Em nome do amor
Viajei muitos dias e quando voltei pra casa encontrei sobre a escrivaninha — colocadas por minha secretária entre meus outros papéis — duas correspondências desesperadas de um amigo, com uma diferença de 25 dias uma da outra. Abri, logicamente, a primeira. Ele, angustiado, confessava-me o fim do namoro de três anos com a Clotilde; citava Goethe, abrindo a carta: “Por que aquilo que faz a felicidade do homem tem que se tornar também a fonte de sua desventura?” Mais que confessar “o fim de minha vida,” como anunciava dramaticamente, queria uma opinião e, mais que isso, minha ajuda para que a amada voltasse aos seus braços. Ao ler a segunda carta — pela demora em minha viagem —, ele reclamava porque não se valera de meus préstimos.
Dizia-me pateticamente, plagiando — não citava o autor, e eu já li isso em algum livro — não me recordo se de um grande autor, algum best seller para consumo imediato ou um desses manuais piegas de auto-ajuda: “Um homem só tem valor quando ama e é amado”.
Um homem apaixonado e abandonado está sujeito a qualquer vício ou vexame, constatei ao ler as cartas do amigo. O Mário (dou-lhe um pseudônimo para evitar constrangimentos) perdera a razão. Ele próprio reconhecia na carta. Para melhor situar o caro leitor sobre o drama de meu amigo e agora personagem, basta dizer que ele mora em uma pequena cidade do sul do Pará. Como apelara a curandeiros, cartomantes, alcoviteiras, pessoas de todo tipo de caráter, e ainda não satisfeito recorrera a jornais e emissoras de rádio e TV para expor seu drama e reclamar a volta de Clotilde, tornou-se conhecido e o povo julgou-se no direito de palpitar sobre o seu drama. Chacotearam quanto quiseram do bobo. E mais: um oportunista passou-lhe a perna como se verá adiante.
O Mário, moto-taxista de poucas economias, no auge do desespero resolveu promover uma gincana: inicialmente prometeu dar duzentos reais a quem convencesse a Clotilde de que cinco dias de castigo já eram suficientes para maltratá-lo e pôr sob rédeas curtas o seu ciúme. Qual nada! Ninguém ligou. Teve então a barulhenta idéia de botar um carro de som atrás da moça pelas ruas da cidade e até diante do serviço dela (é cabeleireira), desses carros que choramingam umas mensagens de amor capazes de derreter qualquer coração de pedra com a facilidade com que um potente ácido derrete o mais duro metal. Negativo, a moça tinha opinião. Entre outras coisas sobrou uma conta para o Mário acertar na eletrônica da cidade: Clotilde apedrejou o carro, estragando os alto-falantes: para azar dele, a pontaria da moça estava em dia.
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Quantas loucuras se faz em nome do amor, hein? E, de repente, isso nem é saudável, mas a pessoa envolvida por tal sentimento nem pensa direito. Só quer se agarrar a qualquer fio de esperança.
apple · Juiz de Fora, MG 20/11/2007 07:45
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