Dub: um estilo? Um gênero? Um vírus?

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dubmuniz · Rio de Janeiro, RJ
6/11/2010 · 14 · 2
 

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Ao perguntar o que seria o dub, um estilo? Um gênero? Um vírus? Colocamos questões sobre fronteiras. O que separa o reggae do dub? O que podemos chamar de estilo ou gênero? Seriam ambos os termos sinônimos? A metáfora do vírus é interessante, sendo um organismo que se situa na tênue fronteira entre o vivo e o não-vivo (existe uma palavra para esta categoria que não seja a mera exclusão de tudo o que é vivo?). Uma vez que o dub é um processo de desconstrução da canção, ele nos permite também pensar as fronteiras entre fala e canto, escrita e performance, teoria e prática. Ele abre espaço para a voz do DJ, assim como serve de inspiração para a dub poetry, onde a poesia é muitas vezes declamada sem a base musical, estando presente no ritmo das palavras e da composição. Este efeito pôde ser alcançado por Binta Breeze, por exemplo, através de uma escrita performática. Novamente, caímos em outra fronteira, aquela entre música e poesia.
Assim, a pluralidade de questões possíveis de se abordar através do dub fez com que esta dissertação se afastasse de um modelo etnográfico. Ela possui um diálogo intenso com fontes bibliográficas, adquirindo o aspecto de um ensaio onde aparecem questões pertinentes ao fazer artístico contemporâneo. Neste sentido, em consonância com as próprias práticas que constituem o dub, não busquei focar em uma delimitação. Fugi de uma perspectiva substancialista, indo em direção a uma abordagem relacional, centrando nas transformações e deslocamentos, mais do que na permanência. Portanto, pode-se dizer que esta é uma “dissertação dub”, uma vez que através dele, eu pude lidar com questões importantes para música hoje, em um momento em que a indústria passa por transformações importantes. Assim, antes de ser uma delimitação, o dub é um conjunto de ferramentas utilizadas para realizar uma mudança de perspectiva.
Conceitos como autoria, originalidade, tradição, obra de arte estão sendo modificados e, simultaneamente, apropriados e utilizados, de maneiras muito diversas. Não se trata de pensar em uma linearidade histórica onde estes conceitos percam importância. Tampouco, pensar em culturas outras onde estes conceitos são supostamente ignorados ou menos importantes. Mas, sim, refletir a relação entre estes conceitos e sua utilização pelos agentes, além da relação destes com outras categorias como ´”roubo” ou “compartilhamento”, “plágio” ou “mimesis”. A reflexão sobre a mimesis em um contexto histórico me parece mais importante do que considerar estas questões de um ponto de vista muito condicionado pelas inovações tecnológicas, ainda que elas sejam importantes. Antes de qualquer advento tecnológico considerado determinante, os seres humanos se relacionam de maneiras ambíguas e conflitivas no que diz respeito à cópia.

Sobre a obra

Seguindo a Teoria Ator-Rede para a realização desta dissertação, foram percorridas trilhas na busca de compreender a assimilação do dub como uma “filosofia” capaz de inspirar análises do fazer artístico contemporâneo. Foram consideradas as fronteiras tanto entre “tipos” de artes diferentes, poesia, pintura e música, mas, também, entre a própria “arte” e outras esferas, política, economia e direito autoral.
A colagem é importante aqui como objeto de estudo e metodologia de trabalho, pode-se dizer que além de ser sobre o dub, está é uma dissertação dub, uma vez que ele se apresenta aqui como meio, e não apenas como fim. Utilizou-se como insumo para a realização desta pesquisa, a experiência do autor como músico, produtor musical e freqüentador de festas de sound system. Além de entrevistas com produtores que utilizam o dub em sua produção.

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informações

Autoria
Bruno Barboza Muniz
Ficha técnica
Orientação: Marco Antonio Gonçalves
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Vicente Machado
 

A edição colaborativa nada mais é que um DUB literário. Aqui podemos incluir camadas de pensamento, emoções ou sentimentos que permeias toda a experiência de pessoas que estejam envolvidas no processo de criação. Assim como o produtor, ou técnico que esteja operando a mesa, precisa entender a mensagem passada através da música. Assim, apesar de trabalhar com toda a banda ali, é um trabalho solitário uma vez que ele fica apenas no seu canto, ampliando as fronteiras que o som original poderia atingir.

Vicente Machado · Rio de Janeiro, RJ 4/11/2010 11:43
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dubmuniz
 

VIcente, interessante seu comentário. Realmente, existe uma tensão entre o caráter coletivo da criação do dub e sua realização, muitas vezes solitária por parte do técnico ou produtor. Vale lembrar que muitos músicos sentiram-se usurpados pelos produtores jamaicanos que reutilizavam o insumo musical fornecido uma vez pelo instrumentista, que poderia não seria contratado novamente, ou tantas vezes quanto gostaria, devido à prática do remix. Chegaram a proibir o dub na rádio jamaicana, mas a popularidade dessa transformação não permitiu que a medida vinagasse.

dubmuniz · Rio de Janeiro, RJ 4/11/2010 11:55
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