Dolmens digitais
Chovia. Acordei com o som de seu isqueiro e seus passos no corredor. Passos macios como de costume. Aliás, ela era toda macia. Toda. Ainda lembro da tarde plúmbea no Café do Francês. Ela no balcão sorvendo suavemente seu chá predileto e pedindo uma música de Coltrane. Porra, John Coltrane! Essa mina é foda, pensei. Rabiscava vorazmente e com uma expressão de êxtase a cada palavra escrita. Poemas, soube depois. Dizia-me que eu deveria escrever também. Certa vez na faculdade em que ela cursava, enquanto esperávamos o bendito ônibus, declamou um texto de Bandeira Tribuzzi em cima de uma planta que recostava-se preguiçosamente por ali. Eu sorri. Que mais poderia fazer diante de todo aquele potencial artístico. Metafísico. Erótico-passional. Sei lá.
Um dia, fui convidá-la para assistirmos à apresentação da banda de um amigo em comum. Um som estratosférico-progressivo-lisérgico, como o próprio guitarrista o definia. Liguei. A mensagem tentava consolar-me de que ela já estava longe, fora do alcance dos raios da telefonia moderna. Insisti. Redisquei. Em vão. Não desperdicei o convite e fui cabisbaixo assistir ao show. Algumas cervejas depois recitei mentalmente, ao som de uma triste canção, um dos versos mais foda que ela escreveu. Chamava-se Dolmens Digitais:
“Corto meus pulsos
com barbeadores elétricos
e mergulho nas águas gélidas
do meu copo
teu corpo me vem em mente
e, acredite,
não conto duas vezes a mesma mentira
então,
tira-me daqui.”
Também pedi para tirarem-me de lá. Mas tive que sair por minha própria conta e após incontáveis quedas depois cheguei em casa. Exausto, ébrio e com uma puta saudade de algumas horas sem vê-la.
Horas essas que se arrastam até o momento em que acordo ouvindo o acender de um cigarro que eu julgava ser dela. Passos que eu também julgava ser dela. Levanto sem calçar meus chinelos. Afoito, temeroso. Corro até a porta e ao abri-la deparo-me, na parte de baixo da escada, com móveis e caixas de mudança. Objetos embalados em plástico-bolha e jornal. Pude visualizar bem uma reprodução de um quadro de Tarsila. Anjos. Angelicalmente, o apartamento ao lado será ocupado por uma linda vizinha que, com os cabelos molhados da chuva lá fora, acende outro cigarro e gentilmente me oferece um também em troca de minha ajuda. Aceito. Que mais posso fazer diante de tamanho apelo nicotínico. Matinal. Pictórico-onírico. Sei lá.
Noel Doralale.
Frilazine
08 de janeiro de 2008.
Carregar móveis em troca de um cigarro? O que uma mulher bonita não consegue arrancar de pobres homens apassionados?!
Jairo Oliveira Ramos · Aracaju, SE 11/1/2008 22:34
Parabéns!!!
narrativa bem feita e estruturada!!
Abraços,
eRÓTICO, PASSIONAL E DIGITAL! PARABÉNS GUERREIRO! Votei!
raphaelreys · Montes Claros, MG 12/1/2008 07:12Pois é, Jairo! Irresistivelmente viciante...
frilazine · São Luís, MA 12/1/2008 10:47
Obrigado, Marcos!
Fico extremamente lisonjeado com suas observações!
Até breve!
Valeu, raphaelreys!
A tríade que tem me norteado ultimamente é essa mesma!!
abçs!
sou fascinado por descrições... quanto mais assim, lírico-passional rs.
muito bacana, parabéns!
Valeu, Niltim!
Fico contente que tenha gostado!
Breve envio outras contribuições!
Até logo!
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