Encruzilhada

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Peterso Rissatti · São Paulo, SP
23/6/2008 · 97 · 14
 

Se embrenhando nos becos, desgraçados, o menino corria, brincava. Sua bermuda amarela surrada, seus chinelos remendados não mostravam seu destino.

Baixou Oxalufã com as espadas de prata, com sua coroa de escuro e de vício
Baixou Cão-Xangô com seu machado de asa, com seu fogo brabo nas mãos de corisco


Em meio aos batuques do morro, no pandeiro e no atabaque, seu fado tilintou nos jogos de búzios. Mais que depressa as providências foram tomadas. Logo ele seria o rei daquele mundo cão que o rodeava. Acostumado aos tiroteios e aos corpos estirados pelo chão, ele não tinha para onde correr, vivia entre as corredeiras da chuva morro abaixo e os tiros morro acima, nas disputas de polícia, aprendia o que seria em pouco: reizinho nagô, com corpo fechado por babalaôs.

Ogunhê se plantou nas encruzilhadas, com todos os seus ferros, lanças e enxada
E Oxóssi com seu arco e flecha e seus galos e suas abelhas na beira da mata


Não media esforços, o menino, para subir. Já não era sem tempo, já não tinha por quê não: era o dono da boca, mandava e desmandava em seus súditos, dava conselhos ao povo que mal sabia ler e escrever, dos pais de família recebia tratamento especial, era bondoso com as crianças, impiedoso com os inimigos. E tinha inimigos, como os tinha, tantos que seus cães-de-guarda estavam sempre armados até os dentes. Um piscar dos olhos castanhos do garoto e estava armado o circo, com balas zunindo e estocando corpos do mal.

E Oxum trouxe a pedra e a água da cachoeira em seu coração de espinhos dourados
Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar e um batalhão de mil afogados


Seu coração também batia quando via a negra Alice, de ancas largas e sorriso farto como seus seios. Paixão de menino, de pequeno que tem nos lábios o gosto da vida adulta. E ela se ria do garoto; quando Iansã vinha em seus gritos e gargalhadas, de espada nas mãos e vermelho nos panos, deixava o garoto em polvorosa, olhos brilhando como o cano que trazia na cintura. O atabaque queimava-lhe os ouvidos e sentia pelo corpo os trancos do barra-vento.

Iansã trouxe as almas e os vendavais, adagas e ventos, trovões e punhais
Oxumaré largou suas cobras no chão, soltou suas tranças e quebrou o arco-íris


Num dia, lhe chamou seu pai-de-santo e profetizou: tua cobiça será teu fim e se não acalmar tua gana não dura mais do que poderia durar. Riu de seu babá, dizendo que não havia corpo mais fechado que o dele, se não pelos Orixás, pelos ferros quentes dos homens. Nesse dia deu uma grande festa, com cerveja e pinga da boa. Não deixou nada faltar para seu povo, o pequeno reizinho do morro esgarçava seu sorriso satisfeito para quem quisesse ver. E bebeu, e dançou e tocou pandeiro como se arpa fosse, o anjo. Porém, havia outros olhos sobre o peito magro e desnudo do guri.

Omolu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos, lançando a doença pra seus inimigos
E Nanã-Buruquê trouxe a chuva e a vassoura pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos


Ecoaram as gargalhadas na noite escura. Não se via o rosto da gargalhada, eram os Exus que gritavam ao menino o que lhe rondava. Ele se esgueirava nas lágrimas da noite, que tristonha molhava em gotas o rosto do menino. Há muito não sentia medo, pedia a Ogum que lhe guiasse o caminho, mas seu destino chispava nos tijolos em tiros raivosos. Irmãos, irmãs, irmãozinhos, por que me abandonaram?
Cem tiros, foi a contagem oficial. Cem projéteis dilaceraram o corpo, o rosto, os membros do menino. Nada que pudesse fazer, seus inimigos, a polícia, os falsos amigos, todos engatilhados e com uma mira certa: a carcaça suada do garoto que corria e fugia de seus fantasmas. Cada urro e cada grito animalesco quando a carne era navalhada pelos cartuchos maldosos, sangrando a dor de quem já havia conquistado seu mundo. Lembrou de Alice de Iansã, mulher feita, que lhe charmeava com seus balangandante corpo pelas ruelas do morro. Casa comigo? suplicou para ela, dias antes. Escancarando seus dentes brancos de marfim, ela brincava com os cabelos do menino e dizia ah, menino, não me provoque. Não teve tempo para provar à negra Alice do que era capaz, quem era o rei do morro. Destronado pelas matracas fumegantes do mal.
Treze anos de vida sem misericódia e a misericórdia no último tiro.


(Texto inspirado na música Tiro de Misericórdia, de João Bosco)

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Peterso Rissatti
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celina vasques
 

Excelente seu texto!

Inici sua votação!

Beijos

celina vasques · Manaus, AM 22/6/2008 18:43
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KARVEL
 

voto bom pra coisas boas.....beijo

KARVEL · São Paulo, SP 22/6/2008 20:34
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Clau Finamore
 

Oi, Peterso. Gostei muito do texto. Parabéns!
Um beijão, Claudia.

Clau Finamore · São Paulo, SP 22/6/2008 21:51
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Marcos Pontes
 

Bom tê-lo por aqui. E já chega arrebentando!

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 22/6/2008 23:34
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Diego Ponciano
 

ok!

Diego Ponciano · São Paulo, SP 23/6/2008 00:07
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Ari Donato
 

votado, amigo!

Ari Donato · Salvador, BA 23/6/2008 00:27
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Peterso Rissatti
 

Obrigado gente. Que recepção boa ao primeiro texto. Já tem um na fila, quem quiser dar uma olhada. Abraços!

Peterso Rissatti · São Paulo, SP 23/6/2008 01:45
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Falcão S.R
 

Obrigado pela colaboração que nos proporcionou o prazer de conhecer uma amostra de sua bela arte. Abraço e voto.

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 23/6/2008 03:08
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Silvia Magacho Demutti
 

Por um momento pensei que fosse Graciliano Ramos, ou quem sabe Aluísio Azevedo! Detonou Pet, PARABÉNS!
Meu voto é seu.
Bj. Sil.

Silvia Magacho Demutti · São Paulo, SP 23/6/2008 18:48
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Peterso Rissatti
 

Sil, minha linda.

Obrigado pelo voto. Logo, logo tem mais.

Beijão

Peterso Rissatti · São Paulo, SP 23/6/2008 19:45
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Peterso Rissatti
 

Obrigado minha gente, primeiro texto publicado a gente nunca esquece. A todos que votaram e principalmente a quem sempre vota em mim, sem medo, cegamente. Te amo...

Peterso Rissatti · São Paulo, SP 23/6/2008 22:55
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Hiru
 

(finalmente consegui rs)

esplêndido, simplesmente.
digno dos calafrios que senti...

parabéns e boa sorte, cabeça! \o/

Hiru · São Paulo, SP 23/6/2008 23:57
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Ilza M
 

Adorei. Votei. Beijo.

Ilza M · São Paulo, SP 24/6/2008 12:25
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AbraAo
 

Peterso,

Viajei. E adorei essa sincronia sincretizada entre os atos.
As forças e as armas dos orixás sendo postas como avisos prévios pelo reizinho ignorados.
De um lado o mal e do outro o bem. O amor lascivo na boca de uma Iansã que não teme brincadeira.
E esse reizinho dono de si e do morro é reizinho morto para outro reizinho ser posto.
tudo mesclado dentro de uma ficção que é bem a cara do realismo urbano das nossas podres ricas metrópoles.
Maravilho. Parabéns.


PS.: Não sei se conheço essa música do João Bosco, mas tenho uns discos dele aqui na casa, vou procurar. João Bosco é sempre uma boa dica, além de um bom gancho para uma inteligente narrativa.

AbraAo · Rio Branco, AC 28/6/2008 02:32
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