer simplesmente pela necessidade de esticar a curtição e o rock.
A noite os mantinha vivos. Estar na noite. Além da bebida, Thi era o rei das pedrinhas, e do fumo. Lú adorava pó, e Nicole para não ficar de fora, fumava a erva que acalma e dá fome. O bar fechou às cinco da matina, e eles seguiram de carona com os amigos por ali. Dez da manhã do dia seguinte o celular de Laura tocou. Era Thi: - “Oi, tudo bem? O que você vai fazer hoje?” Meio sonolenta ela respondeu que ainda não sabia. Talvez explorar uma trilha ou curtir uma cachoeira.”A gente ainda não dormiu, estamos aqui no centro, a gente pode ir com você?”. Ela esfregou os olhos meio incrédula. “Podem vir”, respondeu. Levantou, e foi buscar pão, mussarela, manteiga e café. Recebeu o trio de volta em uma hora.
E desde aquele dia formaram um quarteto, pela vida e pela noite, numa amizade intensa e louca que rendeu boas viagens, noites de canções ao violão, champagne pela estrada de madrugada. Eles não tinham nada além da ânsia imensa por viver. E ela , mais centrada, oferecia o equilíbrio e a oportunidade. Thi ficou com o quarto dos fundos, as meninas voltaram para casa durante a semana. Mas muita coisa começou a mudar na vida dos quatro, naquele verão.
Roberta,
Texto apurado, bem construído, dá a noção exata de como escrermos uma inteligente narrativa.
Muito bom!
Benny.
Oi Benny,
Obrigada pelo elogio. Fico feliz que tenha gostado.
Grande abraço!
Roberta, texto inteligente, bem formado,
adorei e tem o voto. bjus.
Roberta.
mais uma vez aflora tua alma jornalistica, numa narrativa excelente e tema fascinante.
beijos
Noélio
Ô menina bonita,
Ainda agorinha dizia ao joca, sobre lembranças de escola.
É tudo tão parecido que entre Gilbués e Saõ Paulo não se nota diferença. Mas não se nota em que:?
- Não se nota na juventude, na mocidade. Não se nota na esperança de um só povo irmanados no viver para viver. Um povo que dispense o viver para matar.
- No entanto as lembranças dos adultos certamente são diferentes, ou contadas (desejadas) diferentes.
Po falta de tempo estou com
Ia dizendo e virou
"HAITI, o vertice da História, 1804-1808
Olá, Roberta!
Num texto escorreito, enxuto, bem dosado, você dá o seu recado muito bem. Foi uma agradável leitura. Vai agora o meu humilde voto, que, por coincidência, te move da fila de votação para a caixa-forte do Banco...kkkk
Um beijinho e parabéns!
Baduh
Essa de acordar no mesmo lugar da festa é mais do que eu fiz nos tempos em que fui estudante de jornalismo em Goiânia e saía com os amigos para a farra. Mas é que os tempos mudam. Abraços.
belo registro!
Roberta,
Gostei muito do texto, interessante e envolvente daqueles que não se consegue desgrudar da leitura até o fim
Parabens e bjs.
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