ENTREVISTA COM PENSADOR MASSIMO CANEVACCI

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Julia Aguiar · Porto Alegre, RS
12/4/2008 · 96 · 3
 

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“Perder-me [em São Paulo] foi em parte uma experiência dura, duríssima, mas que manifestava um enorme prazer”

Reconhecido pela ousadia em romper com métodos clássicos da história intelectual, Massimo Canevacci é um antropólogo que expõe e explica a metrópole contemporânea, a influência das mídias digitais, e ao contrário do que muito da tradição acadêmica sugere, não vê o processo cultural atual como puramente alienante. Ele capta, sim, a imensa possibilidade de interação, participação e de criação de um novo tipo de sujeito, múltiplo e ativo. Nessa entrevista, Canevacci explica sua trajetória até chegar ao método Polifônico e sua aplicação à metrópole. Assim, deixa de lado teorias generalistas e visualiza, analisa e procura compreender, cada fragmento com olhares e aproximações próprias, localizadas e efêmeras. Nesse processo, Canevacci atravessa o concreto, finda com os limites e torna a metrópole contemporânea um espaço – material e virtual - de contornos praticamente indefiníveis.


(ENTREVISTA REALIZADA PARA A PUBLICAÇÃO SEXTANTE - FABICO/UFRGS, SOB ORIENTAÇÃO DO JORNALISTA WLADYMIR UNGARETTI, EM AGOSTO DE 2007)

Para começar, uma pergunta bastante ampla: o que é a cidade?

O processo que iniciou mais ou menos nos anos 70, não é possível precisar uma data certa, no mundo ocidental, mas não só no mundo ocidental, por que também na China, etc, foi a transição da cidade industrial para o que eu chamo de metrópole comunicacional. Isto é, a cidade industrial tinha como momento central a fábrica. A fábrica era o local, não somente da produção econômica, de valor, mas também o lugar de produção política. Era o centro do conflito. Era também o contexto que desenvolveu a forma mais poderosa da lógica, isto é, a dialética. E também a formação dos partidos. Então, a fábrica dava o sentido da transformação não somente econômica, como cultural, sociológica da cidade. E naquela época dava para entender a cidade se relacionando a mesma à produção industrial. O que aconteceu? Nos últimos 30 anos mais ou menos, um processo vem ocorrendo muito lentamente, por que é um processo que ainda não acabou, de transformar esse centro, num policentrismo.

O policentrismo significa que o consumo, a comunicação e também a cultura têm agora uma importância às vezes maior do que aquela da produção. E que, em particular o consumo, que é baseado sobre esse tipo de shopping-center, mas não somente shopping-centers, também parques temáticos, desenvolve um tipo de público que não é mais o público homogêneo, massificado, da era industrial. É um público muito mais pluralizado, ou podemos dizer, públicos. Esses públicos gostam de performar o lado do consumo. Então, o consumo, o shopping-center tem uma importância que mais ou menos é igual a que tinha a fábrica no passado. Para entender esse tipo de metrópole comunicacional você tem de estudar, fazer pesquisa e também transformar esses lugares do consumo.
E a comunicação na era digital é ainda mais importante. Seja pelo aspecto produtivo, seja pelo aspecto de valores, de comportamento, pela maneira de falar, de estabelecer uma relação com o corpo, e também com a identidade. E também a cultura. Não no sentido antropológico, não como cultura intelectual, mas cultura como estilo de vida é cada vez mais parte constitutiva da nova metrópole. Então para entender essa nova metrópole é fundamental olhar o tipo de reforma, não somente urbanística, mas de prédio, de loja, e especialmente de museus, de lugares de exposições, que tem como forma arquitetônica um tipo de desenho, mas também de lógica que é pós-euclidiana. Então, se a gente olha um pouco a grande área metropolitana do mundo, esse é um desafio que é muito estagnado. Por que no Brasil, São Paulo que é uma cidade modernista, também Porto Alegre, mas São Paulo muito mais, não consegue desenvolver um tipo de arquitetura adequada à contemporaneidade. É como se a arquitetura no Brasil fosse ainda modernista, ou minimalista às vezes. E não estivesse dentro desse fluxo de desenvolver formas inovadoras, que favoreçam um tipo de percepção, de sensorialidade, e de comunicação que outras áreas metropolitanas favorecem. Então, esse tipo de transição significa que o território não é mais como antes. Que também a etnicidade, a sexualidade, a família, a identidade, são muito mais pluralizados. Tudo é muito mais possível. É raro que uma pessoa possa fazer um tipo de trabalho por toda a vida, que fique no mesmo território, que tenha a mesma família. Então isso tudo flexibiliza muito o contexto, e isso é para mim, esse tipo de flexibilidade é parte constitutiva do conflito contemporâneo.

Então, a metrópole comunicacional é mais baseada sobre consumo e comunicação, justamente. E também o consumo, a comunicação e a cultura tem uma produção de valores, não só no sentido econômico, mas valores no sentido etnográfico, antropológico. Então a dimensão industrial ainda é significativa certamente, mas não é central como na cidade moderna. E esse cruzamento entre comunicação e tecnologia digital favorece um tipo de transformação profunda na metrópole. Na metrópole que eu chamo comunicacional, que não é mais baseada numa relação entre o Estado e a Nação. Também em parte, veramente, mas fundamentalmente são grandes áreas metropolitanas e comunicacionais que se competem, que se cruzam, e que desenvolvem um tipo de estilo, que favorece esse tipo de profunda transição.

E o conceito de Cidade continua podendo ser aplicado?

Eu acho que o conceito de cidade é baseado numa concepção de cidadania e de produção industrial, que é desafiado profundamente na nova forma, por exemplo, de consumo. O consumo contemporâneo, dos últimos 10, 20 anos, baseado não somente nos shopping-centers, mas em um tipo de dimensão mais performática, por exemplo, parques temáticos, etc, desenvolve um diferente tipo de relação entre a individualidade e o conceito de sociedade. Acho também que o conceito de sociedade não é mais forte como era antes. A sociedade era muito baseada sobre a cidade. E agora se desenvolve um tipo muito mais fluido, diferenciado, também de identidade. A cidade por exemplo, desenvolveu um tipo de identidade mais ou menos fixa; uma família, um trabalho, um território. Agora com a metrópole comunicacional, é muito mais fluida a situação, por que se tem uma multiplicidade de identidades. E isso significa também uma transformação rápida no trabalho. Novamente agora é difícil a pessoa fazer o mesmo trabalho por toda a vida e morar no mesmo território.

O que seria essa dimensão performática do consumo?

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POETA DA SAUDADE · Campos Altos, MG 11/4/2008 15:31
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Uma exelente matéria.Parabéns!

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 12/4/2008 11:25
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Andre Pessego
 

Legal, é um pensamento. Uma posição uma análise. Mas,
se não fosse uma opinião e a opinião é do dono, se fosse uma afirmação faria algumas ressalvas.
Valeu conhecer o pensamento de pessoas assim,
abraços,
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 12/4/2008 20:39
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