"Eu voltei, voltei para ficar" canta a torcida do timão. Por que timão? Pergunte a dez corintianos por que seu time é assim chamado e certamente onze deles responderão que isso é o aumentativo da palavra time.
Na verdade, o símbolo do clube, composto de objetos náuticos (corda, bóia, âncora e remos), forma um timão, instrumento com que se acerta o rumo de uma embarcação. Alguém deve ter feito um trocadilho com o nome daquele símbolo e o apelido ficou. Não me consta que o pintor Francisco Rebolo, autor do desenho e campeão pelo clube em 1922, tivesse tido tal intenção.
Outro fato: meu filho era ainda um garoto. Fomos passar umas férias na Bahia e ele levou um blusão que havia ganho de uma tia que a havia trazido dos Estados Unidos, tendo a tal blusa no peito o nome de uma universidade de lá. Estávamos em Porto Seguro e fomos tomar um sorvete num daqueles quiosques, num tempo em que aquilo era visitável, não sei como estará hoje, ele com sua blusa predileta. Estavam por ali uns dois ou três garotinhos que se puseram a apontar o Alexandre e rir muito, talvez por ser ele tão loiro, diante de tantos mulatos, ou tão alto, diante daqueles tocos de gente. Em seguida os mesmos moleques passaram a tratá-lo com imprecações como “bobo”, “tonto”, “besta” e que tais, para espanto nosso. Indaguei dele se havia provocado os meninos, obtendo resposta negativa. Interpelei então um dos garotos, que, rindo muito, me apontou o que estava escrito na camisa do meu filho: Michigan. Que os garotos, tal como tantos leitores afoitos que existem por aí, leram “mixinga”! Acredite que foi.
Isso me lembra um velho ditado: prefiro conversar com um analfabeto do que com alguém que lê pouco. Ou, como diziam os mais antigos: Timeo hominem unius libri.
Morro de medo de quem só leu um livro na vida.
Quantas vezes você puxa um assunto e descobre que as pessoas à sua volta ignoram por completo aquilo. Ou têm do assunto uma idéia pouco clara. Mas acham que estão em condições de pontificar sobre o assunto, o que é pior. Não estou censurando os ignorantes, pois eu também ignoro tudo o que não conheço. A questão está no comportamento: ninguém jamais conhecerá absolutamente tudo. Logo, sempre há o que aprender. Um pouco de modéstia sempre vai bem.
Se você falar mal do governo de Israel, por exemplo, censurando seu Primeiro Ministro, pelo modo lamentável como cuida de certos problemas com países vizinhos, na certa encontrará pessoas que verão nisso aversão ao povo judaico. Ironicamente, a atual Ministra das Relações Exteriores e futura Primeira Ministra disse do demissionário Primeiro Ministro exatamente o que certo articulista havia dito e lhe caiu o céu, não sobre a dela, mas sobre a inocente cabeça dele.
Jamais neguei a existência de algum fato histórico. Muito ao contrário, o que eu havia dito é que o holocausto, isso é, a destruição de pessoas pelo fogo, não começou nos campos de concentração nazistas, como algumas pessoas querem fazer crer. No Velho Testamento já se fala nisso, tanto que o dicionário de Webster o define como “an offering the whole of which is burned; complete destruction of people or animals by fire”. Menos não diz o dicionário de Larousse: "chez les Hébreux, sacrifice dans lequel la victime était entièrement brûlée". Ou seja, um sacrifício de pessoas ou animais, que são inteiramente queimados, tal como praticavam os hebreus, eis o que nos ensinam aqueles respeitáveis dicionários.
Faço essa ressalva porque, se eu mencionar o símbolo da cruz, lá vem o meu interlocutor a lembrar Jesus de Nazaré, por motivos que me dispenso de recordar. Ocorre que antes dele e depois dele muita gente morreu crucificada, constando que um deles foi seu discípulo Simão Barjonas, o popular Pedro, que, aliás, teria esnobado: “Eu não sou digno de uma morte igual à do meu Mestre. Vire essa cruz de cabeça para baixo!” E foi atendido.
Pois sinto despontá-lo para dizer que a cruz sempre foi símbolo da vida, e não da morte. Veja uma roda de charrete ou de carroça. Se não dá para encontrar esses veículos hoje em dia, veja a da sua motocicleta. Você não tem uma? Então vá à rua Boa Vista, no centro de São Paulo, que ali há centenas delas estacionadas. Ela, falo da roda da motocicleta, é formada de um círculo, que se liga ao centro por alguns raios. Pois a cruz é formada de quatro raios que, saindo do centro, terminam na periferia de uma roda. A significar que esses raios indicam o movimento da roda, que, aliás, quando ocorre, faz a cruz desaparecer.
Pior ainda se eu me meter a falar de outro símbolo. Dentre todos os vários modelos de cruz, há a cruz gamada ou suástica, que tem como característica os braços dobrados para trás, exatamente para indicar o movimento. Esse movimento tanto pode ser para a frente, quando ela se diz destrógira, como para trás, no sentido anti-horário, chamando-se então sinistrógira.
Um homem de poucos livros imaginará que leva esse nome porque dá azar ou mete medo, referência ao nazismo. Nada disso. Sinistrus era o designativo do lado esquerdo em latim. A associação entre o canhoto e o diabo, fruto da superstição, acabou dando uma conotação negativa à palavra sinistro, o que levou muita criança a apanhar na infância por recusar-se a escrever com a mão direita. Verdade que muitos artistas são canhotos e ser artista sempre foi sinônimo de vida devassa. Daí, todo cuidado é pouco. Ou você pensava que intolerância e estupidez fossem coisa dos dias presentes?
Ela, a cruz, aparece na civilização asteca tanto quanto na civilização grega, sendo símbolo religioso entre os budistas e os hindus. Para não irmos tão longe, há na cidade de Cotia, São Paulo, um belo templo budista, que vale a pena ser conhecido. Não apenas para vermos tantos turistas acenderem vela e rezarem para seus santos de devoção, coisa que faz o Buda de pedra lá de dentro manter aquele riso eterno no rosto, como para ter contato com belas peças artísticas que ali são expostas. Em uma delas há a tão assustadora figura da cruz suástica, que escandalizou alguém a meu lado.
Um estudioso nos diz que fazendeiros do Tibé colocam a suástica na porta de casa, para que o mal ali não entre, como fazem muitos cristãos com o crucifixo. O mesmo ocorre em alguns lugares da Irlanda, sendo ela ali chamada de Brigit’s cross, por motivo que desconheço. No Panamá, índios que nunca ouviram falar em Hitler usam a cruz na sua vestimenta. Curandeiros navajos desenham a suástica no chão enquanto fazem seus ritos curativos. Esse autor chega a dizer que a cruz suástica deveria ser considerada “the symbol of the century”.
Esse autor, Servando González, anota que nos principias museus que percorreu, seja em Zurique, Moscou, Londres, México ou Nova Iorque, ele sempre ali encontrou objetos contendo aquela cruz. O museu de arte da Filadélfia tem na entrada um friso com aquelas cruzes formando um arabesco igual ao que se vê no rodoteto do salão nobre do Tribunal de Justiça de São Paulo, em cujas paredes também existe o faccio romano. Lá estão símbolos do nazismo e do fascismo numa mesma sala. Coincidência?
Se você acessar a internet, encontrará inúmeros sites sobre o tema, um dos quais sendo o de um norte-americano que cultua a cruz suástica e difunde o conhecimento de ser ela, na verdade, símbolo da felicidade. Ele tem cruzes e mais cruzes tatuadas pelo corpo todo, o que, certamente, não lhe permitirá visitar certos locais onde será mal interpretado. Ou linchado.
Em suma, um símbolo não tem vida própria. Ele depende da interpretação de quem se disponha a decifrá-lo. E na execução desse trabalho estará presente a cultura ou a ignorância do intérprete, sua boa-fé ou sua malícia. Sua história pessoal, enfim. Exemplo: um juiz, de origem nipônica, foi nomeado para a comarca de Flórida Paulista, há muitos anos. Se a comarca não for essa é alguma por ali perto, na qual havia, acho que ainda há, uma enorme caixa d’água, na forma de um cogumelo. A avó do juiz, indo visitá-lo, ficou horrorizada, sem poder sair de casa. Aquele cogumelo, para ela, lembrava Hiroshima ou Nagasaki, onde ela havia morado em criança, e o presente que os norte-americanos enviaram ao povo dessas cidades, lá vão uns 60 anos, um deles carinhosamente chamado de Little Boy.
Luis Fernando Veríssimo, no livro O Mundo é Bárbaro, Editora Objetiva, 2008, página 126, ao referir-se à confusão que muitas pessoas fazem entre o comportamento de “uma nação inteira e os desmandos de quem seqüestrou momentaneamente sua história”, escreve o seguinte:
“Hoje um crítico do nazismo se arriscaria a ser chamado de anti-alemão, como um crítico de Sharon e da extrema direita israelense se arriscaria a ser chamado de anti-semita, e qualquer crítico da política do Bush e seus neoconservadores é tachado de anti-americano.”
Positivamente, o escritor gaúcho sabe das coisas.
você também sabe das coisas,meu bom Suannes. Parabens pela resenha crítica. Abraços, Graça Graúna
graça grauna · Recife, PE 26/10/2008 05:51
suannes
excelente artigo.
e uma (entre várias) grande premissa.
prefiro conversar com um analfabeto do que com alguém que lê pouco.
um abraço
Lhe diria ainda mais, Adauto, fui durante muito templo estudante de Teosofia e me lembro que a própria Helena Blavatsky também "utilizava" a suástica, não me recordo agora em qual sentido...
Aprendi na Sociedade Brasileira de Eubiose que esses movimentos
poderiam ser interpretados como construens ou destruens em termos evolutivos, assim como tantas outras diferentes interpretações !
Meu caro, trata-se,obviamente,de mais um daqueles episódios de dar pérolas aos porcos,ou ainda, mui pretensiosamente ousarmos plagiar:
"-Perdoe-os, Pai, eles não sabem o que fazem (ou dizem, né ? )!"
Finalizando:
Poder absoluto, corrompe absolutamente;
Ignorância, também !
Um forte abraço, obrigado pelo convite !
PS:
Minha consideração por sua pessoa ficou um tanto quanto fragilizada por sua dispensável menção ao timão ( sic),visto que sou santista,porém, como sofro desse mal em casa, meu filho Daniel é um corinthiano roxo, apenas manifesto o meu desagrado pelo infeliz comentário,num artigo que tinha tudo pra ser considerado sério...
ahahahahahahahah
Suannes, seus postados sempre uma aula magistral.Lembro-me na escola, no ginásio eu desenhei a suástica e fui retirada da aula quando eu apresentava minha lição de casa, mas era pura brincadeira, sem maldade, como mais ou menos no mesmo ano, lá por 69 eu disse:Viva Che! e a professora me deu um sermão:que uma moça não podia se comportar assim, bla, bla, bla e levei dois dias de descanso, pois eu disse a ela que Cuba existia e não via nada de mal dizer...
Acredito que qualquer cruz seja símbolo da vida, nunca a morte, e suas observações são importantes, sem me aprofundar acho mais poderoso em ver a morte num tridente, assim morte...
Mas fiquei pasma em saber que Francisco Rebolo , do Grupo Santa Helenafez o desenho do Corinthians ...não sabia disso...
Explorei tudo aqui...Parabéns.
Inegável que os símbolos não têm vida própria e sim a que lhes emprestam os grupos humanos, com vida e objetivos próprios, caro Suanes.
Inegável que fogo, suástica e mesmo a música de Wagner foram utilizados pelos propagandistas de Hitler dirigidos por Goebels para fazer crescer a aceitação, pela emoção, do nazismo.
O nazismo usou o fogo à noite também para aproximar de si.
Para afastar de si, comunistas, judeus, desafetos outros, usou as câmaras de gás e balas de fuzil mesmo, além de alguns fornos.
Os palestinos podem depor melhor sobre o que fazem seus vizinhos implantados na terra encontrada pela ONU.
Há muita informação sobre isso na web.
É bom o corintiano ter o time dele de retorno à primeira divisão. O ruim é se a máfia do futebol continuar ali e noutros tantos times a orientar resultados conforme o interesse dos patrocinadores, sejam os comerciantes mundializados de artigos esportivos, sejam os comerciantes de atletas, esses cada vez mais em tenra idade.
Sempre um bom texto, a tua contribuição: instigante como deve ser a arte, a provocar inclusive o estranhamento, uma das primeiras noções que aprendi do que deva ser alguma ação culturalmente importante.
Grato pelo convite.
A ignorância é divertida, a nossa e a alheia, mas a burrice é irritante.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 27/10/2008 10:19
Circus do Suannes · São Paulo (SP)
Entre a ignorância e a má-fé
Um Trabalho muito especial do tipo uma aula inaugural, que nos descortina um Horizonte imenso pela frente e, nos prenuncia que será valoroso, valendo a pena percorrer e aprimorar tudo o que se puder fazer para ampliar a abrangáncia.
Parabéns pelo Trabalho.
Abracáo Fraterno.
Mestre, tudo na vida é relativo. Conheço uma advogada que já leu todos os livros do Paulo Coelho e quando puxa uma conversa, leva sempre em direção ao tal bruxo!
Eu já li um bocado, mas a minha memória está um fracasso! Até de fazer meus repentes eu deixei porque às vezes requisito a rima ao cérebro e ela não vem. As palavras me estão desaparecendo e isto é muito triste! Personagens de livros, também!
Outro dia meu filho do meio veio me perguntar se eu me lembrava de algum dos diálogos de Aliócha na obra "Os Irmaõs Karamozov".
- Não filho, nem sei mais quem foi este fdp!
Quando eu for a Sumpaulo lhe fazer uma visita conversarei pouco pra não passar vergonha!
Abraços do,
Desculpe, fazendo a correção: Os Irmaõs Karamazov!
Zé Preá · Recife, PE 27/10/2008 20:34Concordo com ALCANU. Que desfeita falar do "timão" em conversa séria. Desrespeito pelos xobrinhos palmerenses(coitados!!).De fato, os simbolos dependem de interpretação particular ou de um povo. As nossas baianas usam( e sempre usaram) as figas. Vá para a Itália com uma pendurada no pescoço.....Lila Su
Lila Su · São Paulo, SP 27/10/2008 21:01
O texto faz pensar sobre a cultura como um valor "sofisticado" na sociedade de consumo . Saber ou parecer saber .... qual o valor ?
Há valor no saber vaidoso ?
Ou vale quem sabe que seu saber só vale se compartilhado ??
Muito bom !
Gostei bastante. Achei até divertido, apesar de o assunto ser sério. Votado.
Eduardo de Oliveira · Teresina, PI 28/10/2008 10:44
Publicado, apesar desse negócio de futebol, um forte abraço, o importante é ter saúde, né ?
um abraço!
Mestre. Gostei do texto. Sobre os símbolos, acho que está certo, cada um interpreta os símbolos a sua maneira. Uns usam pra dar sorte como amuleto, um breve, um escapulário ou uma cruz. Eu, por via das dúvidas, carrego no pescoço, por debaixo da roupa, uma cruz de Lorena, é uma cópia daquela existente em São Miguel, feita de madeira colhida em São Luiz Gonsaga, cidade antiga dos missioneiros. Essa cruz tem dois braços, o mais curto fica em cima do outro, dizem que é onde foi colocada a inscrição feita pelos soldados romanos na cruz de Cristo. Eu trouxe mais duas lá daquela região e dei essas pros amigos. Uma foi pro nosso amigo Cleanto, mas ele já andou perdendo num dia que foi tomar banho pelado no rio Turvo que passa aqui por perto. Mas buenas, quase me esqueço do voto. Pois meu voto é teu. Acho que vai ajudar na soma.
Um abraço.
Isso de cruz é complicado. Não houve aquele oficial de justiça que, numa execução contra o padre, declarou ter penhorado um crucifixo marca INRI?
Circus do Suannes · São Paulo, SP 28/10/2008 16:54
Um professor de latim, muito bom, por sinal, que fazia as aulas não
serem chatas nem pesadas, disse certa vez, a respeito da turma:
"Vocês fedem a ignorância por todos os poros".
Já o mestre Adauto, espalha mais e mais cultura sempre que escreve e
publica algum texto.
Bem no início do site, lê-se "Banco de Cultura".
Cruz, credo! Esse amigo de todos nós já de per si é um banco de
cultura.
Voto, com a condição que volte sempre.
Francimar.
A suástica é um símbolo sagrado Hindu, que foi invertido por Hitler - o que, dizem causou sua desgraça...
Mamãe falou do significado da figa aqui e na Itália... Oras, todos sabemos como os americanos fazem o "ok" com os dedos e o que isso significa no Brasil...
Enfim, símbolos, assim como outras verdades, têm significados diferentes dependendo de quem, quando, onde e como são feitos...
beijocas
Circus do Suannes · São Paulo (SP)
Entre a ignorância e a má-fé
Com carinho de volta exaltando o seu trabalho, agradecendo sua colaboracáo e deixando uma saudacáo Amiga.
Parabéns pelo mérito.
Um texto como este deveria permanecer sempre na primeira página do overmundo. Interessante é que quando se escuta uma aula dessas na faculdade, tem gente que acha que o professor é um anti qualquer coisa também. Parabéns!
Regina - poesia em volta · Volta Redonda, RJ 29/10/2008 08:50
Suanes.
Magnifico texto, temperado com sabedoria e cultura.
Abraços
Noélio
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