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EMMA LOUISE

1
Brida · Salvador, BA
29/8/2008 · 36 · 6
 

O acontecer dos fatos atordoa. Seja porque deslumbram, seja porque abrem uma fina fissura no bloco das certezas até então acumuladas.
Todos temos essa tendência, a de construir um sistema de certezas, para tornar a vida mais suave de enfrentar, já que é mesmo estarrecedor o simples acordar a cada dia e defrontar-se com um tempo que não se sabe como irá correr, e o que irá ocorrer no interregno entre olhos abrindo-se, e olhos que tentam apaziguar-se, à noite. Tempus edax rerum, Ovídio tem razão, o tempo é devorador das coisas.
O que nos irá acontecer, em parte, depende das ações perpetradas no decorrer do estirão das horas, sim. E essa ainda é a parte mais fácil da vida, já que a nossa decisão sobre as ações que iremos ou não realizar é que custa um esforço ingente, continuado, posicionamentos e reposicionamentos constantes, imenso dispêndio de energia, acúmulo redundante de atenção. Se iremos sobreviver a ele, não podemos prever, daí a necessidade do sistema a que me refiro, um sistema de sobrevivência, digamos assim, para que tudo fique esclarecido e claro até o momento em que tudo escureça radical e definitivamente, um dia.
Mas aí se situa o dilema central: o abater-se de eventos aleatórios ou não sobre a massa de tempo do cotidiano. Eu disse massa de tempo, mas disse uma tolice. Não há nenhuma massa, tempo não é estofo de nada, tempo é sucessão fluida e imponderável. Mas disse eu massa, enfim, por alguma razão, e esta se situará, provavelmente, na intersecção do tempo com o espaço concreto de uma vida: uma casa, um automóvel, uma rua, uma praça, relações pessoais, sim, uma profissão, um labor qualquer, inclusive este de agora, o de relatar, num espaço interseccionando o tal, o tempo, dele subtraído.
A subtração é uma operação delicada, delicadíssima, sujeita a interpretações as mais diversas. Das operações fundamentais, foi sempre a mais instigante e a mais complexa. Não há um resultado, há uma diferença, entre o minuendo e o subtraendo. E, ao resolver equações? É importante observar que há a regra de "passar para o outro lado". Aí está embutido um conceito matemático chamado operação inversa. O matemático alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz, em 1672, aperfeiçoou a Máquina de Pascal, construindo a calculadora universal, que realizava soma, subtração, multiplicação, divisão e ainda calculava raiz quadrada.
Contemplemos o aparato. Observando-o, poderemos constatar que os processos de subtração serão, sempre, os mais tortuosos e complexos. Vejam só a dificuldade de iniciar o procedimento, já que nos encontramos diante de um universo fechado, constituído a priori. Mesmo somar é complicado, ou multiplicar – o que não faz lá essas diferenças; e o dividir fica atenuado pelo princípio de multiplicação nele inserido, por um lado, e levemente complicado pelo momento implícito da subtração.
Quando Julião esteve frente a frente com a vida, não sabia ainda desses detalhes. Sempre viveu de modo inconseqüente, esbanjador, perdulário. Cada dia era todos os dias, não havia nenhuma noção de tempo ou de uso do tempo, tudo se delongava, estirava-se ao sabor de seus desejos imediatos, e mesmo de seus deveres – que cumpria. Mas a ausência de reflexão fazia, de tudo, um desperdício.
Sua origem se situa em família abastada, aristocrática pelo lado materno – de quem herdou uma persistente finura de gestos e atitudes sociais, um modo de vida cultivando o que denominava “estética do cotidiano”; do lado paterno herdou seus princípios morais, sólidos e inamovíveis, uma higidez de hábitos e de genética: mens sana in corpore sanu norteavam a vida de seu pai, o Comendador Antonio Joachim Rodrigues de Leão. Provinha de Trás-os-Montes, a sua família paterna, os Rodrigues de Leão; e de Braga, os da linha paterna matrilinear, os Sá de Miranda. Todos, honrados; todos, íntegros; todos hígidos. Assim ele tentou educar os filhos – que foram numerosos, incluindo um casal de gêmeos idênticos.
Já do lado materno havia uns dados genéticos perturbadores, muito perturbadores, o humor e a emoção instáveis e frágeis, casos freqüentes de alcoolismo, mas um imenso esforço para superar esses entraves deterministas por parte de quase todos ou todos da família, cada qual a seu modo.
Além do mais provinham de uma longa linhagem de aristocratas, com origem em Portugal, e mais especificamente, no Porto, do lado materno patrilinear, os Portonobre. Do lado materno matrilinear, vinham de burgueses abastados e dados às letras e artes, do norte da Alemanha, os Castorp, que residiram por algum tempo em Angra dos Reis, mas logo se mudaram para a Bahia. Tanto que Julião não abdicou de sua origem alemã, que muito prezava: um dos Castorp foi alpinista famoso, e ele amava essa modalidade de esporte. Por isso, assinava-se Julião Castorp Rodrigues de Leão, embora fosse outro o seu nome de registro civil. Rapazinho de 17 anos, Julião perdeu aquele imenso pai.
O seu tio, Carlos, assumiu a função de tutor dos sobrinhos menores e, particularmente, apegou-se a Julião, por afinidade de temperamento. Dividiam a mesma casa, um belo casarão à Rua da Gamboa de Cima, com vista panorâmica para a Baía de Todos os Santos. Não se animavam a sair desse paraíso, apesar da decadência daquele pedaço encantador da Bahia por volta dos anos oitenta.
O tio Carlos era um homem de finanças sólidas sem ser rico, era bom e justo. Culto e viajado, não chegara a se formar, por não nutrir nenhuma simpatia por quaisquer das profissões estabelecidas. Comerciante de tecidos, mantinha sua loja há anos, na Rua Chile, o Magazine Dois Mundos. Viajava, efetivamente, por ambos os mundos, Ocidente e Oriente. Daí o seu estoque de tecidos e outros artigos e acessórios que mantinha, selecionados, exóticos e de bom gosto.
Esses dados são necessários para que se entendam os eventos que serão relatados adiante, envolvendo Julião, a quem conheço desde menino, e pelo qual tenho uma amizade que posso denominar paternal. E enquanto, por um lado, apiedo-me do amigo, encontro-me quase arrependido de o ter deixado ir embora sem rumo certo no mare magnum da vida, pois apenas eu poderia ter evitado isto, suspendendo este relato. Por outro lado reconstruo mentalmente o episódio do salão de chá, que não presenciei, mas me foi narrado por Julião e pelo tio Carlos, em momentos diferentes da vida deles, respectivamente, e da minha. Fora protagonista do evento a filha da Senhora de Sant’Anna, Emma Louise, que será caracterizada adiante. Prefiro usar o tempo verbal no presente, para deixar os fatos correndo à sua própria mercê.
Emma Louise é uma dessas jovens mulheres crescidas no espírito dos valores da classe média alta brasileira dos anos 60 do século passado. É católica, sem ser beata; elegante, sem ser perua; gastadeira, sem ser perdulária; esperta para alguns setores da vida, sem ser inteligente. Vai para clubes e festas, habitualmente e sem mudanças, há anos – desde a infância e a persistente adolescência. Viaja para o sudeste e o sul do Brasil, para a Argentina – usualmente Bariloche e Buenos Aires, Europa Ocidental – principalmente a França e Portugal, geralmente em pacotes turísticos partilhados com familiares e amigos.

E é bonita. Bonitíssima, de uma beleza comovente, os grandes olhos castanho-dourados, ditos por alguns “de ressaca”, dardejam todo o tempo, derramando um cetim de afetos que pulverizam qualquer homem, sempre pulverizaram. Mas Emma Louise não percebe nada do que se passa. O tempo, para ela, é sempre igual. Não percebe a diferença entre o vôo de um pássaro e uma pipa dançando no ar, nem mesmo tem opiniões. Move-se de modo grácil e leve, com um jeito de parar de quando em vez, olhar em volta, sorrir e até rir. Tudo a encanta, e a todos encanta. Conversa com as pessoas tão longa e freqüentemente quanto deseja, com quem acha agradável, geralmente seres masculinos, com os quais mantém uma relação verdadeiramente mirífica.
Todos a adoram, todos por ela se apaixonam, todos se aproximam de Emma Louise, sedentos daquela qualidade de doçura que ela possui sem fronteiras, daquela docilidade espantosa – um leve toque de mão, e Emma Louise abre muito seus olhos dourados e ofega docemente, proferindo alguns sons musicais monocórdios, miando, latindo, grasnando, uivando, às vezes, berrando, até, crocitando, muitas vezes, para depois retornar à modulação mais freqüente que é o chilrear, este, percorrendo desde os pipilos mais suaves até os gorjeios melodiosos, atingindo, por vezes, um pungente gemido distendido por segundos e até vastos minutos, enquanto os pretendentes se encolhem, constrangidos, assustados com aquela exorbitância, perplexos com a diferença que há entre Emma Louise e as demais mulheres.
O problema é que essa moça é tão suave, tão bela, tão encantadora, que não é fácil desistir dela. Mas, o que fazer com ela? Se fosse pelo apelo imediato do instinto, possuí-la, mesmo porque, Emma Louise jamais se negaria, ela nasceu para ser pura e simplesmente uma criatura fêmea. Nela, entretanto, não há maldade alguma, malícia menos, nenhum impulso mesquinho, nenhum truque de sedução.
Emma Louise é a própria sedução. Não há senão sedução em Emma Louise, todo o seu arcabouço corpóreo, toda a sua constituição luminosa, aliados a seus meneios, gracioso jogar de longos cabelos para um lado e para o outro, para trás – com o polegar e o indicador repartindo a mecha central da vigorosa cabeleira de cores esfuziantes e múltiplas, já que, à esquerda, os cabelos são louro-dourados; no centro, vermelho-rubi; à direita, negros como as asas da graúna; lisíssimos nos dois extremos e levemente ondulados ao centro e, à nuca, verdadeiramente encarapinhados, e muito sedosos no entanto. Assim, quando ela usa um coque no alto da cabeça, assemelha-se a uma rainha com um diadema de topázios, rubis e ônixes, e sua nuca ímpar mostra-se protegida pelo tufo macio do cabelo afro, que faz como que um Y no acabamento do cangote frágil. É uma jovem de vinte anos, talvez – fina, fresca, dúctil, nítida como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tem alguma coisa de transparência das velhas porcelanas, há no seu perfil uma linha pura, como de uma medalha antiga, e os poetas românticos a teriam chamado – pomba, arminho, neve e ouro. E o sorriso de Emma Louise, então? Lábios muito rubros desdobram-se numa cascata de pérolas de regularidade íntegra, e ela ri também com os olhos - alertas a qualquer fato interveniente, sem dúvida, de riso singularmente seu, pois quando ri, segura o riso sem desmanchá-lo, como se quisesse perceber-se naquele ato escandindo o instante que passa, colocando no engaste dos segundos a jóia do seu riso. Ela brilha, sendo pequena e esguia, e, ao chegar em qualquer ambiente, todos param para olhar sua contraditória beleza firmada no faiscante e obscuro mundo da animalidade.
Sim, esta é a verdade – Emma Louise é um bicho, um bichinho. Ela não busca sucesso, ela o obtém pelo simples fato de surgir. Vocês, leitores, devem estar meio desconfiados da veracidade do meu relato, e isso, mais do que compreensível, é necessário. Preciso que vocês desconfiem do que narro o tempo todo, pois eu mesmo não consigo atinar com o sentido do ser que é essa inacreditável Emma Louise.
Ardente, como parece, sorri do ardor, quando observa manifestações amorosas em público. E é nesses momentos que surge em mim a dúvida central em relação ao que posso vir a pensar da personalidade de Emma Louise. O sorriso desses momentos é inteligente, pois irônico. Verdade é que não sei ao certo se o que poderia parecer um estado de demência tem, efetivamente, esse diagnóstico.
Seus familiares nada comentam a respeito, nunca. Não abrem sequer uma mínima brecha para qualquer comentário ou pergunta. O problema para sua mãe é o que ela acredita ser a fragilidade de Emma Louise.
Uma vez, uma senhora muito aristocrática e discreta, amiga da família, num chá de beneficência no qual se encontrava a Senhora de Sant’Anna – este é o nome da mãe de Emma Louise, Carlota Rouault de Rênal Sant’Anna (possivelmente de remota origem francesa, no Brasil nunca se sabe ao certo) perguntou muito discretamente se a menina, tão linda e educada, já estava com casamento à vista.
A Senhora de Sant’Anna voltou-se para olhar a educada senhora com tal destempero de gesto, que o pingente no lobo de sua orelha esquerda, de diamantes límpidos, intrincou-se com o arranjo de flores que se encontrava à sua direita, na ponta da mesa de chá lindamente disposta, e foi algo de pavoroso o que aconteceu.
Como em efeito dominó, caiu o arranjo pelo chão; a toalha da mesa, de tecido de renda vaporoso, foi guinchada por alguns arames de sustentação do arranjo de flores; e significativa parte das louças, baixelas e cristais foi deslizando irreversivelmente para o chão, louças e cristais quebrando-se com grande estrépito e talheres tilintando no piso de granito rosa do grande salão. Um verdadeiro despautério.
Examinando Emma Louise, após o incidente, só se podia ver aquela graciosidade perfeita, que só o é, quando natural ao modo de ser, e que sobretudo, a pessoa que a detém sequer sonha em possuí-la.
Foi quando irrompeu na sala de chá o filho da Senhora Otília, née Portonobre, Julião. Olhou perplexo a cena e descobriu entre xícaras partidas, talheres esparsos, flores espalhadas e senhoras muito perturbadas a figura de Emma Louise. Estremeceu, perdeu o pulso, ficou muito pálido. Estático, olhou.
Julião se conhecia muito bem em matéria de beleza feminina, sabia de seus efeitos e conseqüências às vezes devastadoras, mas não costumava sucumbir. Juraria que aquela visão singular teria 15 anos, ou menos. E, nessa idade em que os hormônios circulam pelo corpo em incrível atividade, via nessa menina uma placidez cândida e atordoante. Sucumbiu.
Ela não se dava a menor conta da perturbação que provocava, embora percebesse os olhares de enlevo – às vezes assustados e aflitos, às vezes ternos e piedosos, às vezes astutos e imprudentes – dos homens. Deixava-se ver, permitia ser olhada com condescendência apropriada a uma rainha. E assim recebeu o olhar de Julião. Imóvel e com o queixo levemente levantado, a fronte recebendo a luz na cabeleira.
Julião teve um impulso de beijar sua pequena mão. Logo se assustou com essa idéia, mais, teve medo dela.
A mãe da menina percebeu a chegada do homem:
- Oh, veja só que coisa mais sem propósito! Por um simples mover de cabeça, a mesa do chá foi ao chão! – exclamou a perspicaz senhora, simultaneamente avaliando o rapaz, embora de modo velado.
A Senhora de Sant’Anna era profunda conhecedora dos homens. Bela aos cinqüenta, não quis casar-se novamente, após sua viuvez há uns poucos anos. Não que pessoalmente tivesse alguma mágoa dos homens. Conhecia, sim, muito bem, suas fraquezas – as chamadas “fraquezas da carne”. Fora casada com um homem fiel segundo o figurino da classe média à sua época: trair a esposa significava ter uma amante fixa, pública e notória.
Ser fiel significava não deixar que nenhum respingo das aventuras amorosas, de curta duração e fora do círculo de conhecimento do casal, chegasse à santidade do lar. Seu marido, dos Rocha Sant’Anna da Chapada Diamantina, era um homem de pedra, apesar de seus pecadilhos com mulheres. Mas a Senhora de Sant’Anna era uma águia. Percebia qualquer movimento em falso do marido, sabia mergulhar muito bem naqueles olhos cor de topázio, sedutores e sempre úmidos. E isso era o suficiente para não querer se cansar com essas coisas.
Mulheres maduras, por mais atraentes que possam ser, por mais desejadas, se acedem em manter uma relação conjugal, estarão sempre sujeitas a dissabores provocados pelo modo de ser masculino. Aliás, qualquer mulher está, mas é que as mulheres maduras, se sensatas, evitam-nos, e cortam o mal pela raiz: não permitindo a aproximação excessiva, encantam todos e a todos deixam com um gostinho de quero mais. E esse mais não acontecerá. E, se por acaso ou arroubo, ou mesmo por algum tipo de carência, acontecer, isso poderá gerar graves e incômodos transtornos, principalmente no suceder cotidiano.
É que o homem, quando se trata de convivência, mostra-se, geralmente, um incapaz. Não é que queira desgostar a mulher. Bem pelo contrário, ele não quer. O homem é um eterno apaixonado pela mulher. Sou homem e posso afirmar isso com segurança, não apenas por minha trajetória individual – na qual cultivo o autoconhecimento como fundamento de vida.
Em decorrência dessa postura, passei a entender melhor o outro, os outros: as mulheres, criaturas supernas, e homens, machos, inclusive, além dos gays. É que o ser masculino possui o sentido da visão superaguçado, e esse sentido possui uma conexão imediata com os órgãos genésicos. Daí a natural tendência do homem àquilo que se denomina infidelidade. É determinação genética que, embora contornável, aborrece uma mulher madura Apenas aborrece, e entedia. Ao passo que provoca um tumulto de adrenalina nos organismos de mulheres jovens – o que resulta em sofrimento pungente, ansiedade avassaladora e, até, impulsos homicidas e suicidas.
O ciúme é perigosíssimo em jovens mulheres. Mas o momento e o espaço não são propícios a dissertações – assim dizem os tratados de prosa, embora este relato nada tenha de ficcional, já que é a mais pura realidade, aquilo que se chama de a realidade nua e crua.
Percebeu, pois, a senhora, o atordoamento de Julião. Gostou desse rapaz imediatamente, percebeu que ele entendia Emma Louise em sua desamparada beleza. Julião não entendia o que se passara naquela sala, pouco antes de sua entrada ali, para buscar a mãe.
Seu tio Carlos, se já tivesse chegado, pois viria, estaria vaticinando alguma coisa, pois este era seu hábito: profetizar os dias a seguirem, ao ver algo insólito. Tudo parecia absurdo, aquele espetáculo caótico num chá beneficente causava um efeito devastador.
Parecia ter ocorrido um terremoto, literalmente, literalmente mesmo, porque Julião já havia morado por seis anos na Califórnia – onde fora realizar seu doutorado em Física quântica e chegara a trabalhar em San Francisco, ministrando aulas na Universidade Estadual. Pois bem, lá vivenciara quatro terremotos, um 4,3 um 5, 6, um 6,6 e um 6,9. Cada vez mais intensos! É no epicentro do terremoto que normalmente o grau de intensidade é mais elevado, e seus efeitos vão diminuindo à medida que se afasta dessa área. Não existe correlação direta entre magnitude e intensidade de um sismo. Um terremoto forte pode produzir intensidade baixa ou vice-versa.
Mas que importa agora toda essa minúcia, quem se interessa? O fato, o evento, o acontecido foi o aparente terremoto do salão de chá, provocado pelo exagero (ou o descontrole?) psicomotor da Senhora de Sant’Anna. Mas por que isto, por que? A senhora née Portonobre, do modo mais discreto imaginável, contou o incidente a seu filho, Julião. Este, mais que discreto, constrito, escutava o relato e olhava mesmerizado para Emma Louise.
Emma Louise, naquele momento, estava sentada numa das cadeiras austríacas que compunham o mobiliário da casa de chá. A cadeira estava ao lado da mesa do bufê – toda recoberta de veludo escarlate com galões dourados quais filigranas, e figuras de anjos barrocos distribuídos em cada ponto de saída dos laçarotes de lamê transparente.

Repentinamente, Emma Louise levantou-se da cadeira com uma graciosidade inimaginável, ficou de pé no assento, levantou a perna leve como uma pena e subiu à mesa, procurando meticulosamente o caminho entre os petiscos sem, de modo algum, molestá-los e montou em cima do dorso do arranjo de flores comprido, alto e belo, composto de orquídeas vermelhas e amarelas e encimado por uma espécie de floração conhecida em algumas paragens como “bastão do imperador” ou “cajado do papa”. São variedades da alpínia, que os ingleses denominem gingers: O seu aroma está nas folhas quando esfregadas, um aroma inesquecível. Sua pubescência é logo suplantada pelo vigor do seu crescimento, apresentando-se em conchas dispostas em cascatas como flores ou brácteas cor de cereja, macias, às vezes, em forma de cone. São tão fáceis de serem cultivadas! Apenas um pouco de umidade, e ambiência de sol e sombra parcial.
Por que me detenho na descrição dessas plantas? Porque elas são em tudo parecidas com Emma Louise. Ela não tem nada de rosa, nada de orquídea, nada de camélia, nada de angélica, nada de miosótis ou margarida, nada de violeta – flores comumente comparadas às mulheres ou as mulheres a elas.
Depois de galgar aquele amontoado de essências em forma de dragão, Emma Louise ficou quietinha, olhando as unhas nacaradas. Parecia o elemento conclusivo do suntuoso arranjo de flores, e em nada as molestou. Houve até quem começasse a bater palmas, pensando tratar-se de uma apresentação teatral.

Sobre a obra

...graciosidade inimaginável, ficou de pé no assento, levantou a perna leve como uma pena e subiu à mesa, procurando meticulosamente o caminho entre os petiscos sem, de modo algum, molestá-los e montou em cima do dorso do arranjo de flores comprido, alto e belo, composto de orquídeas vermelhas e amarelas e encimado por uma espécie de floração conhecida em algumas paragens como “bastão do imperador” ou “cajado do papa”.

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Lena Girard
 

Tuas descrições são maravilhosas! Fazes um retrato perfeito das coisas e pessoas que descreves. É como se eu estivesse diante da cena. Volto para o voto, menina. Beijos

Lena Girard · Belém, PA 27/8/2008 12:50
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Ecila Yleus
 

Sua forma de escrever é muito boa, concisa e abrangente.Descrições belíssimas, temos uma vontade de conecer mais de Ovídio por exemplo e poder enaltecer mais o lido com conhecimentos pararelos ,além de termos a necessidade de voltar ao texto para tirar dela mais coisas.

Ecila Yleus · Recife, PE 29/8/2008 00:57
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wam nick
 

Muito bem descritas suas cenas, numa proza bem conduzida e suave...Parabéns, Votado!

wam nick · Recife, PE 29/8/2008 13:00
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delen
 

Excelente texto , fiz uma ótima leitura , deixo aqui meu carinho e admiração. Votado. Bjs...

delen · Cotia, SP 30/8/2008 09:58
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

grandioso no sentido exato da palavra.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 30/8/2008 11:26
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Nic NIlson
 

Ufaaaaaaaaa!!! Q texto majestoso, bem escrito, bem contado... Numna linguagem extraordiriamente equilibrada, nao ficando nem no extremo dos arabescos e enm nos lampejos do comum... espetacular! Bravo! Aplausos de pé!

Nic NIlson · Campinas, SP 31/8/2008 09:58
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