E O PIUM TEM VELÓDROMO
Você sabe o que é velódromo?
Calma, se não sabe eu vou explicar. Se sabe, talvez esteja pensando no velódromo errado, como eu também pensei.
Vou contar a história para que todos entendam o imbróglio.
Eu estava em Caseara. Chegara havia pouco da fazenda, uma semana toda metido no serviço de reforma do curral, e parei na sorveteria Doce Mel do meu amigo Raimundo para uma cervejinha gelada antes de chegar em casa. Eu merecia esse conforto.
No local, várias pessoas matavam o tempo bebericando e conversando no final de tarde. Como estava sozinho, pus-me a ouvir sem muito interesse a conversa alheia. O tema recorrente era ainda a eleição no Tocantins. Depois do pleito, nas rodas de amigos o eleitor costuma declarar em quem votou. É um costume com o qual gosta de ver reconhecido o acerto de seu voto se o seu candidato sagrou-se vencedor.
Um rapaz numa mesa ao lado conversava com uma mulher enquanto aguardava o ônibus que transporta os estudantes dos assentamentos próximos. Ele conhecia Pium e dizia das maravilhas em obras que a cidade alcançou sob a administração municipal de um certo prefeito. Prefeito este que disputara uma cadeira para a Assembléia Legislativa e que pela sua confissão merecera o seu voto. Não consegui constatar se fora eleito. Mas ele explicava: “Pium ficou um brinco com ele. É uma nova cidade, bem arrumada, dá gosto morar lá”. Não sei por que ele estava em Caseara, mas vá lá entender o ser humano. A mulher, também conhecedora de Pium, corroborava o que ele dizia mais com acenos de cabeça do que com palavras. Uma boa propaganda que já estava criando em mim uma vontade de também visitar a cidade. Veja você a capacidade que a propaganda tem em criar desejos no ser humano por coisas que não lhe são necessárias.
“E a prefeitura de lá?”, disse o rapaz. A mulher anuiu com a cabeça. “Não conheço no Tocantins uma que seja mais bonita”. Ela concordou. Animado, talvez percebendo que eu me interessava pela conversa, ele subiu um pouco o tom de voz, quase chegando ao discurso. E foi então que disparou: “Lá tem até velódromo”. A mulher concordou uma vez mais. Foi então que decidi meter o bedelho na conversa. Ia comentar que se não construíra um elefante branco na cidade, o ex-prefeito era fã de ciclismo ou queria tornar Pium conhecida nacionalmente através do esporte. Uma boa estratégia. Já vira casos semelhantes. “Poxa, então Pium está de parabéns. Vamos ter excelentes ciclistas por lá”, comentei admirado. O rapaz se voltou para mim com uma expressão perplexa no rosto. A mulher também se voltou em minha direção, calada, mas com o mesmo olhar desentendido do rapaz. “Isso mesmo”, reforcei, “vamos ter ótimos ciclistas por lá. Velódromo é para corridas de bicicleta”.
O rapaz balançou a cabeça num sinal de desaprovação. A mulher também. “Não, não é para corridas de bicicleta?” O intrigado agora era eu. “Não, não é”, ele foi enfático. “E é para quê?”, questionei curioso. “É para velórios. Para as famílias que não podem ou não têm onde velar seus mortos. Ele não pensou em tudo?”, disse encantado.
Caro jjLeandro:
Simples e muito bem escrito. Você é um cronista nato. Parabéns!
Demais, Leandro!
Muito, muito boa sua história!
poeta!
Gostei da crônica. Ela tem o mesmo naipe de "Cortando o portugues...(as duas são fantásticas).
Saudações.
Leandro:
São reais as duas últimas crônicas? Não que isso fassa tanta diferença, apenas curiosidade...
Olá, Luciano, obrigado. É bom ter sempre overmanos novos interagindo com a gente. Um abração.
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Grande Carlão, um abraço. Estou sempre procurando ombrear-me com a sua qualidade poética.
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Arlindo, vc me deixa de mão no queixo p ele não cair sempre que leio as suas "loucuras" pantaneiras, essas histórias fantásticas que só vc sabe criar.
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Pedro, a do Homem Invisível é irreal, expressa um sentimento. Tem um comentário que fiz no seguinte endereço que expressa como foi criada; http://www.overmundo.com.br/banco/sala_edicao.php?em_edicao=4424
Agora a "E o Pium..." realmente aconteceu daquele jeito que descrevi. Aquele diálogo entre a mulher e o rapaz ocorreu verdadeiramente. E são tantas outras conversas que a gente ouve e ela própria é uma crônica que custa-nos apenas o tempo de passá-la ao papel. É ter um ouvido atento e muita coisa acontece. Em "O Homem Invisível" é um sentimento, aquele homem são muitos homens, situações vividas e sofrimento. A crônica, por definição, deve relatar acontecimentos do nosso dia a dia e procuro, nessas circunstâncias, captar algo interessante. O que vale é vc pegar algo inusitado, interessante e atraente, que fuja ao trivial.
abcs
Entendo. Realmente é desse amálgama de acontecimentos cotidianos também costumo retirar meus textos. Adoro uma frase do poeta francês Isidore Ducasse inde ele diz que "o maravilhoso está no banal". Abraço...
Pedro Vianna · Belém, PA 17/2/2007 20:05Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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