Não é o meu guri, de Chico Buarque.
É um estudante negro da periferia numa escola
pública.
A única maneira de tornar visível uma multidão
de brasileiros como o Leonardo, é a construção
de um sistema de ensino público democrático
e de qualidade desde as primeiras séries.
Eu diria que é uma das medidas de longo prazo. E a médio e curto prazo? Como é que fica? Deixa como está? Não faz nada para tornar visível? Vamos ficar omissos? Aguardando uma política de educação eficiente? Bem cômodo para quem não vive o problema.
Mansur · Rio de Janeiro, RJ 9/12/2007 21:47
O elogio a mestiçagem é bem racional, né?
Para mim uma tese a serviço da manutenção do status quo, ainda que não intencionalmente formulada para tal.
Propalada por quem ainda sofre daquela depressiva baixa auto-estima, que impede a clareza de visão da realidade objetiva.
Um escape psicológico, que encobre o preconceito de raça.
A saber: preconceito da "elite branca".
O elogio a mestiçagem me faz recordar aquelas frases célebres: O Brasil é o país do futuro. O país da mulata. Enquanto se elogia a mestiçagem, há uma geração de afro-descendentes, entre 16 e 25 anos, exterminada na guerra urbana localizada que "apreciamos".
Como esperar um futuro promissor, se no presente, a construção desse futuro se dá em bases tão frágeis. Porque até onde eu saiba, o futuro se constrói hoje.
concordo com você que se não se fizer nada hoje, em termos de educação, as coisas permanecerão a mesma no futuro. a tarefa é grande e árdua, é de longo prazo: em uns 15, 25 anos teríamos uma elite cultural negra (classe média, portanto) bem mais sólida do que aquela que as cotas raciais prometem (promessas... vãs).
quanto à depressiva baixa auto-estima, ela advém do ver demais.
à insegurança do rio é crônica, importa agora que não se espalhe pelo país.
à propósito: como você espera construir o futuro do país? que ações você desenvolve na sua ong? quais são os cursinhos de formação rala que são ministrados por lá, que justifiquem o envio de somas enormes de dinheiro público?
Eu trabalho no segundo setor. Sou músico, produtor e jovem empresário. Pratico micro-política, trabalho no dia a dia para desmontar as práticas preconceituosas que estão institucionalizadas sutilmente.
Enormes somas de dinheiro público são transferidas para o setor privado, quando se analisa acuidosamente a privatização da Vale do Rio Doce ou o PROER. Aí sim, enormes não, gigantescas somas de dinheiro público.
Temo que com sua visão já "muito bem" construída e cheia de certezas, você seja incapaz de entender o que eu digo quando uso a expressão: depressiva baixa auto estima.
ValderiVeras, eu fui a Osvaldo Cruz, um bairro aqui do Rio, no dia nacional do samba. Rapaz, você não têm idéia do que seja esse dia aqui. É uma festa popular que impressiona, ainda mais em se tratando de comemorar o samba, a identidade estética musical brasileira. Desenvolvida aqui no Rio, sabia? Certamente em Teresina estão cantando samba em algum lugar, né não?
O Rio é o resumo do Brasil. Sofre de falta de presença do estado em áreas localizadas. Não estou minimizando, mas você daí de Teresina, sem frequentar o Rio, não pode entender através do jornais como é a nossa vida. Você não faz idéia. Você só pensa em bala perdida, tiroteio. O Rio é muito mais que isso, amigo.
Você me parece acomodado, por que lhe convém sê-lo. Vamos colocar um pouquinho mais de complexidade nessa conversa. Ela está muito superficial para um acadêmico como você, que fica a formular teses impensáveis aí em Teresina. Sai da cadeira Valdi, vamos sambar?
suas idéias são leves. muito legal olhar o umbigo e esquecer a realidade objetiva. tudo é samba, tudo é mulata. assim é melhor, mais leve na superfície.
"por que o samba nasceu lá na bahia, e se hoje ele é branco na poesia, ele preto demais no coração". conhece?
Nasceu na Bahia, muito bem nascido e tomou forma moderna e contemporânea, no Rio de Janeiro, se sedimentando posteriormente como matriz estética e símbolo da identidade musical brasileira. Leve essa idéia, não?
Mansur · Rio de Janeiro, RJ 10/12/2007 00:41
Conhece a trilogia Pixinguinha, Donga e João da Baiana? Sabe qual é a importância desses artistas para o desenvolvimento do samba contemporâneo, em todas as suas vertentes? Se você souber eu posso continuar. Se não. Não.
Mansur · Rio de Janeiro, RJ 10/12/2007 00:47
deixa pra lá.
você fala em símbolo da identidade musical brasileira, coisa pra inglês ver, evidentemente, um produto pra turistas. tudo bem, cara.
aqui temos samba também, e forró baião xaxado também. conhece? Se você souber eu posso continuar. Se não. Não.
Rapaz, você precisa se informar. Colocar mais cultura em sua vida acadêmica. O samba é pra inglês ver?! Produto pra turistas?! Ah, já sei, você deve estar falando do desfile das escolas de samba. Mas têm muito mais do que isso, meu caro ValderiVas.
Olha só, você sabia que à poucos dias o samba foi institucionalizado com patrimônio imaterial do estado brasileiro?
Baião, xaxado, claro. O Nordeste é fantástico, não? Mas em todas as regiões do Brasil, você, se pesquisar, vai encontrar apenas um estilo musical que está onipresente, eu disse todas. Adivinha qual é?
Se amarra em música? Dá uma escutada nessa aqui, nessa outra, nessa aqui também e nesse samba.
Pode ser que você goste e te relaxe um pouco a cabeça.
Valderi x Mansur, o texto fica onde ? Ele é a matéria que deve ser pensada como artefato cultural, independentemente da revolta, que tem nexo, de cada um de nós. O papo, que tem nuances de um Vasco x Flamengo, está, Kantianamente, obstruindo o encaminhamento cultural específico do que a metafórica imagem propõe, com um texto que podia ser, como chamada, esteticamente mais incisivo. Sugiro que os dois, que muito tem a dar em termos de conhecimento das raízes musicais das duas regiões, deponham as armas do "sujeito" e se perfilem no exército de Cervantes, para a incomensurável jornada...
Abraços, Márcio.
sugestão aceita, márcio. a chamada foi refeita e reflete o que eu penso sobre como construir de verdade uma nação. a educação formal e rigorosa é o único caminho, e não medidas advindas da má consciência e da impotência.
ValderiVeras · Teresina, PI 10/12/2007 09:00
Aceita a sugestão. Tá certo Márcio, é que esse papo vêm de longe, mas já não há porque continuá-lo aqui. Minha opinião já está expressa no primeiro comentário. Ações afirmativas: curto e médio prazo. Educação sempre: longo prazo.
Sem mais
tá. então dou o braço a torcer. estou informado de que as cotas são provisórias. dos males o menor: ficamos com o erro provisoriamente (a CPMF também era pra ser, masss...).
se for pra colocar a verba pra educação de qualidade, não vai dá pra fazer ação afirmativa, não. ou uma de vez por todas e sempre ou a outra, enrolando o futuro...
O aspecto relativo a transitoriedade da política de cotas deve ser levado em conta, como ítem básico da discussão.
Mansur · Rio de Janeiro, RJ 11/12/2007 16:31
Hoje eu estive envolvido com atendimento a um nordestino que trabalha no nosso Projeto Portal dos Ventos, em Caiçara do Rio dos Ventos/RN. Perdeu a mão direita na forrageira, quando moía a matéria-prima da exclusão social. Passei as últimas 24 horas no inferno, para onde me mandou o coice de Deus... Com que mão afagarás teu filho ? Com que dedo debulharás o milho ? Trágico. Simplesmente trágico. Mas a cultura vive e o diálogo de vocês há de frutificar em qualquer paragem onde hajam homens para se alimentarem. Perdoem a colocação, mas meu materialismo, às vezes, sofre e sofre.
Abraços, Márcio.
O menino é belo, a foto muito boa e o questionamento, bem levantado!
Um abraço!
A verdade é que há muita gente ruim entre nós e em nós... Seja por consequência do processo, seja por tendência de degeneração da espécie, seja porque, como quer Platão, a foto represente, ante a limitação de nosso olhar, apenas aparência, distanciamento da realidade que se vê. Mas há um fato levantado aqui, entre Valderivas e Mansur, que pode alinhar-se àquilo que a cultura, muito mais que a escola, pode produzir, que é a evidência de que as políticas afirmativas e ações semelhantes, são agrupamentos de átomos dos produtos da mente humana (portanto materialidade incorpórea), que desfechada, produz novas
equações atualizáves no plano social. Ou seja, as Cotas, por exemplo, representam a determinação do devedor (finalmente com coragem), de se aproximar do impagável débito. Mas, amanhã, esse primeiro passo já terá sido dado, estará registrado, referenciará uma ação a que o Homem não se furtou. E então, talvez, e apenas talvez, o Amor, como categoria universal, sinta-se reconhecido, como quer o Padre Vieira quando diz que "o Amor quer ser reconhecido, e não pago". Pago, perderia sua consistência, que se baseia nessa ininterrupta movimentação de dar-se, apenas. Além do mais, a verdadeira realidade objetiva é a histórica e nossas "ânsias" de acertos, propostos por nossas mentes, sempre carregam o peso da inconsistência de não sermos plenos em pequenos conjuntos e nossa menor distância da verdade se baseia numa totalidade humana dissonante, por força de nossas diferenças e singularidades, a que Camões referenciou, respeitadas nossas limitações, de "a maravilhosa máquina do mundo".
Ou seja: a foto é tão míope e reveladora, como os Sertões de Euclides. Sem ela, estaríamos no escuro.
Valderveras
A cpmf CAIU!!!!! Para surpresa de todos. Este imposto, criado na gestão de Fernando Henrique pelo ministro Adib Jatene serviria para cobrir o rombo da Saúde e da Previdência Social.
Idéia louvável se tivesse sido uma medida provisória e as verbas realmente revertidas para tal...
Políticos inescrupulosos, porém, queriam torná-la permanente e o imposto só serviu para cobrir outros rombos desse país mal administrado.
Achei bonita sua foto, votei nela. Só não gostei do desmerecimento que fez com o trabalho belíssimo do nosso colega Mansur.
As mudanças que começar já. Se cada cidadão fizer a sua parte, doar um pouco de seu próprio conhecimento para os menos favorecidos já estaremos fazendo alguma coisa. A música é um importante instrumento de Socialização e Educação. Pode tirar muitas crianças da marginalidade.
"A insegurança do Rio é crônica", você diz...
E a fome e a miséria, a seca e a subnutição,
, a falta de assistência médica e Educação em todo país, já não estão radicadas por esse país afora?
Valderi, a foto é bonita e o sorriso do Leonardo contagiante.
Mas, infelizmente, ela (a foto) não garante que a causa do sorriso desse menino possa ser atribuída ao fato dele ser um estudante negro numa escola da periferia. Sabe Valderi, o acesso à escola pública já é uma realidade no Brasil, o que não é realidade é a garantia da permanência na escola e a garantia ao direito a uma educação de qualidade.
O sorriso do Leonardo pode, portanto, estar expressando a esperança da multidão de crianças e jovens brasileiros negros que estão, pelo menos a um século, esperando a construção de um sistema de ensino público democrático e de qualidade desde as primeiras séries. Se essa construção é de fato, como vc defende, desejável e fundamental , por outro lado é cruel querer que esses cidadãos de pequena idade esperem mais 25 anos para que esse projeto se concretize.
É por isso que continuo não entendendo porque vc é contra ações afirmativas provisórias que poderiam compensar o prejuízo que vem sendo imputado a eles.
Aliás, como a CPMF afinal não veio para ficar, sem ela, ao que tudo indica, a situação dos professores da escola pública vai se agravar consideravelmente com o congelamento salarial. Aí mesmo é que o projeto, que com tanta procedência vc defende, vai pro brejo, quiça junto com as políticas afirmativas que não poderão funcionar com o corte dos recursos adicionais.
Infelizmente para a multidão de Leonardos que correrão o risco de se transformarem nos "meus guris".
Abraço
Afinal, a CPMF, assim como as suas ações afirmativas (afirmativas de quê, mesmo?), como não veio pra ficar, demonstrou bem a que veio: desvio de dinheiro público sem atacar de frente o problema a que se propôs solucionar, qual seja, os serviços precários de saúde pública do país. Um problema bem maior e mais concreto. Deu no que deu: filas de espera nos postos de saúde, dor e morte de milhões de pacientes. Mas quem se importa? Vamos continuar com nossas ações provisórias. Vamos perder tempo... não são nossas cabeças que vão rolar mesmo...
Compreendo, Maravestruz, que se deva dar um primeiro passo de expiação na questão da escravatura. Mas, se vamos condenar a sociedade e colocar a conta pra o Estado Brasileiro pagar, por que não chamar os vendedores africanos e os revendedores europeus pra pagar a conta também?
Cotas são ações hipócritas de uma sociedade fajuta e sem força pra agir, impotente. São desculpas. Investimento pesado e ininterrupto na educação básica, isto sim, é o único modo de se purgar o passado, porque constrói um futuro.
Passem bem!
Bem, fiquei aquém da capacidade elucidativa dos amigos filósofos. Tenho por mim que muito a de se refletir, dizer e desdizer sobre o assunto, mas fico feliz em contemplar o pensamento contemporâneo pondo-se em reflexão sobre as teses atemporais do nossos imortais pensadores.
Parabéns!
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