E A CHUVA NEM PAROU!

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Lena Girard · Belém, PA
13/12/2019 · 0 · 0
 

Neblina. Chuvisco. Chuva e aquele friozinho amazônico que um lençol fininho consegue conter. Ainda bem que na época do nosso inverno as “trevoadas” e os trovões eram raros. Vez por outra “relampiava” aquela luzinha lá num céu que nem parecia ser o mesmo que nos presenteava com aquela “chuva de mulher”, como diria minha mãe: constante e no mesmo pingar. Sabe aquela mulher que vive pra cuidar da casa, cozinhando, lavando, limpando nariz de menino catarrento, sempre perto, sempre na “ilharga” da gente? Pois é. Essa é a chuva de mulher da minha mãe. Ficava assim o dia inteiro. E se ela “engrossasse”, lá estávamos nós, na biqueira do telhado da igreja, que era grandona e dava pra todo mundo se esbaldar. Como brincar em dias assim? O jeito era inventar peraltices, envolver todo mundo pra brincadeira prestar. Tudo dentro de casa.
A brincadeira preferida de todos era o “peru-galo”, mais conhecida como pira-se-esconde ou pira-mãe, em que a gente envolvia todo mundo: pai, mãe, filho, Espírito Santo, amém. Meu pai e minha mãe punham-se numa rede a se embalar para serem mediadores da brincadeira e proteger os “copos-de-leite”, os menores que não entendiam bem de como brincar.
E pra começar a brincadeira, tínhamos que fazer um joguinho pra escolher quem seria “a mãe” :
“Você quer brincar de pira? Quero
É de pira picolé? É
Quantos picolés você quer? Cinco”
O último a ficar era a mãe.
E lá íamos nós nos esconder nos mais inusitados lugares.
Nesse dia, em especial, meus pais resolveram brincar e me colocaram dentro da minha gaveta de roupas – imaginem como eu era pequena – e puseram minha irmã, uma ano mais velha que eu, dentro do guarda-roupa. A “mãe da pira” gritava: “Já?”. Meus pais diziam que não e nos recomendavam, a mim e à minha irmã, que não fizéssemos barulho algum para que “a mãe” não nos encontrasse, que quando o caminho estivesse livre, eles nos tirariam dos nossos esconderijos. Assim, nos livraríamos de ser “a mãe”. Feito isso, só ouvíamos os passos da “mãe da pira”. Num dado momento, meu pai abre a minha gaveta e diz pra mim: “Corre!”. Lá eu fui bater na “mãe”. Livrei-me desta vez e “a mãe da pira” nem descobriu onde eu me escondera. E minha irmã lá no guarda-roupa sem dar um “pio”. Tadinha! Já devia estar aflita! Ela era muito medrosa. Conhecendo minha irmã, sabia que, a qualquer momento, ela acabaria se entregando. Não deu outra. Passados alguns minutos e como papai não abrisse o guarda-roupa, ela começou a esmurrá-lo, com tanta fúria, que ele desabou com a porta para o chão. Todos começamos a gritar do susto, fazendo muita confusão. Meu pai, tranquilamente, ergueu o guarda-roupa, que era feito de uma madeira leve, abriu a porta e lá estava minha irmã, vermelha como um camarão frito de tanto medo.
Passado o susto, não nos contivemos e passamos o resto do dia e parte da noite, “encarnando” na minha irmã.
E a chuva nem parou!

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HELENA GIRARD

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