Eles entram no ônibus urbano, na Vila Telma, aqui nos Montes Claros-MG. Já antes de passarem pela borboleta giratória estão aos turros. Parece que se estranharam. O desacerto entre os dois, certamente começou no ponto de espera, ou mesmo antes.
Um é branquelo, quase albino. Estatura média, cabelo pintado de louro claro, sobrepondo a cor original sarará. É um beiço chupado! Veste-se pobremente, embora com modelos estilo galera. É do tipo sisudo e anda balançando o corpo no padrão pato malandro. Tem a expressão de idiota estacionado!
Mostra-se como tipo humano favela/subúrbio. Um componente da atualidade funkeira.
O outro é afro-descendente. Tipo quase cadavérico, biótipo benguela. Veste roupas sujas e rasgadas, camisa cotó, calça sandálias de borracha com tiras de cores diferentes. Mantém o seu nariz proeminente empinado apesar do aspecto de pobreza e da necessidade especial que se mostra explícita. É a personificação do sofrimento humano.
Caminha pelo corredor do veículo apoiando-se nos respaldar dos assentos e no corrimão suspenso. Não usa muleta. A expressão dos seus olhos demonstra sofrimento, mágoa, revolta. A sua alma está ferida.
Continuam aos turros; e, finalmente, sentam-se nos primeiros assentos. O número de passageiros é mínimo há esta hora. O transporte encontra-se quase vazio.
O portador de deficiência fala em voz alta e com uma inflexão pejorativa. O faz sem olhar o interlocutor nos olhos, diz que ele, o seu companheiro, mora em um barraco caído!
A provocação produz um efeito devastador na emoção do branquelo. E pelo resto do percurso, até onde saltam do lotação, na Praça Doutor Carlos, no centro comercial o ofendido permanece em pé no corredor, de costas para os demais passageiros, enquanto executa uma somatória variada de expressões faciais exteriorizando o seu descontentamento. Mantém o corpo imóvel, enquanto gira a cabeça pela direita num ângulo de 90 graus apresentando aos presentes e atentos passageiros, apenas o seu semblante direito, interpretativo. É um jogo de cena, a conclusão do primeiro ato da peça Dois perdidos numa manhã de sol!
Conota indignação, pela avaliação feita pelo colega de desdita. Injúria mesmo! Imagina ele? Logo ele morar em um barraco caído. Ele, um porreta suburbano. Que falsidade meu Deus! Como é que pode se dizer uma coisa dessas. Logo um cidadão que nem ele. Nunca que ele venha a morar num barraco caído!
O jogo de movimentos teatrais que executa mais parece à atuação de um ator de estúdio. O faz, entretanto, de forma inconsciente, atávica, reflexa. Num movimento estratégico, tira do bolso uma moeda e a oferece como esmola, ao seu agressor-avaliador, demonstrando assim o suposto desprezo pelo mesmo. Um recurso psicológico, e de sobrevivência nas ruas.
Finalmente a parada, no point central e, o condutor, que já apresentava sinais de preocupação, ao ver a cena final, sorri. Os dois saem abraçados, para o espanto de todos que acompanhavam o enlace, imaginando via de fato. O portador de necessidades especiais se apóia no branquelo para se locomover. Esse morador do barraco caído é a sua muleta humana.
São como unha e carne, são karma e dharma. É farinha do mesmo saco!
Os turros eram uns exercícios de defasagem sensorial. Duas almas tocadas pela incerteza. Duas vítimas da modernidade opressora. Sufocante
Seres em desalinho. Vítimas da incerteza. Filhos do caos social e das políticas sujas. Almas outras criadas por Deus e enviadas a esse mundo em evolução! Onde todos deveriam ser iguais!
Vagam nos espaços do cotidiano deste país grande e bobo. Trafegam na contra mão da direção. Cultuados pela subjetividade, vitimados pela guerra subliminar deflagrada pelos veículos de propaganda buscam nas suas inter-relações expressarem-se por valores efêmeros.
Não consequi colocar a foto. Tentarei mais tarde!
raphaelreys · Montes Claros, MG 23/4/2008 08:58São atos e fatos,nem comentar me atrevo.Mas voltarei na próxima fila.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 23/4/2008 10:02
E no palco da vida, no teatro Brasil, fecha-se a cortina após mais um ato....os atores somos nós, aplausos? Não há! Pois o "show" tem que continuar... Texto muito real, ótimo!
Vo(l)to..bj
Cena impressionante tal tua descrição!! É como se eu estivesse dentro do coletivo presenciando tudo, menino! Muito bom!! Eu vo(l)to, viu? Beijos
Lena Girard · Belém, PA 23/4/2008 11:57
Raphael
Somos todos seres em costrução, não somos?
Alguns, já na fase de acabamento. Outros, ainda no canteiro de obras... No caos, que precede a incerteza do traçado, o alinhamento, o nivelamento do terreno, enfim... Teu texto me lembrou as fases de uma construção. Seres em construção...
Muito bom, como sempre.
Abraços.
Querido Raphael:
MARAVILHOSO TEXTO!!!
Os pares se (des)conhecem para se (re)conhecerem aos outros olhares. Outros a avaliarem ...
Beleza de estrutura coloquial que me levou a ler de um só impulso. Pude criar cenário e construir a história de cada um, pois não pensei por um instante que fosse estória.
A modernidade pode levar a lugares de pretensos (re)conhecimentos. A segmentação das tribos que cada vez mais perde a individualidade de suas tradições. Nem me refiro a Cultura e sim a algo mais intrínseco ao “sujeito desejante”, a subjetividade.
Beijos_Meus*
*
VO(L)TAREI!!!
Filhos do caos social! Raphael, falou tudo! Belo texto, com otima redação, parabens, abraços
victorvapf · Belo Horizonte, MG 23/4/2008 16:51
Ótima trama.
Raph, seus textos são sempre excelentes...
bçs.
Benny.
Concordo com Benny. Ótimo texto em prosa.
Parabéns.
abrs,
Raphael,
Uma boa leitura
faz um bem...
Parabens!
Grande abraço,
Regina
Prosa muito boa, sempre com o tema social, apurado, triste, mas voce tem razão somos filhos do medo, filhos sem direção, caminhando neste caos...absurdo.Aplausos Raphael!
bj
Caro Raphael...seus textos são sempre retratos do nosso caos ...páginas do mesmo diário que é essa nossa vida re partida...Sim, somos todos filhos do medo...infelizmente...essa é nossa pós modernidade...repleta de solidão e tédio...que nos aprisionam
nas grades de ferro do medo...
Parabéns, belíssimo texto !
Um beijo azulzinho...bluecarinhoso...
Rai....blue
Raphael,
Excelente! Seus textos sempre maravilhosos!!!
Gostei muito do que escrevestes sobre a obra:
Seres em desalinho. Vítimas da incerteza. Filhos do caos social e das políticas sujas. Almas outras criadas por Deus e enviadas a esse mundo em evolução! Onde todos deveriam ser iguais!
Beijos...
Oi Rapha querido,Texto doído, triste e muito tocante. Rico em detalhes infimos que nos coloca á frente uma grande tela de ações e situações cotidianas de um país que não assume seus cidadãos como filhos, são seres espúrios, mas são filhos.
Beijos
Volto
CAROS OVERMANOS! ESTAVA EM BRASÍLIA-DF EM UM RETIRO. SÓ AGORA RESPONDO! Maluzinha! Nosso axé a Carlos Albuquerque e obrigado pelos beijos baianos cheios de feitiço! Clara Arruda! Podes e deves atrever nos meus textos. Afinal moras no meu coração minha menina libriana dos olhos verdes! Manieflut! O show tem que continuar, Somos atores no palco da vida! Lena Girard! Projetastes o seu prerispírito na cena que descreví. Viajastes conosco! O seu sorriso levanta o moral de qualquer ser encarnado! Axé!
raphaelreys · Montes Claros, MG 24/4/2008 18:17Cara Nidia Bonetti! Somos seres em construção, mas somos instrumentos para cumprir a vontade do Craiador! Um beijo! Cara Lili Beth! O sugeito está preso a subjetividade! As tribos perdem a tradição e os seres adotam o que vai no condicionamento do inconsciente codificado! Beijos acoxados e overmanos! Nobre Victorvapt! A sua presença é um estímulo! Caro Benny Franklin! PO seu comentário me anima! Abraços.
raphaelreys · Montes Claros, MG 24/4/2008 18:23Rubenio Marcelo! Seu abraço e comentário é a minha paga! Abraços píscianos, emocionais e trágicos! Regina Lyra! Um abraço e um beijo à paraibana! Arretadamente acoxado! Nobre poeta Cíntia Thome! Seu aplauso me levanta o astral de iniciante! Beijos mineiros e comedidos. RAIBLUE! A minha alma e os meus sentimentos já te pertencem! Yasmim Backer! Somos seres em desalinhos! Mesmos as louras fatais o são! Alice Poltroniere! Nobre overmina do Porto Velho. Seres expúrios, mas, mesmo assim filhos do Altíssimo e mandados a esse mundo grande e bobo em missão! BEIJOS ACOXADOS E ARRETADOS A TODOS!
raphaelreys · Montes Claros, MG 24/4/2008 18:30
Magnifico texto, Raphael.
A cumplicidade e a afinidade dos que vivem em estado de carência é um puxão de orelhas nas nossas relações mascaradas.
Atá mais, para o voto!
Cara Brigitte! Relatas a verdade. A afinidade e cumplicidade dos carentes é um exemplo de relação verdadeira. Beijos! Tita Coelho! De visual novo. Nariz afilado e um sorriso enigmático! Abraços acoxados!
raphaelreys · Montes Claros, MG 25/4/2008 06:30
Ah! As diferenças,a falta de uma política efetica no combate a pobreza.
Um caos que não sonhamos ver removido a curto ou a longo prazo.meu carinhoso abraço meu poeta de Montes Claros(ainda vou conhecer essa cidade)
preciosidade intima das caracteristicas humanas
revelacao das plumas da asa quase duradoura da sociedade...quase extinta....
Minha cara Clara Arruda! ´[E realmente um caos. Aguardamos a sua visita e receberemos o seu abraço suave! Wadochicchan! As plumas da asa da sociedade, colorido das penas do pavão. É o terrivel ego cambaleante que veste colorido para se mostrar. Alice Poltronieri! Veio, viu e votou ganhando um abraço acoxado!
raphaelreys · Montes Claros, MG 25/4/2008 13:35
Raphael,
Seres sofridos vagando...
Aplausos para o otexto.
Um abraço afetuoso.
Vim te voar! O texto mostra a dura realidade, que alguns preferem não ver! Como disse antes, magnífico!
beijos
Cara Anamineira! São seres realmente sofridos, almas em evolução. Obrigado pelo abraço! Um beijo! Tita Coelho! Venha sempre minha cara menima do nariz afilado! Um abraço overmano!
raphaelreys · Montes Claros, MG 25/4/2008 14:45
Um sensível olhar sobre um trecho da cruenta realidade encenada nos teatro da vida. Numa "Manhã de Sol" nossos olhares deveriam se ocupar de tantas outras coisas, mas somos tomados quase que de assalto e impulsionados a observar o que alma vê...
Raphael teu olhar disseca a vida em minúcias. É quase impossível não formar imagens ao te ler.
Beijos
votadíssimo rapha...
um abraço
samuel
Olá, Raphael
Seu texto é de uma densidade humana enorme. Nos mostra duas personagens fruto do caos e da instabilidade social em que vivemos. Duas vítimas, que podem ser qualquer um de nós, do jeito que a coisa vai... Você conseguiu traduzir de forma real e perturbadora o que a moderna sociedade faz com pobres coitados. Este sistema é uma verdadeira máquina de moer gente, sobrando apenas os bagaços do humano, porém, ainda cheios de sonhos, apesar da tristeza e miséria...
Parabéns pelo texto. Votadíssimo.
Abraços poéticos
Beleza Cherry Blossom! Que consigo então provocar as imagens. Como bem relatas a alma vê...e nos perdemos na atualização da ação. Obrigado pelo voto e pela visita! Abraços.
Nobre Samuel Luciano que nos doa o seu voto e a sua vsisita! Mineiro Victorvapt! Sua visista era esperada! Abraços overmanos, acoxados!
Isso é o Brasil, a gente precisa prestar mais atenção nesse povo tão judiado !
Um abraço !
Você é demais Rafa, toca fundo na gente...remexe a ferida, faz-nos ficar pensando na vida ...
Patipetista · Santo André, SP 25/4/2008 23:59
Opssssssssssssss!!!!!!!!!!!!!!!
A imagem está perfeita
Raiblue! Sou seu adimirador não secreto! Recebo seus beijos. Alcanú! Obrigado pelo abraço. A próxima crônica intitulada "A Viuva Gordinha" será em sua homenagem. Foi escrita ao seu estilo. Patipetista! E haja feridas para serem remexidas, são as tragédias da vida. Lili Beth! São os seus beijos que abrem as portas da felicidade!
raphaelreys · Montes Claros, MG 26/4/2008 05:26oi.. convite feito convite aceito , um recorte da realidade social do cotidiano, estórias de vida que comovem tão perto de nós , representam as tantas que nos chegam diariamente parecendo que somos indiferentes. Sua prosa cola no rosto , faz sentir o cheiro da vida, de almas na sua caminhada no mundo de provas e expiações. Abraço.
analuizadapenha · Natal, RN 26/4/2008 06:28
Meu querido Rhafael
Seus texto sempre excelentes ,nos prende
Já li,reli e votei,,claro!
"O caos nosso de cada dia". Bravíssimo Rafhael , infelizmento sua narrativa é verdadeira e atual. " BRASIL UM PAÍS DE TODOS " , leia-se : " Brasil um país de POUCOS". Parabéns
André Bianc · Taubaté, SP 26/4/2008 12:21
Grande texto; grande fazedor...
Boa, Ralph.
Abçs.
Caro Gustavo Adonias! O sistema é mesmo como relatas, uma máquina de moer gente, estamos todos predispostos a sermos as próximas vítimas da incerteza! Analuiza da penha! Estamos mesmo em um mundo de caminhada e expiações. Obrigado pela visita! Lena Girard!
Veio, viu e votou e recebeu um abraço Ailub!! Bem recebo a sua beleza loura dos olhos verdes! André Bianc! É realmente o caos nosso de cda dia! Caro Benny Franklin, vemos o nosso poeta overmano e recebendo os seus abraços! Um forte amplexo a todos!
Me senti dentro do busum, testemunhando o ocorrido.
Parabéns!
olha eu tava tão dentro do busum que quasi pedi pra descer antes que saissem nos tapas, que sô meio paranóica... rsrsrs ... inda bem que fiquei pra ver os abraços
quem quiser conhecer mais amigos agregados e aparentados dessa dupla que assista ESTAMIRA
Kaís ismail! Que bom chegas e viajas conosco no lotação da Vila Telma! Um forte abraço e obrigado pela parceria. Sandra Vi! Ainda bem que entrastes no busum do branquelo e do sadálias coloridas. Passando pela praça central recentemente pude vê-los novamente. Nobre Aepan! Que vem da nossa Estrela gaucha. Obrigado pelo apoio. A todos osovermanos e overminas um forte amplexo e um beijo estilo curraleiro.
raphaelreys · Montes Claros, MG 27/4/2008 05:08
A narrativa está muito boa (com um pequeníssimo erro de concordância, um "s", provavelmente erro de digitação), digna da boa crônica brasileira, aquela que merece publicação.
O olhar antropológico está mais interessante fora do seu comentário em "sobre a obra". O texto em sí dá margem à outras interpretações, não apenas de cunho sociocultural como também filosófica e existencial.
Parabéns, reputo a obra como muito boa.
Marcos Paulo Carlito
Caro Marcos Paulo! Agradeço o seu comentário e avaliação. É de suma importância aos meus escritos como neófito. Um forte amplexo overmano!
raphaelreys · Montes Claros, MG 27/4/2008 18:00
Raphael,
Retorno para reler e votar.
beijos,
Regina
Benvinda sejas minha cara overmina Regina! Obrigado pela presença e pelos beijos. Um forte amplexo!
raphaelreys · Montes Claros, MG 28/4/2008 05:10Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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