(continuação da primeira parte)
Marcela escrevia tudo, com letra miúda e caprichada. O gravador estava ligado, e a câmera oculta filmava tudo. Mesmo assim ela anotava, pois pretendia usar o material em sua tese de doutorado.
- Wando, gostaria que você me falasse sobre aquele dia, o dia em que aconteceu o fato que o trouxe para esta instituição.
-A morte do coroa, senhora?
-Sim. A morte do coroa. Conte-me.
- Eu tava deitado, na minha caixa de papelão, comendo meu lanche. O Fidalgo veio, e me convidou pra gente fazer uma missão.
-Missão?
-É, senhora. Quando a gente sai pra zoar, uma missão, como na guerra.
-Mas você não está lidando com inimigos, são pessoas normais, com filhos, esposas, trabalho!
-Pra nós é guerra, senhora. Quando a gente sai, não sabe se volta. É pra matar ou morrer. Prefiro matar e livrar a cara, entende?
O garoto falava como adulto, como se estivesse imitando alguém, como se imita um ídolo.
-Continue.
- O Fidalgo me chamou. Eu topei, não tinha nada pra fazer mesmo.
-O nome do seu amigo é Fidalgo?
-Não, senhora. Não sei o nome dele. A gente chama Fidalgo porque ele é de família boa, entende? Ele é lôro, olhão azul, boa estampa, as mina corre atrás. Filho de pai burguês, saiu de casa por causa do vício das droga. Queriam internar ele.
Wando continuou a narrativa:
- A gente foi, parou na esquina. Eu mais pra baixo, Fidalgo bem na ponta. O primeiro carro que parou foi o BMW do velho.
A gente cercou ele. Mostrei a arma, e entramo logo no carro. Fidalgo na frente, eu de passageiro. Eu encostava o cano na costela do velho. Mandamos que ele tocasse o possante prum terreno baldio que a gente conhece.O velho tremia que só gelatina.
-Ele disse alguma coisa para vocês? Marcela perguntou.
-Ele dizia: calma, calma, pode ficar com o carro, com o relógio, com tudo. Ele até disse: Sei dos problema que vocês sofre, eu sou contra o governo! Isso precisa mudar, criança como vocês devia estar na escola! Aí o Fidalgo falou: cala a boca velho safado, dirige e cala a boca.
Aí a gente chegou no terreno. Tava escuro, mas a gente é safo, sabe andar no escuro. O velho balofo escorregou e caiu. A gente pegou tudo dele. Relógio, aliança, carteira! Tinha uns trezentos mango.O talão de cheque nós deixamo lá. Obrigamo o velho a dizer a senha do cartão. A gente disse: fala a senha que nós livra tua cara. O velho “cantou” a senha na lata. Pensava que tinha livrado a dele. Aí o Fidalgo disse: Ajoelha aí, burguês barrigudo, ajoelha que tu vai rezar! O velho percebeu e começou a chorar: -Meus filho, se acalme, não faça isso, eu vou ajudar vocês, prometo.
Aí não deu pra agüentar, sabe senhora? O safado do ricaço me chamou de meu filho! O Fidalgo ficou puto da vida e falou: Meu filho? Tu tá me chamando de meu filho?
Ai o Fidalgo puxou o revólver da minha mão e começou a atirar no velho. Foi três tiro, senhora, três, na bucha. O coroa só fez assim: Ai, ai, ai. Pra cada tiro, o coroa deu um ai: Pá, ai. Pá, ai. Pá, ai! Depois foi tudo silêncio. A gente largou o carro lá mesmo, que a gente não sabe ainda dirigir. Aí a gente foi no caixa e sacou só quinhentos real, não deu pra nada, o caixa eletrônico num soltou mais nenhuma nota.
- O que vocês fizeram com o dinheiro?
-Ih, senhora, a gente comprou uns bagulho, comeu um almoço manero e saiu com umas mina. Acabou no dia seguinte. Eu disse, não deu pra nada, senhora!
-Você se arrependeu, Wando?
-Olha senhora, isso tudo é o destino, tinha de ser. Ou a gente mata ou então a gente dança.
Marcela olhou para o relógio:
-Nosso tempo acabou. Volte daqui a quinze dias, Wando.
Pegou o telefone e ligou para um dos monitores.
-Seu Jurandir, a consulta terminou. O interno está liberado.
Olhou a agenda e completou: Por favor, mande entrar o próximo.
muito bom, luna!!( mas você postou como se fosse música, vale a pena corrigir )
abraço,
Talentosa cigana.
Muito bom de ler.
Aí, colega. Obrigada.
Mas quem é cigana é a Lua! Eu sou apenas poeta!
Um Over abraço pra você!
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