Escasso # 2

Mateusz Atroszko
1
Barba · Belo Horizonte, MG
10/12/2006 · 53 · 2
 

Virei a rua e caí naquela pracinha fudida pra caralho. Onde devia ter grama, tem terra, onde devia ter uns bancos de madeira só sobraram uns blocos de concreto. Eu lembro que tinha uma fonte com uns peixes antigamente mas agora só sobrou um buraco cheio de tags e camisinhas usadas

Lar, doce lar. Eu cresci nessa vizinhança ridícula, um monte de casas de conjunto habitacional que, graças às economias e progressos de seus honoráveis habitantes acabou se tornando um bairrinho da classe média empobrecida. Hoje todos são uns velhos paranóicos e reumáticos que se escondem atrás de cercas elétricas dedicando inúmeras horas à TV a cabo.

Aqui também tem a casa do Cica, meu chegado, e é pra lá que eu estou indo. Dou uma parada pra ver a merda que a tal pracinha se tornou. Eu costumava vir andar de bicicleta aqui com a galera, hoje em dia parece que não tem mais de dez pessoas com menos de sessenta anos num raio de um quilômetro dessa praça. As únicas pessoas vêm aqui são os alunos de um colégio municipal próximo, que curtem fumar e dar umas trepadas no horário noturno. Não tem crianças, não tem bebês, não tem mães, não tem porra nenhuma. Eram outros tempos aqueles.

Mas foda-se esse saudosismo. Quando eu escutava meus pais falando eu achava uma idiotice sem tamanho. Tipo, minha mãe sempre dizia que ninguém mais joga amarelinha, brinca de pique-esconde e essas coisas. Não mãe, a galera tá é travando fumo, andando de skate, pixando e jogando video-game. A coisa é outra.

Na porta da casa do Cica eu vejo um velho lendo um livro, Machado de Assis e tal. Putamerda, eu não ia ler isso nem se me colocasse uma arma na cabeça. Dou bom dia pra ele, mas o desgraçado me ignora ou é um surdo decrépito. Toco a campainha.

O Cica sai de lá de dentro, com aquela camiseta abarrotada dele vestindo uma bermuda florida estilão de boyzinho. Ele tá cada vez mais gordo. Ele vem chegando perto, com uma cara de quem acabou de acordar e, porra, já são quase onze horas.

“Fala sangue” – o cara me vem com aquele papo mole - “Passa pra dentro.”

A gente dá um toque e eu vou entrando. Tipo, a casa do Cica tá até arrumadinha e tal, o cara anda investindo na propriedade. A sala tá com tudo do melhor: televisão tela-plana, aparelho de DVD, e o caralho a quatro. O cara arrumou até um sofá maneiro e vou me ajeitando nele.

“Cê tá com a bola, hein? – vou disparando.

“Pois é cara, tipo que eu vou casar e tal” – o viado me fala.

“Hã? Como assim? Cê nem namora!”

“Pois é, saca aquela mina da Austrália, aquela da Internet?” – ele vai meio que se defendendo.

Mas a real é que eu fico meio estático, tentando entender onde é que essa loucura toda faz algum sentido.

“Cê tá de brincadeira... duvido que vai ter coragem pra casar com uma mina que nem conhece.”

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informações

Autoria
Rafael Barbi
Ficha técnica
"Escasso" é uma primeira tentativa de escrever a respeito de marginalidade, ensaiada em outros contos, mas sem atingir nada concreto. No início eu buscava escrever a respeito da marginalidade da favela, já retratada exaustivamente antes e depois do sucesso de "Cidade de Deus".

Se por um lado a favela é um ambiente que eu conheço mas não convivo diariamente, por outro é bastante arbitrário associar a marginalidade apenas com ela, já que ali mesmo no meu bairrinho de classe média, eu consigo vislumbrar os violentos, os pichadores, os traficantes e os ladrões de carros.

A idéia de narrar sempre à partir do ponto de vista do protagonista usando sua linguagem coloquial, é a busca pela produção de um discurso desses "malandros da classe média". No entanto é a parte mais difícil da escrita, o texto ficar muito forçado ou de parecer raso, mas é um risco que vale à pena correr.

"Escasso" já tem 3 partes escritas, todas na voz de um mesmo personagem.
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blequimobiu
 

da hora ai cara... segue o rumo!

blequimobiu · Salvador, BA 22/5/2007 10:39
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Barba
 

Brigado! Tem o número 3 no Overmundo também : )

Barba · Belo Horizonte, MG 22/5/2007 10:46
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