Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

E. Goffman: o descobridor do infinitamente pequeno

1
Lucas Melo · Campinas, SP
24/4/2010 · 13 · 2
 

Amostra do texto

Erving Goffman: o descobridor do infinitamente pequeno
Lucas Pereira de Melo

Erving Goffman nasceu em 11 de junho de 1922, em Mannville, no Canadá. Seus pais eram judeus que migraram fugindo do exército russo. Foi criado em Dauphin, Manitoba, uma pequena vila habitada em sua maioria por ucranianos. Estudou na Universidade de Toronto, Canadá, onde se graduou em 1945 e seguiu para a Universidade de Chicago, Estados Unidos, onde cursou o mestrado e o doutorado obtendo os títulos em 1949 e 1953, respectivamente.
Goffman é considerado um dos expoentes das Ciências Sociais do século XX. Sua obra tem influenciado e contribuído para estudos em áreas não só da sociologia e da antropologia, como também no campo da psicologia social, psicanálise, comunicação social, lingüística, literatura, educação, ciências da saúde, dentre outros.
Com suas características peculiares no desenvolvimento de suas pesquisas, Goffman foi um inovador em sua época e estas inovações sempre povoaram sua vida acadêmica de críticas e elogios. Uma dessas características, o pesquisador herói, foi uma herança da tradição da Escola de Chicago.
O traço heróico representado por ele em suas pesquisas como, por exemplo, internar-se por um ano num hospital psiquiátrico de Washington, Estados Unidos, o St. Elizabeths Hospital (1955-56), uma instituição federal com pouco mais de 7000 internos e trabalhar num cassino, em Nevada, Estados Unidos, para estudar “por dentro” os jogos e seus jogadores; ao mesmo tempo em que incomodava, refletia a concepção de formação dos precursores da Escola de Chicago, principalmente Robert Park.
Batista Neto (2007), ao discutir as contribuições da Escola de Chicago e do Interacionismo Simbólico na pesquisa educacional, pondera que a concepção de formação do sociólogo defendida por Park e seus sucessores era focada numa prática pedagógica baseada na observação de campo, na coleta de dados e no uso de outros instrumentos que extrapolassem o uso de fontes secundárias, possibilitando ao estudante a imersão na realidade social a fim de elaborar suas próprias análises.
Dessa forma, os alunos deveriam abandonar a biblioteca e ir a campo, centralizando seus interesses em fontes primárias. Park, citado por Peneff (1990), afirma:
“Disseram-lhe para ir explorar cuidadosamente a biblioteca e para acumular uma massa de notas a partir de arquivos empoeirados. Disseram-lhe para escolher estudar qualquer problema à condição de poderem encontrar, dispostos em boa ordem, documentos mofados, preparados por burocratas cansados e preenchidos por funcionários indiferentes. Chamamos-lhe a isso: sujar as mãos fazendo pesquisa. Estes que lhes aconselham são sábios e respeitáveis. As razões que eles apresentaram são válidas. Mas, uma coisa é indispensável: a observação de primeira mão. Ide e observai os salões de hotéis de luxo ou os abrigos noturnos. Sentai nos sofás das residências, mas também sobre os tapetes de palha dos casebres. Enfim, jovens, sujem as calças fazendo a verdadeira pesquisa” (Park apud Peneff, 1990).
Acredito que esta maneira de fazer pesquisa empregada por Goffman teve suas raízes nesta prática defendida por Park. Levando-se ainda em consideração as contribuições, elencadas por Batista Neto (2007), dadas pela Escola de Chicago ao método de pesquisa que ele discute em seu texto, o biográfico, mas que também considero relevante na tentativa de justificar a característica de Goffman em questão foi a construção de um princípio metodológico que é baseado na importância da interação entre pesquisador e sujeito da pesquisa.
Além disso, o autor seguiu a tradição etnográfica inaugurada, na Antropologia, por Malinowski. Para Malinowski (1978), o etnógrafo deveria apreender o ponto de vista do sujeito, chamado por ele de nativo, seu relacionamento com a vida, sua visão de seu mundo. Para isso, o autor orienta a inserção do pesquisador no cotidiano dos indivíduos a serem pesquisados e Goffman fez isso com classe e estilo próprio interessando-se por aspectos micro das relações sociais. Ele dedicou-se ao estudo das interações sociais ocorridas no cotidiano desvendando um complexo emaranhado de relações.
O título utilizado para nomear este texto provém de uma afirmação de Pierre Bourdieu ao discutir sobre a forma bem sucedida e original de Goffman praticar a sociologia: “aquela que consiste em olhar de perto e longamente a realidade social (...) aquele que fez com que a sociologia descobrisse o infinitamente pequeno” (Bourdieu, 2004: 11).
Esta “sensibilidade sociológica” talvez tenha sido a grande marca da vida e da obra de Goffman como sociólogo. Rodrigues Júnior (2005:125) ao discorrer sobre as contribuições da teoria goffmaniana para a pesquisa com professores de línguas, situando suas considerações principalmente no campo da sócio-lingüística, afirma que Goffman afasta-se “declaradamente das preocupações teóricas de sua época em torno de exaustivas análises macrossociais”. Ele trouxe à baila as micro-análises do “infinitamente particular”, ressignificando a expressão de Marisa Monte, que é o estudo das interações face-a-face cuja integração constrói a vida cotidiana.
O centro de suas micro-análises está na observação dos gestos, olhares, posicionamento e verbalização dos participantes de um encontro social enquanto em co-presença física uns perante os outros.
Para concluir esta breve apresentação do representativo e celebrado sociólogo canadense, considero oportuna a exposição de alguns pontos de contato que Britto (2007) analisou entre Erving Goffman e Clarice Lispector, propondo uma análise sociológica de algumas crônicas de Clarice com base na teoria social de Goffman. Sua idéia foi articular literatura e sociedade por meio da aproximação das trajetórias sociais, recepção e projetos criativos dos autores. Embora seu texto não pretenda esgotar a profundidade da obra de Clarice e Goffman, proporciona uma leitura geral de suas características baseando-se em Lispector (1999) e Goffman (1988; 1989).
Mesmo em meio a pontos de contatos como: trajetórias sociais similares, influências literárias (Proust, Sartre e Freud) e adoções temáticas; o que mais os aproxima é o que Britto (2007) denomina de projeto epifânico, compreendido como a apreensão no detalhe do “instante-já” em Clarice e nos momentos banais do cotidiano em Goffman, é a “revelação através do corriqueiro, esse momento banal, mas revelador, ao mesmo tempo simples e complexo; frágil e doloroso; de expectativas” (Britto, 2007:9).
Tanto a obra de Goffman quanto a de Clarice evidenciam a dor oriunda do sofrimento do homem em sua vida social. São mensagens contemporâneas ao desvendar a angústia e a tragicidade do viver. Estes autores expõem em seus escritos “realidades sufocadas, camufladas e mesmo proibidas dos personagens” (Castilho, 2006: 17).
Foi com uma perspectiva, principalmente, dramatúrgica que Goffman consagrou-se em suas análises da vida social ao apresentar um “eu” que é a representação de um personagem, sendo os indivíduos atores sociais situados em diversos cenários e envolvidos em inúmeras cenas representando papéis, num intenso processo de engajamento e:
“Engajar-se no mundo seria descobri-lo nos instantes comuns do cotidiano, ser capaz de explicá-lo. Dor de ao mesmo tempo ser e poder não ser, entre promessa e recompensa, êxito ou humilhação, na frágil trama de segundos que formam as definições de situações da vida” (Britto, 2007:9).

Referências

Batista Neto J. Algumas considerações teóricas e metodológicas sobre a abordagem biográfica, instrumento da pesquisa educacional e da formação: contribuições da Escola de Chicago e do Interacionismo Simbólico. In: 18º Encontro de Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste, 2007. Política de Ciência e Tecnologia e Formação do Pesquisador em Educação, 2007.

Bourdieu P. Goffman, o descobridor do infinitamente pequeno. In: Gastaldo E. (organizador). Erving Goffman: desbravador do cotidiano. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2004. p.11-12.

Britto CC. A epifânica descoberta do mundo: confluências entre Clarice Lispector e Erving Goffman. In: Seminário Internacional Clarice em Cena: 30 anos depois, 2007. Anais do Seminário Internacional Clarice em Cena: 30 anos depois. Brasília: Universidade de Brasília; 2007. v.1, p. 1-10.

Castilho AO. Clarice Lispector e Nelson Rodrigues: modernidade e tragicidade. [Tese de Doutorado]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2006.

Goffman E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4 ed. Rio de Janeiro: LTC Editora; 1988.

Goffman E. A representação do eu na vida cotidiana. 4 ed. Petrópolis, RJ: Vozes; 1989.

Lispector C. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco; 1999.

Malinowski B. Argonautas do pacífico ocidental. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural; 1978. (Os Pensadores).

Peneff J. La méthode biographique. Paris: Armand Colin; 1990.

Rodrigues Júnior AS. Metodologia sócio-interacionista em pesquisa com professores de línguas: revisitando Goffman. Linguagem & Ensino 2005; 8(1): 123-48.

Sobre a obra

Texto produzido no inverno de 2008, na cidade de Campinas-SP, por ocasião da pesquisa referente à Dissertação de Mestrado do autor.

compartilhe



informações

Autoria
Lucas Melo
Downloads
278 downloads

comentários feed

+ comentar
Roberto A
 

ótimo post lucas!

adiante!

Roberto A · Cuiabá, MT 26/4/2010 16:04
sua opinião: subir
Lucas Melo
 

Sempre adiante... obrigado Roberto!

Lucas Melo · Campinas, SP 26/4/2010 17:05
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados