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Escasso # 3

Alexandre Magalhães
1
Barba · Belo Horizonte, MG
31/1/2007 · 71 · 2
 

O viado do Mauro tava batucando na mesa o tempo inteiro, contando aquele caso do neguinho que ele esfaqueou em 2002. Toda vez que a gente senta pra tomar uma cerveja com alguém que ele não conhece é a mesma merda. Metade de BH já deve saber disso, contando só a galera que ouviu da boca dele. Não vou desmerecer o Maurão, até porque fiquei feliz pra caralho no dia que ele me contou que tinha passado a faca no playboy que ficava cantando a mina dele.

Eu fico ali, degustando a Brahma de leve, olhando pra cara do Henrique, o vacilão pra quem ele tá contando a história. O cara tá hipnotizado, ou porque tá se cagando ou porque tá achando do caralho. Aí o Mauro começa a exagerar e inventar, coisa que ele sempre faz quando conta essa história, fico de saco cheio. Saio pra dar uma mijada, olhando as mesas cheias de vagabundos que curtem cerveja na quarta à noite. No banheiro dou um tequinho e volto pra cerveja mais disposto.

Chegando lá vejo que o otário já foi embora e o Mauro tá procurando um outro pra poder contar as glórias dele.

“Cê assustou o moleque” – vou dizendo – “Fica contando essa mesma história fudida toda vez. Chato pra caralho.”

O Mauro ri, daquele jeito escroto dele. O cara tá vestido com uma calça social, uma camisa azul e uns sapatos de bico quadrado. Mesmo trabalhando num emprego fudido do metrô ele sempre anda alinhado, aposto que deve ser o rei do parcelamento de compras. A gente fica uns instantes sem falar nada, só bebendo e olhando a galera sentada na mesa dos botecos.

“Olha essa loura, rapaz...” – ele dá uma secada absurda na bunda e nos peitos de uma lourinha gostosa que tá junto com um tiozão meio careca. Da galera toda, ele sempre foi o que mais catou mulher e também o que mais tratou elas que nem lixo. Sempre que eu lembro disso uma frase me vem à cabeça: seja escroto primeiro e você vai se dar bem. É inevitável, parece uma regra que serve para todas as coisas da vida.

“Aposto que esse velho careca tá fazendo o pau dele muito feliz. Deve estar gozando em tudo quanto é buraco dela.” – completo, sendo asqueroso pra caralho. – “Tem mulher que só serve pra isso mesmo. Mas outras, cara, outras que você tem que tratar que nem rainha.”

“Essas é que são as piores.” – ele vai dizendo. E não é pra menos. As duas namoradas em quem o Maurão ficou gamado, e não foi escroto primeiro, acabaram colocando ele em problemas dos mais variados tipos. A Valquíria foi a mina por quem ele esfaqueou o playboy e Sandra, putaquepariu, a Sandra faltava arrancar o fígado dele, aquela cadela. – “Mulher não quer ser bem tratada véio, elas gostam é quando você sacaneia. Sempre te falo isso Diogo.”

Aceno com a cabeça já que não agüento mais esse discurso de Jece Valadão que o Mauro curte fazer toda vez que falamos sobre namoradas e tal. Comigo não tem esse papo de “homem é assim, mulher é assado”, pra mim tudo vale pros dois. A Val e Sandra não fuderam com a vida do Maurão enquanto ele ficava fazendo tudo pra agradar elas?

“Quando é que você vai arrumar um emprego, seu viado?” – ele olha pra mim por cima dos copos. Aí percebo que ele também está com gel no cabelo preto penteado pra trás. Falta um bigode pra ele virar um cafetão ordinário.

“Sei lá, por enquanto tô de boa. Dei uma diminuída no pó depois daquele esquema, tá ligado?” – falei me referindo ao a uma mal sucedida tentativa de buscar a branquinha em uma boca onde eu acabei tomando umas porradas e ficando sem minha grana. Sempre prometo pra mim mesmo que vou matar a mãe dos desgraçados que fizeram isso, mas não vou porra nenhuma. – “E quando eu não gasto muito com pó o aperto é menor”.

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informações

Autoria
Rafael Barbi
Ficha técnica
"Escasso" é uma primeira tentativa de escrever a respeito de marginalidade, ensaiada em outros contos, mas sem atingir nada concreto. No início eu buscava escrever a respeito da marginalidade da favela, já retratada exaustivamente antes e depois do sucesso de "Cidade de Deus".

Se por um lado a favela é um ambiente que eu conheço mas não convivo diariamente, por outro é bastante arbitrário associar a marginalidade apenas com ela, já que ali mesmo no meu bairrinho de classe média, eu consigo vislumbrar os violentos, os pichadores, os traficantes e os ladrões de carros.

A idéia de narrar sempre à partir do ponto de vista do protagonista usando sua linguagem coloquial, é a busca pela produção de um discurso desses "malandros da classe média". No entanto é a parte mais difícil da escrita, o texto ficar muito forçado ou de parecer raso, mas é um risco que vale à pena correr.

"Escasso" já tem 3 partes escritas, todas na voz de um mesmo personagem.
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Marcela Fells
 

Eu sempre fico mais debochada depois de ler suas coisas, eu adoro.

Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 30/1/2007 20:08
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Barba
 

Ah, me sinto honrado pelo comentário Fells :) Estive uma data sem ler o Tempos Anoréxicos mas curti demais umas paradas novas que estão lá. Vou linkar no Savoir-Faire. Brigadão por me ler moça. Abraço forte!

Barba · Belo Horizonte, MG 30/1/2007 22:46
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