Enquanto meu pai não vem...
Fátima Venutti
Mais uma vez ele conferiu as horas em seu relógio: eram nove e meia da noite. Olhou para a fila e recontou, pela quarta vez, quantas crianças estavam à sua frente: sete. Mais uma vez ele prometeu a si mesmo: este será o último Natal que peço este presente.
Enquanto esperava, sua mente recapitulava a primeira vez, há cinco anos, quando resolvera entrar numa fila para ver o bom velhinho de perto e descobriu que tinha direito a fazer um pedido (caso tivesse sido um “bom meninoâ€). E como aquele momento era tão especial e, anual, sabia que não poderia desperdiçar com qualquer coisa ou bobagem. Foi então que resolvera pedir algo especial e que pudesse realmente transformar sua vida.
Em cinco anos seguidos este sempre fora o momento mais aguardado do ano. Já no final de novembro, começava a sua excitação. Percorria todos os shoppings e lojas do bairro a fim de conferir se o bom velhinho colocaria sua enorme cadeira e tapetes vermelhos para receber incansavelmente as crianças, ouvir e registrar seus pedidos de Natal. E qual Papai Noel não conhecia, ao longo destes cinco anos, aquele menino que quase diariamente passava longas horas da tarde a enfrentar filas para ver e conversar com o “barbudo�
A persistência para com o seu desejo o mantinha ali, atento, como um cobrador de seus direitos, afinal, se havia sido um bom menino, estudioso e educado (como lhe fora imposto em sua primeira vez), nada mais justo que ter seu pedido atendido. E há muito tempo ele cobrava. Alguns, conseqüentemente, o reconheciam a esperar na fila. Já sabiam o que aquele menino minguado, de canelas finas e olhar curioso iria pedir. Outros, ao vê-lo, torciam para que o pedido fosse outro, quem sabe já havia sido atendido no ano anterior... E outros mais “bons velhinhos†de primeira viagem, surpreendiam-se com seus motivos para estar ali.
Eram 9h 40min e ainda estavam três crianças à sua frente. Ele mantinha sua esperança acesa. Para o dia seguinte, depois da aula, já tinha seu roteiro traçado em sua mente. Quais lojas iria percorrer e, quem sabe, aquela enorme recém inaugurada de departamentos... Quem sabe, se não for esse bom velhinho, a poucos passos de si, talvez possa ser o que vai encontrar amanhã, ou depois de amanhã. Não importava mais, pois já havia decidido que aquele era o último Natal em que iria fazer essa peregrinação..
Agora, poucos metros o separavam daquele Papai Noel. Sabia, que por ser a última criança a ser atendida, como brinde poderia conversar um pouco mais e quem sabe, convencê-lo então... Aquele “friozinho†na barriga o acompanhava desde sua primeira fila. Sempre ao se aproximar, a esperança de ser atendido vinha em forma de rodopios e calafrios pelo corpo. E agora, era a sua vez.
Como de costume, aquele velhinho deu seu mais cansado “Ho Ho Ho Ho†e fez sua pergunta fatÃdica: - E então, o meu garoto foi bonzinho este ano?. Pausa para um balançar positivamente a cabeça. E em seguida, veio a grande pergunta: - O que você gostaria de ganhar de Papai Noel então?
Ah! Quantas vezes ele respondera essa pergunta só neste ano? E quantas no ano passado, no anterior e no anterior, e desde o primeiro? Mas sua resposta, sempre, também causava espanto ao olhar amiúde de todos os “bons velhinhosâ€, não diferente deste, em cujo colo ele sentou e respondeu firmemente: - Quero conhecer o meu pai!
Algumas luzes, de algumas lojas do shopping foram se apagando e Paulo se manteve sem resposta, sem ação diante daquele pedido. Ele olhou para o grande relógio central da Praça e os ponteiros informavam: 9h e 50min. Ele poderia ficar um pouco mais com aquele menino, afinal, era seu primeiro ano como Papai Noel e desde o primeiro dia, só o que ouvia eram pedidos de bicicletas, videogames, bonecas maiores que suas futuras donas, carrinhos de controle-remoto, mas o paradeiro de um pai, isso ele ainda não tinha ouvido.
Então, ele se recostou confortavelmente naquela enorme poltrona vermelha, acomodou em suas pernas aquele menino, acarinhou sua face e perguntou: - Como é seu nome?. E o garoto respondeu: Gabriel. -E quantos anos você tem?. – Vou fazer doze o mês que vem.
- Então, Gabriel, me diga o porquê de você querer conhecer o seu pai.
Mais uma vez, calmamente Gabriel relatou: minha mãe morava com meus avós num sÃtio, numa cidade do interior de São Paulo. Meus avós não eram os proprietários, só cuidavam. Uma vez, os filhos dos donos vieram passar um final de semana e minha mãe organizava a casa pra eles. Havia um moço muito bonito, jovem, de cabelos grossos e escuros. Minha mãe se apaixonou por ele, namoraram escondidoS naqueles dias e tempos depois eu nasci. Minha mãe sempre me disse que decidiu não contar a meu pai que estava grávida para não prejudicar meus avós. Eles tinham muito receio de serem mandados embora do sÃtio. Depois de algum tempo, minha mãe resolveu vir trabalhar em São Paulo. Dizia que queria ter uma vida melhor que a que tÃnhamos no sÃtio. Mas o que eu mais desejo, e isso Papai Noel deve saber bem, afinal quantas e quantas vezes já ouviu este meu pedido, não? Meu único desejo é conhecer meu pai.
Paulo não conseguiu conter sua emoção. As lágrimas começaram a driblar sua face e como esconder seus sentimentos por baixo daquela maquiagem, daquela barba branca e postiça...
Enquanto ouvia Gabriel, sua mente viajou com ele para aquele sÃtio. Lembrou de sua adolescência e dos amigos da vizinhança com quem costumava farrear. Percorria a face daquele menino a procura de um sinal, pois já havia vivido uma história parecida.
Olhou novamente o grande relógio da praça: 22 horas. Era hora de desarmar o circo. De voltar à sua realidade, de vestir a sua fantasia de homem cansado, com fome, carente...
Foi então que Gabriel o trouxe à realidade: - E então Papai Noel, vai realizar o meu pedido?
Paulo olhou novamente para aquele cenário, fitou os olhos de Gabriel e perguntou: - Está com fome?. E o menino respondeu: -Claro, hoje estive em três lojas e nem tive tempo de comer. Paulo respirou fundo, levantou Gabriel de seu colo e o colocou no chão. Levantou-se, estendeu sua mão enorme e quente pelas luvas brancas e disse: - então vamos comer, vamos conversar e você me conta melhor a sua história. Depois, você poderá ir para sua casa, descansar. O menino viu uma luz que jamais havia visto nos olhos daquele homem. Novamente o burburinho da emoção rodopiou seu corpo e repetiu na mente a sua promessa: este vai ser o último ano que faço este pedido...â€
"Enquanto Meu Pai Não Vem..." faz parte da obra Histórias de Natal- contos e Crônicas, lançado pela Sociedade Escritores de Blumenau- SEB em 2007. Obra belÃssima que resgata histórias reais e de ficção de escritores da entidade.
Uma overdose de emoção !
Lindo e na época certa.
abrindo a votação
Certos pedidos são atendidos ou não:
depende do Papai Noel !
Um beijo !
Fátima, que riqueza de sensibilidade e emoção neste texto doce que prende o leitor numa viagem linda! Comovente o pedido dessa criança e me lembrou de imediato uma reportagem da tv globo (nesses dias em que muitas histórias belas são contadas) em que um menino pedia ao Papai Noel que sua famÃlia pudesse ter uma cesta de natal para comer!!
Sublime! Adorei1 Parabéns!
Beijos,
Muito lindo e emotivo,Fátima...Quantas pessoas, crianças, adultos ficam na vida buscando a realização de um sonho....E é importante o sonho, ele acalenta a vida, à s vezes tão dura e difÃcil que a pessoa tem. Parabéns pelo texto.gostei muito Bjs Ah visite m/ texto "O Meu Natal",penso que vai gostar.....Já que estamos no "Clima", né...Até mais...Langinha...
Langinha · São Paulo, SP 11/12/2008 19:45
poema sensÃvel e prazeroso de ler, ótimo trabalho.
votado.
Fantástico conto amiga. Comovente ao expor os sentimentos tão carentes da pequena criança. E que belo desfecho!!!
Luz e Paz. Sempre. jbconrado.
lindo fátima...
beijos
conto comovente, narrativa com grau potenciadp pela proximidade do dia magno do Natal. Finda a leitura, ficou o órfão no meu pensamento, outros por motivos diferentes, as crianças da catástrofes de S.C. cujas cidades como de Blumenau. Brusque, Pomerode, Gaspar, Ijajai e Navegantes, lugares onde tenho muitos amigos, e alguns estão sofrendo com as perdas. Desculpe-me poetisa ocupar o teu espaço, mas fui levado pela emoção.
meu voto - um beijo e fraterno abraço de Boas Festas.
http://www.overmundo.com.br/banco/menino-rei-uma-poesia-de-natal
Eu lhe desejo um feliz Natal de Jesus Cristo. Enquanto meu pai não vem, esse pai que é Jesus, que já está presente para nos levar ao seu Pai, e nosso.
Enquanto não vem, lemos um lindo texto...
Juscelino Mendes · Campinas, SP 11/12/2008 22:39
Bom texto, daqueles que nos levam até o final na esperança do milagre natalino.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 12/12/2008 00:12
Fátima,
Belo e comovente conto de natal.
Beijos
Beleza de resgate Fátima! Và uma história dessa recentemente. Real! Doeu o meu coração emocional! São as facetas da vida! Bela narrativa! Um FELIZ NATAL!!!
raphaelreys · Montes Claros, MG 12/12/2008 06:25
É a vida tem dessas coisas, por incrÃvel que pareça até corriqueiras.
Realidades doÃdas, sofridas. Realidades enfim
Do mei para o fim, no conto, ficamos torcendo para o menininho achar o pai, e se o papai noel fosse o jovem que teve uma aventura em um sÃtio no interior...
Bjinho
oi.
vc conhece o bar do escritor em www.bardoescritor.net ?
Fátima Venutti,
vou te dizer uma coisa em minha fé pagã,
me emocionei com teu texto
obrigado por tê-lo escrito,
beijo,
Fatima,
lindo texto
a esperança nunca morre
bjs
OI FATIMA.
COMO SEMPRE SEUS CONTOS CONTAGIAM.
E NESTA ÉPOCA NATALINA QUE Jà ESTAMOS MAIS SENSIVEIS ESTE CONTO CALOU FUNDO.
UM ABRAÇÃO E UM FELÃZ NATAL.
E QUE OS GABRIÉIS DA VIDA ENCONTREM O PAPAI NOEL CERTO.
Eae Fátima, na pazzz??
Muito bom texto! SensÃvel e apropriado para a época! Parabéns!!
Volto na próxima fila!
Abração e ótimo final de semana!
Fátima,minha querida!!!
Um belo conto de Natal, muito delicado
e narrativa envolvente!!
Parabéns!
um beijo azul
Blue
Beleza as estórias sobre papai Noel sempre nos traz muitas lembraças gostosas do tempo de criança. Meus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Magno.
Muita beleza e sensibilidade no
seu poema.Gostei muito!
Parabéns. Votando.
Beijos
Tão lindo!! Tão comovente!!Mas tão real!
Beijos
fátima: gostaria que visitasse m/ novo texto em votação."Dentro de mim mora um anjo"...Acredito que irá gostar. Bjs langinha.
Langinha · São Paulo, SP 17/12/2008 20:19
Fátima Venutti · Blumenau (SC)
Enquanto meu pai não vem...
Ficou muito bom. Vocé caprichou no uso do poder da esxpressáo.
Inspiracáo divina.
Parabéns pelo contyo agradável e espirituoso.
Abracáo Amigo
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!