Engrandeci-me suavemente. Pé ante pé, sem garras e sem medo, apenas a finura da pele lisa fez-se percorrer a reta parede com extrema facilidade. Assim elevei-me, sou lagartixa. Descobri-me, então, perambulando na superfície branca de um mármore gelado de um muro desconhecido. Aconteceu, simplesmente aconteceu. Como em um conto kafkaniano, abro os olhos e sou outra. E sou livre, realista mais do que nunca, sou plena. Ou quase-plena, pois assim o seria se um dia me descubro finalmente uma ave, grande e forte, nas montanhas andinas... Mas o ser humano quer sempre mais e não se satisfaz com o que já tem. Então volto-me para esta nova realidade, sou plena sim senhor. Sou lagartixa.
Tenho o mundo ao meu alcance, nada me falta. O verei de outro ângulo. Não sinto fome, não tenho sede, não sinto cansaços nem dores. Não tenho passado nem futuro, este momento único é o presente que eu tenho, de Natal ou Ano-Novo, o presente de aniversário ou um desaniversário, comemoro sem motivos aparentes. Simplesmente me tornei. Sou. Aconteceu. Não tenho para onde ir e não sei como se processou tal fato inesperado e confuso. Tudo o que vejo é branco e frio, vou caminhando sem esperar que me esbarre por nada pela frente, até que... ali vejo outra de minha nova espécie. Aproximo-me sem saber ao certo o que dizer. Ela choraminga e os olhos já estão inchados.
“O que se passa, pequena?” – pergunto eu. Sua voz é fina e baixa: “Sinto cansaço”. Ao perguntar o porquê, veio a resposta: “é este nada que me corrói, este tédio lânguido e o frio deste mármore. O dia inteiro passo aqui, sem nada a fazer, já sinto imensa fome, sede, dores nas pernas e toda a minha vida o que tenho feito é ser uma andarilha sem perspectivas. Estou farta deste mundo insosso!”.
Fico pasma. Para mim, um admirável mundo novo prestes a ser descoberto, sinto-me uma turista mochileira, quero desbravar experiências. Para ela, todos os dias são os mesmos e aquele mundo monótono nada pode oferecê-la, que já o conhece pelos olhos de uma lagartixa. Em meu egoísmo supremo, sigo em frente sem olhar para trás tentando esquecer aquelas palavras.
Olá Luciana, vim li e votei.
Menina, que bonita visão de mundo através de uma lagartixa. Isso traz muitas reflexões, inclusive filosófica e religiosa. Sem apontar para esta ou aquela corente, até porque não sou adepta ou de nada. Sinto uma imensa força do além das nosas conxciências, das nossas meras percepções materialistas. Quisera ser ou sermos lagartixas ou águias para termos outras e grandes experiências de 'vidas'.
"Quem sou eu?!" Essa é sem dúvida a nossa grande questão!
Grande abraço!
Muito bom,
Será que alguém já parou pra pensar num momento,
que dura e dura, assim, como a lagartixa. um abraço, andre.
Ue, eu já votei e não consta meu comentário...victorvapf
victorvapf · Belo Horizonte, MG 13/10/2007 14:42
Obrigada todos pelos comentários.
victorvapf, você havia feito um comentário e não apareceu? estranho :/
Bonito, bonito.
Melhor andar olhando pra frente do que viver de lembranças.
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