A porta fechada. Eu imaginava se ele não ficava observando minha silhueta desaparecer no corredor, através do olho mágico, nas vezes em que eu ia lá.
O prédio não tinha elevador. Da porta, eu caminhava lentamente até a escada, que ficava na outra extremidade do andar. A cada passo vagaroso que dava, eu sentia deixar algo para trás. Alguma parcela de vida se fazia perdida, semana após semana, a cada despedida e fechar de porta. Era sempre para menos, desde a primeira vez: a visão desfocada da ampulheta virada e quase finda, do calendário no mês de dezembro, do ponteiro cansado das horas.
Na antevéspera de Ano Novo bebemos e conversamos vagamente. Eu lhe disse que era o final do ano que me deixava daquela forma, calada. Ele folheou um HQ antigo por horas, levantando os olhos de vez em quando, mas, aparentemente, sem nada procurar.
Ficamos em silêncio por muito tempo. Às vezes eu levava o copo de bebida à boca apenas para ter o que fazer. Enquanto ele, distante, permanecia lendo – ou, eventualmente, acendia um cigarro.
Foi ficando tarde. Hora de partir. Eu me habituara a ir e a voltar de bicicleta para minha casa, ainda que parecesse arriscado para uma moça atravessar a cidade pela noite. Mas nunca há perigo quando sabemos a hora de partir.
Avisei-lhe, recolhendo meu casaco e minha bolsa, que eu estava de saída. Ele largou o que lia e amassou o resto de cigarro num copo. Em seguida levantou-se e, com mãos lentas, apalpou os bolsos da calça, alegando que, antes, tinha que me entregar algo.
Dobrei o casaco em um dos meus braços e pendurei a bolsa no ombro. Aguardei. Ele continuou procurando nos bolsos, mas nada achava. Julgou, então, ter deixado na gaveta do quarto, ou sobre a mesa da cozinha. Eu lhe disse que não poderia mais esperar e que ele, no dia seguinte, podia deixar na minha portaria o que quer que fosse, pois me entregariam.
Mas ele pediu que eu esperasse um pouco mais. Fazia questão de entregar pessoalmente, disse.
Enquanto ele andava cuidadosamente pelo apartamento, procurando o que me daria, eu voltei a sentar. Disse a mim mesma que esperaria só por mais cinco minutos. E, se nada ele encontrasse, o que tivesse que ficar por ser entregue assim ficaria.
Ele, porém, imaginou que eu esperaria a noite toda; que eu esperaria por ele. Sumiu pelos aposentos do apartamento, só deixando escapar os ruídos de sua busca: gavetas exploradas depois de anos de emperradas, móveis sendo arrastados, mochilas sendo abertas com pressa. Sua vida. E, ainda assim, nada. Talvez, porque nada houvesse para mim.
Estava tarde. Resolvi partir. Não me despedi.
Bati a porta. Imaginei que, dessa vez, ele não estaria me observando sumir pelo do olho mágico da porta. Ele não me veria desaparecer. Era uma forma de eu estar por ali, se ele quisesse, para sempre.
Os dias seguintes passaram sem que eu recebesse nada. Ninguém deixara entrega alguma para mim na portaria. Tampouco fui procurada para receber algo. E os dias correram simples e silenciosos – da mesma maneira que, ao deitar-me para dormir, supus ter ficado silencioso o apartamento dele no dia em que saí sem lhe dar adeus.
Interessante, triste, quase amargo, ótimo. O texto tem uma sutileza com a qual a personagem transita na nossa imaginação; parece haver um desespero silencioso que nos angustia até chegar o fim do conto, ela recebendo ou não a encomenda. Sofre-se com ela, pedala de volta pra casa, senta, prevê a ansiedade, enfim, vive-se a personagem. Ótimo texto.
Peterson Nogueira · Natal, RN 2/1/2010 17:30
Bruna...
bem estruturado e interessante seu texto...
a solidão que acompanha o casal e a eterna busca por algo que
alimente a relação e o amor que nestas alturas, já não existe.
Triste e verdadeiro.
bjs
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