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Entre uma correria e outra a festa só muda de lugar

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Alesssandra Melo · Campinas, SP
19/1/2009 · 53 · 2
 

Entre uma correria e outra, aos 28 nos, nesse momento, me deparo com minha própria língua em frente ao espelho e lhes digo, ela já não é mais a mesma. Observo cada linha de expressão que já se esboça em ruga e cada poro que o tempo está dando conta de dilatar em meu rosto. Analiso os dentes e concluo que a nicotina já começa a mostrar seus sinais. Dêem-me licença poética, apenas divago enquanto observo minha língua em frente ao espelho sozinha.
De boca semi-aberta reflito sobre os últimos acontecimentos, fito-me estranhamente como naquele poema, - debaixo da minha pele alguém me olha esquisito achando que eu sou ele. Quantos estão como eu? Penso nos amigos que não tenho visto nos últimos tempos. O que fazem? Será que estão bem? Será que pensam em mim? A solidão, nesse pequeno momento, se materializa dividindo o espaço com o burburinho do samba meio abafado pelas paredes do banheiro. Solidão, tema tão recorrente em nossa sociedade, problema que alimenta a depressão e a ajuda a encher os consultórios e o bolso dos farmacêuticos. Solidão sensação tão recorrente. Solidão momento. Solidão que se materializa em minha vida virtual.
Dia destes, pelo MSN, eu conversava com um amigo que mudou para outra cidade há pouco tempo. Trocamos poemas, idéias, arquivos e enfim lamurias, então ele desabafou seu desespero: Odeio ver meus amigos transformados em caixas de dialogo. Meu amigo, a tecnologia me aproximando, me fazendo ler sua lamuria. Ele tem Orkut, eu tenho Orkut, talvez voce tenha, e também participe de dezenas de comunidades com as quais se identifica. Pessoas, muitas pessoas, elas formam redes de relacionamentos, trocam idéias e se identificam, deixam scraps umas para as outras. Enchem tudo de carinhas, correntes, propaganda, piadas, e etc. Podemos espiar, bisbilhotar os hábitos que as pessoas declaram, xeretar mesmo. Ah! Assim conhecemos e nos comunicamos com as pessoas! Orkut, MSN, Email, Blog, Fotoblog, site, tecnologia aproximando continentes, ligando pessoas. Deixamos os tais scraps, ou ainda mandamos um email e nos damos por satisfeitos, nosso dever cumprido, tudo certo, na cama a cabeça nem afunda o travesseiro.
Agora volto a atenção para o espelho, meus poros dilatados confundem-se com outras lembranças, como as da ultima conversa com uma mulher, motivo inclusive pelo qual estou no banheiro. Talvez ela tenha 36 anos, e chorosa me disse- Cara, a minha irmã morreu. O que dizer nessa hora? Sinto muito? Meus pêsames? Eu não disse nada, lhe dei uma espécie de abraço. Pensei em minha irmã que eu tanto amo, pensei em meu pai, em minha mãe, pensei em um garoto que morreu recentemente, enfim, em meio a festa me lembrei de um menino, de alguém muito jovem, de alguém que eu não conheci.
Passo a examinar minha testa, as marcas das sardas que o sol forma em minha pele parecem maiores que antes. Envelheço, concluo. Por que um garoto se mata? O que o levou a fazer isso? O que pensou antes do salto final? Qual foi a ultima imagem em sua retina? Divago, nesse momento aonde talvez alguém que eu não vou conhecer, alguém que mora na casa do lado da minha, sozinho, planeja silenciosamente seu suicídio e escreve sua ultima carta. Quem é essa pessoa? Será que ela tem Orkut? Email? Será que posso lhe mandar um abraço virtual? Será que um abraço virtual adiantaria?
O que será que ele escreve em sua carta? O que guardam estas linhas que nunca vou ler? Linhas de alguém de quem não conheço a dor , de alguém que não conhece minha dor. Será que eu não deveria bater na porta de meu vizinho? Dizer lhe quem sou, dar lhe um simples sorriso?
A solidão desse momento só pode ser comparada ao gelo de minhas mãos recém tiradas do freezer, e só pode ser percebida por quem está longe da família, vivendo uma realidade totalmente nova em um ambiente amplamente diversificado. Não se engane, não sejamos cegos, a solidão inunda nosso meio, e não estamos imunes a ela.
Seguro o queixo. Depois de desbravar os espaços mais remotos, reconhecer relevos submarinos, espécies radioativas, mutações transgenicas, versos decassílabos, diagramas, buracos negros, sistemas filosóficos, métodos de investigação, progressões aritiméticas, equações químicas, verdades e mentiras sobre formas de se queimar cerâmica, nomes de tendões, organelas celulares, métodos de avaliação, materiais de construção alternativos, liquens, softwares livres e privados, modelos propostos, teorias sociais, letramento digital, animações de angus, suco sabor número 3, hidrocarbonetos, harmonia, períodos históricos, biografias e bibliografias, a fabulosa ordem dos livros nas prateleiras, curiosidades fotográficas, receitas com miojo e formiga d’água, tudo que se deseja é um abraço quentinho. Dormir pertinho, roçar cílios com cílios, beijinho de esquimó, cheirinho de pescoço, agarrão apertado, foder gostoso, dormir depois, comer doce, fazer cosquinha, mordida forte e devagar. Benzinho, docinho, queridinho, falar com beicinho, fazer dengo, cafuné e coça piolho. Tapinha, tapão, comidinha boa, jantar chic, jantar fora - arroz com ovo encima do telhado, bandejão, sala de estudo e estudo sobre monopólio de redes paraibanas, cheiro e chero no cangote. Dancinha engraçada, mão gelada, fera, banho juntos, ou não, ou então, só estar com os amigos, rir de bobagens, inventar jogos, almoçar, fazer bagunça coletiva, fazer careta, arrumar tudo para começar a bagunçar de novo, tocar em assuntos sérios, churrascão, salada de folha de amora, alecrim, chapa quatro, montar um super festival de bandas punk-regaee-psico-rap-sertanejo-rock-funk-jazz-axé-blues-eletro-black-brega na sala de casa, pizza, macarrão com cravo – bom por incrível que pareça-, jogar futebol ou baralho, reclamar da bagunça, falar muito sobre tudo - todos ao mesmo tempo, adorar a bagunça, ou mesmo o mais difícil, saber que se pode ficar perto, calado, sem medo de ser ridículo, e finalmente até mesmo poder ser ridículo.
Acaba a solidão-momento, duas moças entram no banheiro, desprego as mãos do queixo e volto a atenção ao redor, lembro-me que tenho que voltar, que me esperam, que precisam de mim, que ainda não terminou, que o meu trabalho na festa continua, e que a festa nunca acaba, que ela só muda de lugar. Saio e da escada vejo casais que se formam, bocas que se beijam, mãos que se tocam. Evoco Drummond, daqui também vejo os desiludidos de amor ruminando seus queixumes em um canto meio escuro, mas não choremos pois “hoje beija amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda feira ninguém sabe.” Mas hoje, no samba, aqui em meio batuque beija, ou não, ou batuca-se freneticamente, vê-se os amigos, os companheiros de batuque, aqueles que estão aqui pelo samba, aqueles que rindo expurgam sua dor, aqueles que cambalhotam ou vigiam de um canto -observando tudo-, aqueles que eu já tenho como parte importante de minha vida e aqueles que ainda não conheci. Conversa-se muito sobre tudo, sobre palavras na parede, sobre clichês e sobre as nuvens que fascinam, que são passageiras mudando de forma. Samba: pela irmã que morreu, pelo menino que morreu, pela dor do peito, pela alegria vindoura e por amor ao samba; e assim, não se atira da janela, do ônibus em movimento, ou da caixa d’água, evita-se o enforcamento em árvores, sublima-se a solidão, esgota-se no pé a dor do peito, ou não, ou então se murmura baixinho, e só para o amigo - ali de canto- de forma quase imperceptível a dor escondida, calada, aquela da qual quase não se fala.
Caminho. Aproximo-me da roda, e agora ouço plenamente, o samba enche meus ouvidos e faz meu tórax vibrar, a musica me invade. O trabalho continua, o trabalho me espera, as pessoas me esperam, o mundo me espera, a vida toda me espera, mas nesse breve momento a música é tudo que existe, e ela ordena: Cai, cai no samba cai, que o samba vai até de manhã.

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informações

Autoria
Alessandra Melo
éInventora-incentivadora-promotora-ajudante-apoio permanente de festas, estudante de Filosofia e
.
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Zineira,
Escritora,
Cineasta,
Produtora Cultural,
Curiosa,
Experimentalista,
Legal p’ra caralho!
e modesta
Ficha técnica
Crônica
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

ótimo texto.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 21/1/2009 12:16
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Ivette G.M.
 

Uma roda de samba é o que há para aliviar qualquer tensão.
Votado. Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 21/1/2009 18:38
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