A PRIMEIRA
O ano era 1620, o mês abril, talvez.
O dia não importa.
A mulher está parada em frente a porta de sua pequena casa, numa região montanhosa onde hoje é o norte da Itália. Num raio de dezenas de quilômetros é a única habitação.
A pequena casa tem um aspecto rudimentar, a mulher tem um aspecto sujo.
De costas para a casa, encara as montanhas a sua frente, com as duas mãos na cintura, como se estivesse fazendo uma pergunta e esperando a resposta para tomar uma decisão.
Seu companheiro saiu para caçar, meses atrás.
Lá dentro do casebre está seu filho de 8 anos.
Morto.
Começou a reclamar de dores, dores e dores e morreu alguns dias atrás.
Desde que seu marido morreu, ou desapareceu, ela foi estuprada várias vezes.
Sabe que os homens das redondezas voltarão novamente.
O dia está terminando, o horizonte a sua frente começa a ter aquela cor do crepúsculo que nenhum escritor consegue descrever.
A noite cai, a noite caiu.
Já não se enxerga mais os contornos das montanhas no horizonte.
Se alguém pudesse ver, veria a mulher sentada no chão em frente a sua casa, olhando fixo para à noite a sua frente.
Evita olhar para dentro da casa, com medo de ver seu filho morto.
Não tem coragem para sair de onde está.
Não tem para onde ir.
A SEGUNDA
O ano é 1932, o mês abril, o dia 19. Mas poderia se outro qualquer.
Final da tarde.
Juliana acabou de chegar da tecelagem, seus ouvidos doem devido ao barulho das máquinas, seus pés latejam por ter ficado em pé o dia todo.
Sua pequena casa fica em frente a praça da cidade, atrás da igreja.
Juliana esta sentada em uma velha cadeira com as duas pernas esticadas. Os pés apoiados sobre outra cadeira à sua frente.
Seu marido a deixou.
Simplesmente juntou as roupas em uma bolsa, e foi. Após seu filho ter morrido atropelado.
Desde então tem sido a mesma rotina: acordar as 6:30, gosto amargo na boca, escovar os dentes, sair correndo para a fábrica, intervalo do almoço longe de todos, apito do fim do expediente as 17:00, sua casa, varanda, pés sobre a cadeira. Onde estávamos.
Dia após dia.
Desde que seu marido foi embora, um monte de gaviões tentaram comê-la, alguns poucos conseguiram, sua fama se espalhou, aumentou o número de gaviões.
Juliana está com 38 anos, não é bonita e muito menos gostosa.
Trabalha, como operária, há 12 anos na mesma industria, que fica numa cidade no norte da Itália.
A TERCEIRA
Ela desce do carro e vai em direção do banheiro feminino.
Ao seu redor vários caminhoneiros e funcionários do posto de gasolina a observam. Gulosos.
Desce uma escada de pedra, seguindo a indicação da velha placa.
Tudo cheira a graxa, gasolina e sujeira.
Como num filme de Fellini ela esta vestida de preto, de um jeito simples, mas enquanto caminha entre os homens parece envolvida em uma áurea, um brilho.
Os homens correm o risco de serem cegados pelo seu brilho e continuam olhando.
Nos últimos degraus da escada, a cena de filme. Com o canto dos olhos ela olha rapidamente para sua vitima.
Jaqueta de couro, calça jeans, bota salto carrapeta.
O protótipo do macho. Alfa.
Ele também está sedento, faminto, à procura de sua presa. Mas como predador experiente ele desconfia da caça fácil e para, temendo uma armadilha.
Ela percebe sua hesitação e reforça seu convite com mais uma olhada.
Já dentro do banheiro, ela se coloca de frente para porta, encosta na pia.
E espera, espera, espera, e desiste.
Sai do banheiro, fica a alguns passos da porta e olha diretamente para sua presa (ou seria predador ? ) que ainda está lá, indeciso e estático como um rato hipnotizado pelo olhar da cobra.
Agora o homem se decide e entra no banheiro logo atrás dela.
Lá dentro fazem um sexo rápido e insatisfatório, seguido do previsível momento de constrangimento mutuo.
Ele sai antes, ela logo após.
Quando está passando por ele no pátio, ao volante de seu carro, ela para, abaixa o vidro e faz sinal para que ele se aproxime.
Ele chega perto, e espera.
Ela faz sinal de quer falar alguma coisa, ele se aproxima mais e se inclina em direção à ela.
Então, com os lábios bastante próximos de seu ouvidos, ela sussurra:
- Tenho AIDS.
Fecha o vidro de seu carro e parte.
O ano é 2009, no norte da Itália.
3 mulheres, separadas por seculos, mas com algo em comum.
Ou nao.
Três histórias muito tristes, mas muito bem contadas.
Abraço
as 3 "mulheres" podem ser a mãe, a amante e a morte. A vida de um homem em três capítulos
Bebel Fragoso · Prado, BA 30/1/2009 10:47
Gostei da obra. Bem relatada e interessante.
Votado. Ivette G M
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!