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Entre o justo e o injusto

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Circus do Suannes · São Paulo, SP
18/10/2008 · 131 · 18
 

Você é desses que perde tempo vendo jogo de futebol? Pior: vendo mesas redondas na TV sobre o mesmo desagradável assunto?

Os nossos comentaristas esportivos vivem dizendo que o resultado do jogo de futebol foi justo. Ou então que foi injusto. É o caso de perguntar-lhes: que vocês entendem por justiça? Vocês se consideram pessoas justas? Por quê?

Na Bíblia, justo é o homem (sorry, senhoras, mas quem escreveu a Bíblia era machista) que faz a vontade de Deus, “que anda com Deus”, como se diz no Gênesis.

Lidando com essa palavra há mais de 50 anos, acho que tenho autoridade para dizer isto a eles: a Justiça, humanamente falando, não existe. Como? Vejamos.

Quando estávamos na Faculdade e os professores gostavam de esnobar-nos com citações latinas envolvendo Tício e Mévio, se dizia que a justiça consiste em “suum cuique tribuere”, isto é, “dar a cada um o que é seu”. Eis a contradição evidente: se já é meu, por que alguém haveria de dar-me? Não seria melhor dizer “assegurar a cada um aquilo que deve ser seu”? E como ficaria isso na língua do Calígula? Sei lá, meu latim foi-se com os meus cabelos pelo ralo do box do banheiro.

Na verdade, a palavra justiça apareceu quando os reis se elevaram, atrevidamente, à condição de representantes de Deus na Terra. Como não podiam usar a auréola própria dos santos, inventaram algo parecido: a coroa. Sendo deuses, ou quase isso, eles baixavam as leis, fiscalizavam o cumprimento das leis e puniam quem não cumpria as leis, o Montesquieu que não me venha censurar por dizer isso. Isto é, mandavam para o inferno, literalmente, quem não se curvasse diante de Deus, isto é, diante do rei. Até espalharam que não tinham sangue vermelho, como nós, os pobres mortais, pois tinham sangue azul. Da cor do céu, perceberam a sutileza? Romântico, não? O problema é que o rei Henrique VIII gostava de trocar de esposa como quem muda de camisola em time de futebol português. Ocorre que o Papa não consentia nisso, o que levava o rei inglês a resolver a questão de um modo bastante prático: acusava a esposa de algum crime grave e passava a condenada pelo fio da espada. Hoje Ana Bolena, amanhã a Catarina Howard e vamos que vamos. Quem prestasse atenção nessas execuções, porém, descobriria que o sangue da executada não era azul coisa nenhuma. Mas vá dizer isso em público! “Sempre cabe mais um”, diria Sua Majestade, referindo-se menos ao sabonete e mais ao patíbulo.

Repare que os juízes têm, no fundo, uma pose real. Nem poderia ser de outro jeito. O fórum se chama Palácio da Justiça, a roupa que eles usam mais parece uma batina e a padroeira deles é Têmis, também chamada Justitia, uma deusa cega. Não é de admirar que eles se considerem em condições de fazer aquilo que é atributo de Deus e dos reis: julgar. Lembre-se do Julgamento Final, quando o verdadeiro Juiz vai separar o joio do trigo, como se diz na Bíblia. Algum de nós acaso já viu esse tal de joio algum dia? Pois então. Isto quer dizer que, para fazer justiça, só tendo os atributos de Deus, coisa que nenhum de nós tem, por mais que tentemos e por mais complicada que seja a redação das sentenças dos juízes. Aliás, dizem que a diferença entre Deus e um desembargador é que Deus tem a certeza absoluta de que não é desembargador.

Não era a Clarice Linspector, aquela carrancuda escritora russo/alagoano/carioca quem dizia que amar a Deus é amar tudo o que Ele fez? Se eu não amo o repugnante rato de esgoto, como posso dizer que amo Quem o criou? indagava ela. Cartas para a redação.

Na realidade, a atividade do juiz não tem nada a ver com a justiça divina, até porque se Deus for realmente justo, quem se salva? como escrevi outro dia. Ao juiz cabe apenas resolver conflitos entre pessoas, em torno dos chamados “bens da vida”. Aquilo que o Candinho diz que se chama lide, caracterizada por um conflito de interesses. Pense na relação entre o dono da casa e o seu inquilino, dizia eu a meus alunos, já lá vão lustros a perder de vista. Qual o bem da vida para o inquilino? “A casa, onde ele abrigará a si e a sua família” respondia a classe em uníssono. Isto é, todos eles com o mesmo sono. E para o dono? “O dinheiro do aluguel” bocejavam eles. Logo, se o dono quer aumentar o valor do aluguel, ou se o inquilino não paga o aluguel, virá o juiz e tentará resolver aquele conflito. Era o que eu dizia em complemento. E aditava, todo otimista: tão melhor juiz será ele quanto mais depressa desatar aquele nó, mesmo porque, quem perder a causa jamais se conformará com isso. Ou vocês acham que quem perde a causa vai dizer que o juiz foi justo? E tanto ele não é Deus nem aquilo merece o nome de justiça que de sua decisão cabe recurso, coisa que lá em cima não vai haver, segundo me dizem uns padres que eu consulto vez ou outra, por via das dúvidas.

Voltando ao futebol: meu caro Juca, para se dizer que algo é justo ou é injusto, temos de ter em mente qual é o padrão da medida. Se alguém vem à minha lojinha de tecido comprar um metro de gabardine, eu, antes de mais nada, pego esse tal padrão, que se chama régua. Régua e regra provêm da mesma regula latina, que se pronunciava régula. Se eu coloco a tal régua, que tem um metro exato, sobre o tecido, eu saberei onde está o um metro justo que a minha freguesa quer comprar. Se em minha quitanda alguém quer um quilo de beterrabas, eu vou colocando as beterrabas naquele prato da direita até que os dois pratos fiquem equilibrados, pois no prato da esquerda está o padrão. “Um quilo justo, freguesa”, digo eu todo pimpão.

Ora, no futebol, qual é a regra? É, salvo erro meu, esta: ganha o jogo quem fizer mais gols. Como não há regra alguma a dizer que o vencedor será aquele que jogar melhor, perder ou ganhar não tem nada a ver com o padrão fixado para isso. Logo, como falar em justo ou injusto, Zé Trajano?

Injusto, meu caro Juca, talvez seja o resultado de um concurso de Miss. Aí, segundo a regra, vencerá quem for a mais bonita e não aquela feiosa que conseguiu conquistar a simpatia dos jurados utilizando outros de seus inúmeros predicados. Ou, vindo mais ao chão, injusto é nomear-se juiz para algum Tribunal Superior algum político que sabidamente jamais poderia ser considerado alguém com “notável saber jurídico”, até porque notável quer dizer “aquilo que dá para notar”, o que geralmente será reconhecido pelas obras e obras publicadas pelo candidato. Esse é o padrão. Deu pra entender, ou quer que eu diga nomes?

E se algum desses comentaristas esportivos disser que esta crônica o deixou com a moral baixa, como eles dizem de jogadores que erram cobrança de pênalti, eu lhes direi que a moral não tem nada a ver com isso. Perder pênalti talvez abale o moral do jogador, palavra masculina que significa ânimo, brio, vergonha.

Crônica esta, aliás, com algumas alternâncias, e não cheia de alternativas, como aqueles mesmos comentaristas se referem a alguns jogos que transmitem e no qual ora o time de cá está mais perto de marcar um gol, ora o time de lá é que está. Tudo dependendo da categoria dos jogadores e, em conseqüência, aí sim, das alternativas à disposição dos técnicos.

Entendeu, Carlos Caetano Bledorn Verri?

Aliás, achas justo que continuem a te chamar de Dunga, nome de um anãozinho bobalhão daqueles, que nem bater pênalti batia?







Sobre a obra

Esta divagação filosófico/jurídico/futebolística é uma homenagem ao Cândido Rangel Dinamarco, um dos mais conceituados processualistas brasileiros, que certamente se esqueceu dos tempos em que, sendo apenas o Candinho, sentava-se a meu lado na fila do gargarejo, atrasando nós ambos a saída dos furiosos colegas para o recreio, após o respectivo sinal, com as perguntas que fazíamos ao nosso querido mestre Luis Eulálio de Bueno Vidigal, com quem o mesmo Dinamarco veio a ombrear.

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clara arruda
 

Lendo e relendo.Volto depois.
Beijo em seu coração.
Por favor não seja meu juiz rsrsrs

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2008 13:43
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celina vasques
 

Adorei teu texto querido juiz/poeta!
Quero te dizer que sabes melhor que ninguém que julgar algo ou alguém é muito dificil!!!
Quem somos nós pobres mortais a julgar coisas que nós mesmos somos capazes de fazer??? (dependendo das circunstancias)
De qualquer modo o Dunga realmente deveria trocar de NOME(rsrsrsrsr) mas eu acho que é porque é muito parecido com aquele dito anão da Branca de Neve!

beijo no teu coração lindo e gene
roso!

Beijo no teu coração!

celina vasques · Manaus, AM 16/10/2008 19:06
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victorvapf
 

Nao e atoa que o a venda nos olhos da "justica" e' mais para nao ver as bobagens que sao decididas... Os momentos de interesse e' que ditam as normas em tudo aqui nesta terra descoberta por Cabral (sera que foi?) Abracos e parabens pelas provocacoes no seu texto que dao motivos a mil e um comentarios...

victorvapf · Belo Horizonte, MG 16/10/2008 20:06
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Marcos Pontes
 

Já disse numa roda de juízes e nenhum negou: "existe uma grande diferença entre justiça e verdade". E há. Não precisaríamos de advogados, mas de volta o estado teocrático com os mais ilibados padres para nos julgar, mesmo que para isso usassem o poder divino a eles incubido, ou seja, por mais perto de Deus quiséssemos chegar para julgar, ainda assim estaríamos diante de mentirosos. Tem jeito, não, seu moço, justiça é como igualdade e independência, tudo mentirinha.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 16/10/2008 21:23
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Saramar
 

Você é excepcional. Mas a sutileza (em meio à mensagens diretas) deste texto é prova de que se supera sempre (ai, ai, eu já repeti isso umas 30 vezes).

Sempre fico pensando no papel dos juízes, ainda mais agora que há uns meninos mal saídos da adolescência já querendo exercer esta atribuição que tem cheiro de deuses.

Nesse sentido, imagino que juízes deveriam ser pessoas com mais de meio século de vida, principalmente nesta época em que a sociedade muda da noite para o dia. Acredito que só assim, a pessoa teria conhecimento suficiente para se arvorar em julgador, figura essencial para manutenção dos grupos humanos (grupos???).

Acredito na experiência, nos olhos que muito já olharam e enxergaram e que, talvez, sejam capazes de aplicar a lei com mais informações.

Porém acredito relativamente, porque não há deuses nem sangues azuis.

Obrigada pela aula (novamente).

beijos

Saramar · Goiânia, GO 16/10/2008 22:51
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celina vasques
 

celina vasques · Manaus, AM 18/10/2008 11:31
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Elio Cândido de Oliveira
 

Boa tarde amigo. Parabens Parabens mesmo.
Um belo trabalho.
Aqui estamos. Um belo final de semana
votado.

Elio Cândido de Oliveira · Ibiá, MG 18/10/2008 13:11
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clara arruda
 

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 18/10/2008 13:16
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Ivan Cezar
 

O futebol - paixão nacional - com milhões de adeptos , porém pouca gente capaz de entender o que voce escreve nesse belo texto.

Ivan Cezar · São Sepé, RS 18/10/2008 15:51
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

excelente texto, abraçossss.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 18/10/2008 16:42
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victorvapf
 

Cumprindp com meu sagrado dever do qual sou devoto!

victorvapf · Belo Horizonte, MG 18/10/2008 16:44
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Langinha
 

Não sei se já é hora do voto, mas, se for, VOTADO! Sempre a gente aprende com você, caro maninho. E, sempre é uma bela surpresa...Parabéns...Belo texto. Bjs Langinha...

Langinha · São Paulo, SP 18/10/2008 17:34
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Marcos Pontes
 

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 18/10/2008 20:01
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Zé Preá
 

Meu querido, primeiro votei e desta vez valeu três pontos. Fiquei surpreso por que o voto de um preá vale tanto!

Segundo, gosto muito de você, porém só acredito em juiz que fale alemão, que seja doutor na Alemanha, o diabo a quatro!

Esse juiz pra mim também terá que ser um hábil negociador, capaz de comprar um terreno em área nobre e muito valorizado por 1/4 do seu valor.

Se você, prezado amigo, não reúne essas condições e ainda escreve essas coisas que nos levam à reflexão em pleno sábado à noite com o samba da Toca da Joana me esperando, sinto muito mas vou dizer: você não agiumá!

Abraços do

Zé Preá · Recife, PE 18/10/2008 21:25
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José Carlos Brandão
 

Adauto, embora atrasado, aqui estou lendo a sua crônica - me divertindo e instruindo. Isso mesmo: texto que se preze cumpre essas duas funções - divertir, em primeiro lugar, e instruir. Parabéns.
Abração.

José Carlos Brandão · Bauru, SP 18/10/2008 22:01
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JGomara
 

Caro Adauto, não me atrevo a discutir justiça. Deixo isso para os que tem autoridade e bem conhecem o assunto. Em sintese, uso a justiça apreendida em família, hoje tão dificil em colocar em pratica nas coisas tão pequenas do dia a dia. Abraços. Gomara.

JGomara · São Paulo, SP 19/10/2008 14:58
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Maurimar
 

Caríssimo Dr. Suannes, quer dizer que voce foi colega de classe do Dr. Candinho Dinamarco? Ele é extraordinário processualista, mas você é o mestre da sabedoria, porque soube deixar a escolástica para enfrentar o calor da vida. Sua consideração sobre o sistema judiciário é o retrato vivo de nossa constante luta. Abraços. MAURIMAR CHIASSO

Maurimar · Mogi das Cruzes, SP 20/10/2008 00:22
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Coluna do Domingos
 

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Coluna do Domingos · Aurora, CE 7/11/2008 12:38
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