Domingos com a Ednambi. Aquela, do Judô...

Helder Aveia
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Helder Dutra · Rio de Janeiro, RJ
27/6/2008 · 60 · 2
 

Domingo. Rio de Janeiro. A previsão é de calor. Pra azar meu, eles estavam certos. 40ºC. Queria dormir sabe? Bem, com esse calor não da pra dormir. Com esse calor não da pra fazer nada. Levantei da cama, olhei pela janela e pensei:

- Vou comprar o jornal. O maior que eles tiverem lá. Não quero sair da cama hoje, não estou bem. Vou passar o dia lendo o jornal. Começando pela parte dos carros. Provavelmente terá uma noticia sobre algum “esportivo italiano que faz 400 km/h em 10s”. É sempre tudo tão igual. Na parte esportiva, nada de esporte, só futebol. Futebol pra mim não é esporte, é igual comida, ou programa do Jô, você faz só pra participar das conversas durante a semana. Esporte é aquilo que eles fazem na Olimpíada...a mulherada mostrando as pernas e os homens mostrando como são fortes...

A merda do telefone toca enquanto fantasiava com a Edinambi, aquela do Judô. É o pessoal do futebol chamando pra uma pelada. Todo terceiro domingo do mês tem o “Fut de Domingo”. É uma porcaria, todos já passamos dos quarenta, ninguém agüenta mais que 15min correndo atrás de uma bola, mas como pagamos por uma hora ficamos la até o fim. Não agüento mais jogar, nem tenho estômago pras conversas...emprego, mulher, filho que virou bicha, a filha do Marcelo que fugiu com uma Engenheira de Produção da Petrobrás, amantes...quero deitar e não posso mais usar nenhuma desculpa pra não ir...ja fiz três “uhuns” e seis “deixa disso” espero que ele desista, não tenho mais armas. Meu silencio mostra a Téte que não quero ir.

Volto pra cama. São quase meio dia. Ainda faltam 9 ou 10 horas preu poder dormir de novo sem culpa. Olho pela janela pra ver se o jornaleiro ainda esta lá. Ta um sol danado. Espero por uns 15 min que ele olhe pra minha janela preu poder pedir um Delivery. Não quero sair da cama hoje, não estou bem. Ele não olha e eu volto pra cama. Deixo a idéia do jornal pra lá. Quem é que precisa de jornal. É tudo sempre tão igual.

- Vou comer, penso eu.

Não tenho fome, mas quero comer. Cozinhar, comer e depois lavar a louça me levariam umas duas horas. Então já seriam quase duas. Perfeito. Vou preparar algo bem complicado, pra levar bastante tempo. Talvez macarrão com Molho de Tudo. Molho de Tudo é uma especialidade minha. Pego tudo que for gorduroso e cozinho junto com tomates. Cubro o macarrão com ele e ponho muito queijo pra gratinar.

Comido o macarrão e lavada a louça, ainda são uma e meia. Levei meia hora a menos do que esperava. Vou tocar violão. Tempo Perdido e Menino do Rio, clássicos dos anos 80, e aquela do João Gilberto que ele só canta “nã nãnãnã...”. Menos de 10 min. Um fiasco. A Edinanbi me volta a lembrança. Ter uma mulher como a Edinanbi deve ser o máximo. Ela deve fazer o papel de homem da casa. Deve aproveitar melhor os domingos. Os homens normalmente sabem aproveitar esse dia. Pra mim é o dia mais chato da semana.

A merda do telefone toca de novo enquanto fantasio com a Edinanbi. É minha mãe. Ela me liga todos os domingos desde que Claudinha, minha ex-mulher, me deixou. Me deixou por que disse que nossa vida estava muito parada, que não saíamos mais. Só tínhamos os domingos pra ficar em casa, trabalhávamos a semana inteira. Queria ficar com ela em casa. Ela queria sair. Ver o mundo. Comprei uma TV de 72 polegadas pra gente poder ver o mundo na TV aos domingos. Comprei um pacote de TV a cabo que tinha todos os canais Discoveres possíveis. Até o Discovery África. Adorava o modo mais cuidadoso que ela ficava depois de ver algum programa sobre falta de alguma coisa na África. Enfim ela foi embora e levou as crianças. Foram morar na Grécia. Ela recebeu uma proposta de emprego da Filha do Marcelo, a que fugiu com a Engenheira de Produção. Minha Mãe pergunta se estou ouvindo o que ela esta dizendo. Digo que já almocei e que agora estava cuidando de uns papéis. Ela desliga dizendo que eu devia trabalhar menos e tentar reconquistar minha mulher e filhos.

As crianças? Não tive muito contato com elas. Tava sempre trabalhando. O menino tem um pouco mais de dez anos. A menina, asma e miopia. Lembro da Edinanbi e que se tivesse casado com ela, com certeza não teria filhos. Provavelmente a Edinanbi só casará quando os homens puderem ter filhos. Gostaria de ter filhos. Bem, já tenho, dois até, mas foi minha mulher quem os teve, não eu.

No inicio não me importei com a saída de Claudinha de casa. Acho que ela é sapatão. Nos últimos meses ela vinha insistindo em um Ménage a True, com a filha do Marcelo. Negava sempre, afinal era a filha de um amigo, eu não podia fazer isso. Ela dizia que eu não precisava fazer nada, que podia ficar só olhando. Acho que ela se foi por que queria um relacionamento mais aberto, contemporâneo. Ficava pensando na Engenheira de Produção. Será que ela não se importava com o que a filha do Marcelo fazia? Ou será que a filha do Marcelo estava traindo a engenheira? Se o caso fosse traição, a filha do Marcelo é uma burra de trair um bom partido como a Engenheira. Além da grana que ela tem, ela gastou uma nota em plástica pra ter, você sabe, um negoço lá em baixo inflável. A Claudinha não tem nada. O meu é natural, mas melhor seria se eu pudesse inflar ele na hora que quisesse.

São seis e quinze. Hora do café. Resolvo que depois do café vou dormir, sem me importar com o que a Claudinha poderia dizer de alguém que dorme as seis horas em um domingo.

Não tem mais nada pra fazer e não faz sentido assistir TV sem a Claudinha. Eu não fico surpreso com o que vejo na TV. Pra mim tudo é Cinema. O BigBrother, o Fantástico, a Dercy, o Homem na Lua, a África, a China...acho que depois de Madureira não tem nada e depois de Icaraí também não tem nada, só um buraco negro, um Dragão Gigante que come todo mundo que passa pra lá. Não conheço ninguém de confiança que tenha ido pra depois de Madureira ou Icaraí. Tem gente que diz que andou de Avião ou foi pra outros lugares. Pra mim mentira. Simplesmente mentira. Gente querendo contar vantagem.

Enquanto penso em avião, imagino Claudinha, a filha do Marcelo, minha filha, a Engenheira e meu filho. Acho que as crianças estão melhor assim, em uma família do futuro, mais liberal. Três mães e uma delas com um pré-requisito de pai. Fui deitar e pensei que sentia falta de alguém do meu lado. Pensei em Claudinha. Também pensei em Ednanbi e conclui que se Claudinha aprendesse com a Engenheira e ficasse parecida com a Ednanbi talvez eu tentasse trazer ela pra casa. Prometeria sair mais aos domingos, trabalhar menos, ajudar em casa, parar de fumar, entrar pra igreja, cuidar das crianças e tudo mais. Minha Mãe gostaria de ter Claudinha em casa de novo e eu gostaria de ter alguém parecido com a Ednanbi em casa pra aproveitar melhor os domingos. Acho que pela idade não posso mais lutar Judô, mas adoraria lutar com a Ednanbi. Levar um Hipon da Ednanbi em um domingo é meu sonho.

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Helder
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Nic NIlson
 

Eh tem gosto p tudo! Vc e masoquista, meu velho!
Mas gosto eh gosto e vale tudo na tua imaginaçao.
Valew

Nic NIlson · Campinas, SP 28/6/2008 15:14
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Helder Dutra
 

ok, ok Nic...

obrigado pela atenção meu caro!!

Alegria, Força, Vitalidade e Luz...

Helder Dutra · Rio de Janeiro, RJ 28/6/2008 15:37
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