PRÓLOGO
No Princípio...
"No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele" (João 1:1-3).
***
Aos poucos fui percebendo a consciência, era como acordar de um longo sono, mas sem as lembranças do dia anterior. Perceber sua existência é algo único, algo que os mortais nunca entenderão, pois percebem a vida à medida que crescem. Mas eu estava ali, no vazio. Era real, apesar de não ter forma e ser apenas uma energia, uma emanação de poder. Por um longo tempo fiquei ali, no nada, apenas contemplando minha existência. Era o tudo e o nada, mas aos poucos fui sentindo necessidade de algo mais para contemplar, queria uma forma, uma estrutura, algo digno de minha grandeza. Automaticamente fui criando aparência. Cabeça, tronco e membros. Por minha vontade assumi a forma que desejei. Me maravilhei com meus movimentos. Andar, correr, saltar no vazio. Falar, ainda que ninguém pudesse ouvir. Percebi que tudo que fazia alegrava minha existência e assim permaneci por um longo tempo, até o tempo da criação.
Um sentimento novo tomava conta do meu ser. Solidão. De que adianta ter todo o poder e ninguém para contemplá-lo. Necessitava de adoração, um deus deve ser adorado por tudo o que faz. Pensei. Então por minha vontade se formou o céu, algo digno de mim. Luz, cores e formas. Minha morada estava pronta, porém faltava ainda algo para me orgulhar, uma criação digna de um deus. Eu o formei em mim, dentro do meu ser, então labaredas de fogo saíram do meu corpo e ele tomou força. O primeiro querubim, a mais perfeita criatura depois de mim, sua luz inundava o lugar e enchia meus olhos de alegria. Seu andar era belo, seu falar era inscritível e seu cantar tornava cada segundo sublime. Eu o chamei de Lúcifer, o portador da Luz e o ungi Querubim da guarda. Ele serviu de base para toda a minha criação celestial, todo o exército dos céus, porém sua beleza e majestade o tornaram orgulhoso e ele caiu, e com ele uma terça parte de meus arcanjos e querubins. O céu já não era o mesmo e eu precisava de outra criatura para me orgulhar.
***
Dezoito anos atrás...
Alta madrugada. Um súbito vento forte sacode as árvores e levanta uma nuvem de poeira no caminho. Do meio dela um velho desesperado surge correndo em direção à saída do jardim. Ele carrega uma pesada mochila e seu rosto demonstra cansaço e medo. O vento se intensifica. O velho olha para trás e paralisa. Uma forte luz dourada surge à suas costas e uma espada de fogo atravessa seu peito. O velho cai sobre a areia do caminho. A luz desaparece e tudo volta a ficar escuro.
CAPÍTULO I
A HERANÇA
Dias atuais...
Os primeiros raios de sol incidiram sobre sua janela e o despertaram. Virou-se para a parede e cobriu o rosto, queria dormir um pouco mais. Passara quase a noite toda desenhando círculos e testando trocas de oferendas, buscando uma que tivesse tanto poder quanto uma vida humana, mas falhara novamente. Como todo alquimista ansiava por descobrir o elixir da vida, curar doenças e alcançar a imortalidade, mas transmutar vidas ia contra as leis da natureza e o preço a ser pago era alto demais. Já tentara quase todo tipo de oferenda e entoara todos os cânticos possíveis do Livro Vermelho, mas a energia desprendida nunca era suficiente para completar o ritual.
Fechou os olhos na esperança de pegar no sono, mas ainda podia ouvir os pássaros cantando do lado de fora. Estavam felizes com a chegada do sol depois da noite tempestuosa e entoavam uma canção de amor.
Levantou-se sonolento amaldiçoando seu dom e fechou as cortinas.
Bem vindo dia, que agora nasce;
Bem vindo Sol, que bela face;
O vento sopra, a grama cresce;
O orvalho seca, o amor floresce.
Cobriu a cabeça com o travesseiro e tentou se concentrar em dormir, mas rolava de um lado para o outro e acabou por sufocar-se. Tirou o travesseiro e girou para os pés da cama na esperança de diminuir o alcance do som e ficar mais longe da janela, mas a cantoria não parava do lado de fora.
Bem vindo dia, que agora nasce...
Geralmente conseguia ignorar a voz dos animais e fingir que era normal, mas o stress da noite anterior, mais a expectativa do bilhete que recebera de sua avó, aliado ao canto incessante dos pássaros impediam-no de relaxar e aproveitar o sábado. Não era sempre que podia dormir até tarde, estava no segundo ano da faculdade de veterinária e graças as suas “habilidades” sempre foi considerado um aluno brilhante, às vezes fingia não saber diagnosticar algum problema só para ver a reação dos professores que o bajulavam em excesso.
... O vento sopra, a grama cresce...
Levantou-se devagar e pegou as roupas que estavam amontoadas sobre o criado-mudo. No andar de baixo sua mãe mexia nas louças preparando o café. Era 25 de setembro de 2010, o dia que completaria 19 anos. Olhou de relance para seu quarto, o círculo ainda estava desenhado no piso de madeira e seus utensílios espalhados de tal forma que quase não tinha espaço para se movimentar. Empurrou algumas velas derretidas com o pé e vestiu as roupas. Seu quarto era baixo e ficava no segundo andar, tinha apenas uma janela que dava para os fundos do quintal, as paredes eram abarrotadas de prateleiras cheias de livros e cadernos, perto da porta ficava seu baú de apetrechos mágicos e jogada num canto, uma velha mochila de estudante. O restante do cômodo era ocupado por um velho armário de roupas, uma cama de solteiro e uma velha escrivaninha sempre cheia de papéis. O assoalho de madeira rangia sempre que passava por ele e o telhado baixo tornava o ambiente abafado. Do lado de fora o vento fresco da primavera balançava os galhos da mangueira que crescia perto de sua janela e o roçar das folhas na parede produzia um som característico. Seu quintal era grande e bem arborizado e no fundo ficava a reserva florestal do município, então não era raro encontrar animais passeando pelo terreno ou revirando as latas de lixo dos vizinhos. Sua casa era a mais antiga do bairro e havia sido de seu avô, antes dele se mudar com a mulher para a área rural, e lembrava aqueles casarões do século passado, com muitos quartos e banheiros, e sala e cozinha espaçosas. Foi construída com madeira retirada das primeiras derrubadas da mata que cobria a região e serviu de pensão para os viajantes que passavam no local. Seu avô era um célebre pesquisador e viajava constantemente, sempre pousando em pensões pelo mundo afora, então estava acostumado à vida em conjunto e estranhava quando a casa estava vazia, depois quando comprou a propriedade no campo e se mudou para lá, seu pai herdou o casarão, que agora pertencia a sua mãe.
Desceu até o banheiro para tomar um banho e encontrou sua mãe no pé da escada com um sorriso no rosto, abaixou-se para receber um beijo e um abraço.
– Já nem consigo mais beijar meu filho. Você não vai parar de crescer não Sr. Ocher? – Apesar da brincadeira sua voz demonstrava orgulho da altura do filho.
Sorriu em resposta e se dirigiu ao banheiro, tomou um banho rápido e voltou para o seu quarto, vestiu sua roupa preferida, calça jeans preta e camiseta vermelha que combinava com o tênis da mesma cor.
Desceu novamente e sua mãe o saudou com uma xícara de café e uma fatia de bolo. – Parabéns filhote, mais à tarde vou ao centro comprar seu presente por isso não demore muito na sua avó ok.
– Não vou demorar. – disse o rapaz – Tenho uma reunião na “facul” depois do almoço e não quero me atrasar.
Na verdade não tinha intenção de chegar à faculdade, mas sim voltar à praça em frente ao campus onde vira, de relance, uma moça no dia anterior, uma aura azul celeste a envolvia e por um minuto suspeitou se tratar da visão de um anjo, mas ela se virou, entrou no Corolla estacionado em frente à praça e desapareceu num instante.
Comeu o bolo e tomou o café rapidamente, sua mãe o censurou pelos maus modos à mesa, mas logo se retirou e foi se arrumar para o serviço. Fazia poucos meses que conseguira um emprego e não gostava de se atrasar. Apesar de formada em direito já há algum tempo, esse era seu primeiro trabalho desde que ficara viúva e o corre-corre do serviço ajudara a superar a perda e contornar a situação. Levantou e dirigiu-se à pia para limpar a bagunça e antes que terminasse de lavar a louça do café ela já estava de volta.
– Mande lembranças à sua avó. – disse a mãe tentando esconder a antipatia que sentia pela matriarca da família – E vê se pega o ônibus viu. – O rapaz balançou a cabeça afirmativamente enquanto a mãe saia pela porta da frente. Não gostava do transporte público e sempre preferiu andar a pé, para pensar enquanto caminhava, a mãe sempre achou isso uma perda de tempo então sempre fazia a mesma recomendação quando sabia que o filho ia sair.
Terminou a louça, secou as mãos e subiu ao quarto novamente para pegar sua mochila, tinha o costume de levá-la sempre consigo caso precisasse de algum apetrecho mágico no caminho. Pegou a mochila e saiu, o vento soprava mais forte agora e balançava os galhos das árvores ao redor, sua rua era bem arborizada e apesar do dia já estar quente, o vento sob as árvores proporcionava uma atmosfera agradável. Dobrou a esquina e seguiu pela avenida que dava para a zona rural, era larga e possuía duas vias de acesso e no meio um canteiro com árvores frondosas e grama alta, pássaros e grilos faziam uma verdadeira algazarra no gramado do canteiro, os insetos tentando cortejar suas pretendentes e as aves conseguir sua primeira refeição do dia. Fingiu não escutá-los enquanto tentava imaginar o motivo que levou sua avó a lhe mandar um bilhete tão confuso, é certo que ela e sua mãe não se entendiam e depois que seu pai faleceu a velhota se afastou do resto da família, vivia numa casinha, perto da estrada que dava para o campo, onde viveu com seu avô até o mesmo desaparecer a 18 anos atrás, quando ele tinha apenas um ano de idade, desde então ia visitá-la freqüentemente com o pai, mas depois que o mesmo veio a falecer enquanto servia como voluntário para as Nações Unidas no Haiti, e com a falta de tempo livre devido à faculdade, nunca mais foi visitá-la. A mãe incentivava essa separação e sempre chamava a avó de bruxa velha.
Abriu o bilhete e releu:
Oi filho, como você sabe seu avô esta desaparecido há 18 anos e seu pai nunca quis aceitar o legado da família, agora que você tem idade suficiente passo a você a herança dele, sei que você é especial e fará bom uso dela, te espero amanhã de manhã em minha casa.
Não falte.
Um beijo.
Vovó.
– Legado da família – pensou em voz alta – Minha avó deve estar caducando – sabia que a avó vivia apenas com a aposentadoria e o único bem que possuía era a propriedade no fim da estrada, mas a referência à seu pai e o fato dele ser especial tornavam o bilhete ainda mais enigmático.
Caminhava perdido em devaneios quando ouviu um gemido vindo de trás de uma árvore que adornava o canteiro central. Subiu no canteiro e contornou a árvore, bem ao lado do tronco um filhote de pardal tentava abrir a asa e imediatamente a recolhia se contraindo de dor, aparentemente caíra dos galhos e a quebrara.
– Olá, tudo bem aí. – falou no piado característico dos pardais – Parece que está com problemas. – o Pássaro tentou afastar-se, mas mal conseguia se movimentar e encolheu-se, encostando-se ao tronco – Não se preocupe, só quero ajudar.
Correu as mãos pelo grama alta e encontrou um ramo seco, com o qual desenhou no ar um pentagrama de luz, um pequeno feixe vermelho seguia o graveto e formava o desenho, no final completou com um círculo em volta. Pegou o pássaro com cuidado e o depositou sob o desenho, puxou uma pena de sua asa, o filhote se encolheu ainda mais e piou um palavrão em protesto, desenhou outro pentagrama e abaixo dele colocou a pena, se posicionou com as mãos atravessando os círculos e sobre a pena e a asa quebrada, a mão direita sobre a asa e a esquerda sobre a pena, fechou os olhos, concentrou-se e recitou lentamente.
XIV CANÇÃO DO LIVRO VERMELHO
Abriu os olhos, suas pupilas estavam dilatadas e as íris vermelhas como brasa, fixou o olhar no pássaro e iniciou o canto.
Ossos e sangue, pena vivaz,
Círculo de luz, uma troca se faz,
Perto do fim, um novo começo,
Cura sem dor. Eu ofereço!
Os círculos brilharam mais intensamente e a pena desapareceu no ar, o círculo da esquerda moveu-se e uniu-se ao da direita envolvendo o pássaro que brilhou com uma aura vermelho fogo, a luz percorreu seu corpo e concentrou-se na asa quebrada, no mesmo instante a fratura desapareceu e a ave alçou vôo enquanto os últimos resquícios de brilho desapareciam.
– Puxa, nem agradeceu! – levantou a cabeça e tentou olhar na direção que o pássaro voara, mas o sol ofuscava sua visão. Do alto da árvore veio um – Muito obrigado! – e o pássaro voou novamente.
Sempre tivera certo dom para executar os cânticos, e para magias de nível I não sentia necessidade de desenhar os círculos no chão, bastava traçar o desenho no ar usando os dedos ou algo similar como um bastão ou graveto, e apesar de não ser especialista em magias de cura, usar a pena como oferenda lhe pareceu suficiente para uma pequena fratura e a pouca energia consumida apenas o deixou ofegante por alguns instantes. Uma das regras da magia antiga é que a oferenda sempre é menor que o benefício, para ossos uma pena, para ouro, chumbo, e para a vida eterna uma vida humana, mas poucos tinham coragem para entoar o cântico proibido, pois a alma humana é a única substancia que não pode ser contrabalanceada e ao consumir uma perde-se também a sua, então nunca passara por sua cabeça usar um ser humano vivo em um ritual de troca, mas já ouvira casos de alquimistas negros, sem alma e perambulos entre a vida e morte.
Desceu do canteiro e seguiu pela longa avenida, as casas raleavam conforme prosseguia e ao longe avistou a porteira que dava para a casa da avó, enquanto se aproximava percebeu que o mato estava muito maior agora e a velha mangueira era apenas um amontoado de madeira em decomposição. No final do caminho um velho rancho ia surgindo no horizonte, a luz do sol refletia nas janelas de vidro e as cortinas encardidas esvoaçavam ao vento, as paredes de tábua há muito pediam uma pintura e liquens forravam a madeira de alto a baixo, o telhado parecia que ia desabar a qualquer momento e as persianas do sótão estavam quebradas e escancaradas, fumaça saia da pequena chaminé em forma de galo no telhado e cheiro de ervas inundou o ambiente assim que ele adentrou a varanda. Uma idosa vestindo um jeans surrado, uma camiseta do Green Peace e tênis All Star estava sentada ao lado do velho fogão à lenha e esboçou um sorriso ao vê-lo, seu cabelo parecia não ver escova há anos e os dentes estavam amarelos e raleados, a velha chaleira no fogo apitou indicando que a água fervera, no mesmo instante em que a avó se levantou para abraçá-lo.
– Bem vindo filhote. – Chegou bem na hora do chá.
Retribuiu o abraço e beijou a pele enrugada do rosto da avó enquanto reparava nas condições do casebre, estava muito pior que da última que o vira, a escada para o telhado estava disposta de maneira a escorar as vigas e dos móveis restavam apenas uma velha cama de madeira com lençóis encardidos, uma escrivaninha com alguns produtos de beleza e um espelho grande, um armário antigo repleto de porcelana, uma mesa redonda, algumas banquetas de tronco de carvalho e o fogão a lenha perto da porta. Sentou-se na banqueta ao lado da mesa e sorriu para a avó.
– E então “Madame Mim” onde é o incêndio? – A avó sorriu ao lembrar-se da forma como o filho a chamava nas vezes em que ia visitá-la com o neto, numa referência a bruxa velha e gorda, personagem de Walt Disney.
– Não pareço com a Madame Mim. – disse a velha ainda sorrindo. – Ela usa vestido e eu não troco meu jeans por nada nesse mundo.
– Parece que a senhora não troca é de jeans por nada nesse mundo. – emendou o rapaz – Há quanto tempo não compra uma roupa nova? – falava isso em tom de brincadeira, mas estava realmente preocupado com a aparência da avó, a velha levantou, pegou as louças no armário e sentou novamente se escorando na parede, seu rosto já não esboçava alegria e o esforço para se movimentar a deixara ofegante.
– Desde que seu pai faleceu não tenho ido muito à cidade. – o semblante da avó agora demonstrava tristeza e preocupação. – Tenho pensado muito em você, no seu futuro. Seu avô não está mais entre nós e seu pai também já se foi, você agora é o único motivo da minha existência.
Tentou sorrir e disfarçar a vergonha por ter deixado a avó esquecida por tanto tempo e descontraiu.
– Que isso vovó, a senhora ainda é uma coroa enxuta, tem muito que viver, está mais que na hora de sair um pouco e arrumar um velhinho bacana para dividir o cobertor. Tem uns bailes da 3ª idade que...
– Não meu filho. – a velha o interrompeu e lhe serviu uma xícara de chá. – Não posso negar meu destino e meu tempo está perto do fim, é por esse motivo que te chamei aqui hoje. Como disse na carta, seu pai nunca quis assumir o legado de seu avô, nunca quis procurar o caminho, tentou ocultar o mago dentro dele, mas a magia sempre encontra formas de se libertar e se manifestou novamente em você. Você é o escolhido, o descendente direto do primeiro e de tantos outros grandes alquimistas do passado que herdaram o legado de Adão.
– Espere aí vovó. – disse o rapaz tomando um gole de chá – Eu sei que é muito raro um mago nascer com o meu dom, e que as escolas místicas espalham essa lenda do descendente de Adão, mas a senhora sabe que eu não acredito nessa alegoria bíblica, Adão e Eva, serpente falante, arca de Noé e tudo mais, isso é história para criança. – falava com convicção, mas a velha parecia não aceitar a descrença do neto.
– Sei que é difícil acreditar meu filho, mas você precisa me escutar, o movimento já começou, as profecias estão se cumprindo, estamos a cada dia mais perto do fim. – ergueu as mãos num gesto exasperado parecendo estar fora de si – Como foi no tempo de Noé será agora também, a destruição, as mortes, o caos – suspirou e continuou – e só você pode impedir isso, você é nossa única esperança agora querido, precisa encontrar o caminho para o Jardim e resgatar a Árvore da Vida, só assim a grande obra poderá ser concluída, só com o fruto da árvore do jardim é possível criar o Elixir da Vida e dar a humanidade alguma esperança na guerra que está porvir.
Segurou as mãos do neto e as acariciou, seus olhos brilhavam de emoção, o rapaz se arrumou na banqueta e respondeu.
– Vovó o elixir só pode ser criado com a energia de uma alma. – explicava calmamente como se a avó não pudesse compreender de outra forma – Não há como realizar a troca de outra forma, e essa árvore é uma lenda, um conto, assim como seu fruto imortal, não há um caminho para o Éden, o vovô morreu por acreditar nisso.
– Não meu filho. – insistiu a avó – Seu avô sabia que existia um caminho, e tenho certeza que ele o descobriu, é por isso que te chamei aqui, só você pode continuar essa busca, mas precisa se apressar, seu avó deixou um baú no sótão para seu herdeiro, era para seu pai, mas agora eu o transfiro para você, nele você encontrará o que seu avô coletou e descobriu durante sua jornada em busca do jardim, ele será sua herança, e a nossa esperança de um mundo sem tirania, onde cada ser humano possa escolher seu destino com base em suas ações e não em um sistema injusto de regras impostas por outrem.
O rapaz terminou o chá e levantou, não sabia o que dizer, tudo aquilo parecia loucura, a avó balançava a cabeça afirmativamente enquanto olhava para ele sorrindo e indicando a escada.
– Vá meu filho, não tenha medo do seu destino. Eu o acompanharia se pudesse, mas não tenho mais idade para subir escadas. – escorou-se na mesa e levantou. Retirou um estranho artefato do bolso de trás da calça e o entregou ao neto, era uma chave grande e muito antiga, tinha o formato de uma cabeça de cobra e no lugar dos olhos, duas pedras vermelhas contrastavam com o verde do metal e de sua boca pendia uma corrente de prata, seu corpo tinha a forma de um “S” e no verso, gravado em baixo relevo, as seguintes inscrições: “Chave de Sophia, chave do caminho”, em um idioma desconhecido – A chave do baú. – disse a avó ainda sorrindo – Ela tem o formato de Sophia, para guiar seu caminho em sua nova jornada. Um caminho de descobertas, conhecimento e reflexão, que começou com Sophia e com Sophia deve terminar.
Timidamente o rapaz estendeu a mão e pegou a chave, seu coração começou a bater num ritmo acelerado e sentiu uma onda de calor percorrer o seu corpo, aproximou-se desconfiado da velha escada de madeira e começou a subir, o casebre dançava a cada subida e por um momento pensou em desistir, antes que tudo viesse abaixo, mas a avó parecia não se importar e o incentivava com o olhar. Lentamente galgou os poucos degraus e adentrou o sótão. O local estava repleto de teias de aranha que balançavam ao vento e o...
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