UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS
INTRODUÇÃO À LITERATURA PORTUGUESA
ALUNO: CLÁUDIO CARVALHO FERNANDES
“ELOGIO DO SELVAGEM”,
DE GOMES LEAL
Teresina
junho – 2001
O POEMA:
ELOGIO DO SELVAGEM
Eu quisera viver nesses tempos fagueiros
Das matas virgens e das florestas bravas,
Em que gigantes bons, cabeludos, trigueiros,
Não tinham da mentira as abjeções ignavas.
Não moravam então em cidades escravas.
Trilhavam largamente, altos como pinheiros,
As matas dos bambus, dos cipós, dos coqueiros,
Sem frechas, sem farpões, sem arcos, sem aljavas.
À sua calma voz, de entonações sinceras,
Deitavam-se a seus pés, sem receio, as panteras,
Cerrando o olhar ao sol que doirava as folhagens.
A fraude não roçava inda os seus lábios virgens!...
E, retos como a Luz, havia nas vertigens
Do seu amor, seu ódio – harmonias selvagens.
Gomes Leal
O AUTOR:
António Duarte Gomes Leal (1848-1921) nasceu em Lisboa, filho ilegítimo de um funcionário do Estado. Freqüentou o Curso Superior de Letras, não chegando a terminá-lo. Tomando conhecimento com obras de Marx, Darwin, Renan e Proudhon, entusiasma-se com o socialismo, aproximando-se ideologicamente de Antero de Quental e Oliveira Martins. Poeta e jornalista, caiu na miséria nos últimos anos da sua vida, sobrevivendo da caridade alheia. Escreveu: O Tributo de Sangue (1873), A Canalha (1873), Claridades do Sul (1875), A Fome de Camões (1880), A Traição (1881), O Renegado (1881), História de Jesus (1883), O Anti-Cristo (1886), Fim de Um Mundo (1900), A Mulher de Luto (1902), A Senhora da Melancolia (1910).
O poema “Elogio do Selvagem”, de Gomes Leal, aponta para o que Massaud Moisés nomeia como “a polimórfica fisionomia literária e psicológica” do autor português, no cômputo de uma visão que se pretenda senão completa ao menos extensiva das fases e modos percorridos pelo poeta: foi romântico (repare-se na temática empregada no poema citado), aderiu à poesia realista revolucionária preconizada por Antero de Quental (que refletia, de modo geral, uma insatisfação com o estágio evolutivo da sociedade humana), confluiu Parnasianismo e Simbolismo, volveu-se para um certo misticismo ocultista, além de, que não se esqueça deste aspecto relevante, ter praticado poesia satírica (se o poema originalmente não o é, sua inclusão no conjunto da obra pode chamar a atenção para este aspecto, de superação de uma estética, à epoca, por demais criticável).
Como elementos não-realistas (ou ainda românticos), ressaltam-se o sentimentalismo (notadamente nos versos 1 e 3 da primeira estrofe, e no último verso do poema), o fato de que a vida não é encarada com objetividade, preferência pela descrição (de quadro e personagem), não retrata a vida contemporânea (apresenta sua oposição) etc. Os elementos realistas compõem-se no assunto: conflito do homem com o meio (implícito no todo do poema e expresso em seu 12o verso), precisão e fidelidade na observação e na pintura do quadro, dá a impressão de lentidão (À sua calma voz... ...Cerrando o olhar ao sol...). A linguagem é próxima da realidade, da simplicidade, da naturalidade. Predomínio da personagem (o selvagem – homem da Luz -, infenso aos males da civilização) sobre o enredo.
Seu modo de expressão também revela já certos aspectos parnasianos (nomeadamente na versificação – soneto - e temática – antiguidades, eras remotas), embora numa "’poesia sentimental e sinestésica que canta as contradições de uma existência repartida entre os amores venais e a fantasia estelar e exótica, a indignação causada pelas injustiças sociais e o pessimismo, ora negro ora afectadamente cínico e positivista’ (Dic.da Lit.Port.)”.
“Elogio do Selvagem” traduz bem essa heterogeneidade ou permeabilidade do poeta às idéias mais conflitantes, mostrando-o, como bem o disse Massaud Moisés, “preso a um evolucionismo panteísta, ou mesmo a um misticismo panteísta: mescla ciência, religião e filosofia, num compósito (temática Homem-Natureza) que traduz a própria diversificação de posições culturais nos fins do século XIX, e uma sensibilidade ultra-receptiva e ansiosa de integrar numa unidade os dados antagônicos captados da realidade circundante”.
BIBLIOGRAFIA
http://beatriz.zeringota.vila.bol.com.br/MOVIMENTOLITERARIO/RealismoNaturalismo.htm
http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/j_g_ferreira/gomeslea.html
http://www.ipn.pt/opsis/litera/leal.htm
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa através dos Textos, 21a edição, revista e atualizada. São Paulo, Cultrix, 1991.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS
INTRODUÇÃO À LITERATURA PORTUGUESA
ALUNO: CLÁUDIO CARVALHO FERNANDES
“ELOGIO DO SELVAGEM”,
DE GOMES LEAL
Teresina
junho – 2001
O POEMA:
ELOGIO DO SELVAGEM
Eu quisera viver nesses tempos fagueiros
Das matas virgens e das florestas bravas,
Em que gigantes bons, cabeludos, trigueiros,
Não tinham da mentira as abjeções ignavas.
Não moravam então em cidades escravas.
Trilhavam largamente, altos como pinheiros,
As matas dos bambus, dos cipós, dos coqueiros,
Sem frechas, sem farpões, sem arcos, sem aljavas.
À sua calma voz, de entonações sinceras,
Deitavam-se a seus pés, sem receio, as panteras,
Cerrando o olhar ao sol que doirava as folhagens.
A fraude não roçava inda os seus lábios virgens!...
E, retos como a Luz, havia nas vertigens
Do seu amor, seu ódio – harmonias selvagens.
Gomes Leal
O AUTOR:
António Duarte Gomes Leal (1848-1921) nasceu em
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