Recentemente a Sony lançou o Reader, dispositivo digital que imita um livro de papel e é capaz de armazenar diversas obras literárias em PDF. É possível folhear, fazer anotações e marcar páginas. Tudo no ambiente virtual do aparelho. Novamente volta à discussão uma suposta substituição do livro impresso pelos e-books. Só há bem pouco tempo dei-me conta de que tenho lido mais na telinha de LCD do que em papel. Leio, com mais disposição e agilidade, desde notícias até clássicos da literatura disponíveis para download.
Não há dúvidas de que folhear as páginas de um livro é um prazer, e mesmo do objeto em si enquanto fetiche, mas lembro que logo que os PCs surgiram resisti ferrenhamente em escrever e ler histórias no computador. Era difícil conceber que o ato de utilizar a caneta sobre uma folha de papel seria esquecido.
O tempo passou. Hoje "miniminizo" tempo, registrando, colando, recortando idéias diretamente no computador. Aliás, freqüentemente faço limpezas e arquivo rascunhos feitos outrora em papel para a memória do PC. Coisas que só ocupam espaço em minhas gavetas ganharam o espaço da virtualidade sem cair no esquecimento ou inutilidade.
As prateleiras abarrotadas em minha sala já tiveram seu encanto. Hoje, restrinjo-me a conservar os livros autografados e aqueles que uso como referência para pesquisa. Quanto aos livros que adquiro por simples prazer de possuí-los, logo que os leio, encaminho-os para uma biblioteca ou dôo para escolas. Assim como a tecnologia reduz de tamanho enquanto amplia possibilidades de armazenamento, desejo isto para minha vida e meus espaços físicos.
É bem verdade que não tenho muita paciência para ler romances na telinha de LCD, mas aí o caso é outro, também não tenho essa paciência com romances impressos em papel. O que reflete outra coisa: excesso de inovação no mercado editorial e pouquíssima qualidade. Por vezes, trata-se apenas de baixa qualidade em edições graficamente sedutoras.
Outro dia recebi como indicação de leitura O estrangeiro (em papel), de Albert Camus. Obra ágil, edição modesta, sem tentativas ousadas na forma ou conteúdo. Simples e direta, a narrativa nos ganha no primeiro parágrafo, sem pretensões e, por isso mesmo, Albert Camus é e sempre será Albert Camus lido em papel ou virtual.
O Homem está evoluindo, não na mesma velocidade da tecnologia, mas se já resistimos à presença do computador, agora não vivemos sem ele. Que venha o e-book. Mesmo que leve algum tempo, todos nos renderemos a ele quando nossos bolsos permitirem. Antes do celular era o Bip e o Tamagotchi (um treino para o uso do telefones móveis). Foi assim com o notebook que já pesou dez quilos e hoje pesa dois, em média, com recursos superiores aos espaçosos e barulhentos PCs.
Se hoje as pessoas amam-se, reúnem-se, fazem sexo, amizade e negócios pela Internet, não é difícil imaginar que o livro em papel venha a tornar-se objeto de antiquário, com todo o glamour que lançamos às peças vintage. Não se trata de apologia ao final do livro impresso, pois ganho a vida escrevendo-os, mas precisamos manter o olhar atual, sem radicalizar essa ou aquela opinião.
Se ontem escrevíamos nas paredes das cavernas e elas ainda estão aí para contar nossa própria História, escrevamos, leiamos, pois, nas telas de LCD, sem preconceito. Se ontem fomos barrocos, hoje somos cybers e não deixamos de criar e recriar o mundo com a mesma angústia e paixão que sempre o fizemos. Desde que se pague pelos direitos autorais, por que não evoluir para a Era do "e-tudo"?
Texto Fantástico. Perfeito.
Sou uma fã incondicional de livros impressos, gosto do cheiro deles, da textura do papel, de folhear as páginas, de ler o último capítulo antes de continuar. Mas, hoje em dia, tenho lido muito pelo computador. Até mais do que nos impressos. É mais fácil, mais acessível. O que antes só encontrávamos em boas livrarias está ao alcance de todos pela mundo virtual, basta saber procurar. Conheci diversos novos autores através da rede e acho isso importantíssimo. A rede facilita o acesso e acredito que até dê força ao mercado editorial, na medida que as pessoas estão mais em contato com o mundo literário, estão lendo mais, mesmo que só pelo computador.
Parabéns pelo belíssimo tema e pela abertura da discussão.
Sim, Alessandra, o ritual de que te referes sobre o livro impresso tem todo seu charme e encanto. Rendo-me a este ritual frequentemente. Também amo o cheiro, a textura, o folhear das páginas. E, dado o tempo necessário, sem reder-me à pressão que o Tempo exerce sobre nosso modo de pensar, conheci o ritual de navegar pela Internet, descobrindo mundos, opiniões, angústias e sentimentos aflorados. Creio que ambos os jeitos de se aventurar não deixam de ser sempre uma nova descoberta, cada qual com suas estratégias de sedução que ora se assemelham, ora se diferem. E que grande sedução é olhar o diferente! Aquilo que foge aos padrões estabelecidos pela mídia televisiva... Tenho 41 para 42 anos e nunca me senti tão jovem de pensamento/atitude ao escrever este texto. O mundo gira, a vida muda... graças ao modo de olharmos e vermos (a redundância é proposital). Obrigado pelo comentário e por corresponder ao diálogo.
Hermes Bernardi Jr. · Porto Alegre, RS 11/4/2007 16:10
De nada Hermes. Fui xeretar nos teus blogs e gostei muito do teu jeito de escrever. Sincero e profundo. Vi também que você tem uma estreita relação com o Teatro. Coincidência, também amo o Fazer Teatral.
E vamos ao diálogo, sempre!!!
Adorei o texto.
Sabe qual eu penso ser o maior argumento pelo livro digital?
Não derruba árvores para produzir o papel. O livro em papel é gostoso, mas causa um prejuízo enorme ao planeta.
Bytes são ecológicos ;)
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