Escasso #1

Dani Lima
1
Barba · Belo Horizonte, MG
8/10/2006 · 96 · 4
 

Meu avô sempre dizia que se você quer uma vida estável você deve procurar um emprego público. Se você quer ficar rico tem que abrir uma casa de apostas, um puteiro, um bingo, um motel ou todos os quatro juntos. E claro, cê sempre tem que servir bebida nesses lugares porque, não importa se o mundo está na crise ou na boa, as pessoas sempre vão querer trepar, beber e jogar – não nessa mesma ordem.

O velho era uma espécie de sábio, no sentido antigo da palavra. Foi ele quem me ensinou todo o desprezo pelos estudos, a vida acadêmica, essa merda toda. Viveu a vida inteira como um rei, fumando seus charutos enquanto lia as notícias de esportes. E, claro, trabalhava 6 horas por dia em algum dos buracos regados a café que são as repartições públicas.

Também nunca parou de jogar: sinuca, truco, pif, vinte-e-um... era um maldito que confiava na sorte. Às vezes ela sorria pra ele, outras vezes deixava o velho na mão. Mas, a questão é que ele sabia como jogar e, acima de tudo, como apostar. Sempre me descolava uns trocados, mas não me deixava gastar com qualquer coisa. “Antes do dispêndio, vem o acúmulo†dizia. Acho que os cuzões economistas deviam ter escrito um livro baseado na sabedoria dele.

No fim, ele acabou sendo meu maior exemplo de como um homem deve viver. Sim, porque o meu pai, esse era uma espécie de moralista patético e deprimente. Um contador almofadinha que mal sabia amarrar os próprios sapatos ou mijar dentro da privada. Nunca estava em casa e tampouco conseguiu me ensinar algo que prestasse. Vivia sempre esbravejando coisas a respeito do valor do trabalho, da honestidade e essa merda toda. Um filho da puta irritante.

(continua)

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informações

Autoria
Rafael Barbi
Ficha técnica
"Escasso" é uma primeira tentativa de escrever a respeito de marginalidade, ensaiada em outros contos, mas sem atingir nada concreto. No início eu buscava escrever a respeito da marginalidade da favela, já retratada exaustivamente antes e depois do sucesso de "Cidade de Deus".

Se por um lado a favela é um ambiente que eu conheço mas não convivo diariamente, por outro é bastante arbitrário associar a marginalidade apenas com ela, já que ali mesmo no meu bairrinho de classe média, eu consigo vislumbrar os violentos, os pichadores, os traficantes e os ladrões de carros.

A idéia de narrar sempre à partir do ponto de vista do protagonista usando sua linguagem coloquial, é a busca pela produção de um discurso desses "malandros da classe média". No entanto é a parte mais difícil da escrita, o texto ficar muito forçado ou de parecer raso, mas é um risco que vale à pena correr.

"Escasso" já tem 3 partes escritas, todas na voz de um mesmo personagem.
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Barba
 

Nenhum comentário? Putz, e eu esperava uma crítica esmagadora! : )

Barba · Belo Horizonte, MG 8/10/2006 20:05
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eduardo ferreira
 

gostei da metade que li. vou devorar o(s) resto(s) do banquete...

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 31/10/2006 18:10
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Bia Marques
 

Retrato cru do real e, ai, que saudade do meu avô!

Bia Marques · Campo Grande, MS 1/11/2006 08:09
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Barba
 

Obrigado a ambos!

Barba · Belo Horizonte, MG 1/11/2006 10:21
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