Escola japonesa ou escola brasileira?

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Roberto Maxwell · Japão , WW
3/4/2008 · 121 · 8
 

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Há alguns anos, os estudos migratórios vêm dedicando um bom número de páginas à questão das crianças migrantes/crianças de imigrantes. O foco é o estudo dos padrões de adaptação das gerações subsequentes àquela que efetivamente migrou. Esse campo muitas vezes é negligenciado, sobretudo quando o debate segue por um viés econômico. Estudos passados apontavam como inevitável e certa a absorção do migrante pela sociedade receptora, ao longo das gerações. Novos estudos colocam em xeque essa idéia de que todos os grupos tendem a ser assimilados da mesma forma e propõem uma analise que considere as especificidades de cada grupo.

O Japão é considerado um dos “novos destinos de imigração” da contemporaneidade. A entrada do país na rota das movimentos populacionais transnacionais vem se dando através de um forte controle estatal e do privilégio à atração de grupos de descendentes de japoneses vivendo em países fortemente abalados pela instabilidade econômica e pela inserção tardia no processo de industrialização como o Brasil, o Peru, o Paraguai e a Argentina. No Japão, a opção por migrantes de ascendência japonesa responde a um anseio da maioria tradicional dos nacionais que procura evitar a presença de outros grupos étnicos no país afim de proteger a chamada “homogeneidade” da população do país. No entanto, com a chegada dos chamados nikkei burajirujin (brasileiros descendentes de japoneses), boa parte deles já completamente assimilados pela sociedade brasileira, as diferenças culturais se impuseram às semelhanças genéticas gerando uma série de conflitos entre migrante e o resto da sociedade. Esses conflitos foram bem descritos em TSUDA (2003) e não são o objeto deste trabalho.

Sobre a obra

Pais brasileiros no Japão costumam considerar duas possibilidades de educação para seus filhos: a “escola japonesa” ou a “escola brasileira”. “Escola japonesa” é a expressão utilizada no meio da comunidade étnica brasileira para se referir à escola pública local. Já “escola brasileira” refere-se às instituições de ensino privadas ou escolas étnicas. Este artigo busca compreender que fatores influenciam a escolha dos pais por um ou outro tipo de instituição de ensino. Através de teste estatístico, foi verificado que a intenção de retorno ao Brasil é o fator que tem maior influência na escolha do tipo de escola por pais de crianças em idade escolar residentes em Hamamatsu. Porém, a percepção de temporariedade destes trabalhadores migrantes vai de encontro com o aumento do período de estadia no Japão. Enquanto isso, boa parte das crianças brasileiras são submetidas a um programa educativo voltado para um futuro cada vez mais distante no Brasil.

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Roberto Maxwell
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Viktor Chagas
 

Opa, Maxwell,
Muito bacana (muito mesmo)!
Não sabia que você fazia mestrado em Ciências Sociais por aí. O trabalho levanta muitos pontos interessantes para discussão. E é legal ver como você articula isso com uma bibliografia essencialmente japonesa (ou de nikkeis hehe). A gente que fica daqui sofrendo influência direta das ciências sociais americanas e européias (leia-se francesa, inglesa, alemã e quando muito italiana), descobre um mundo completamente novo com essas referências.

Fiquei só com uma dúvida, talvez por ignorância minha: o que são testes de chi quadrado? Chi, para mim, é aquela energia vital chinesa, usada, por exemplo, nos golpes contra tijolos do Bruce Lee. :)

E uma pergunta sobre o seu tema de mestrado: você vai seguir com a pesquisa quantitativa ou vai levantar os dados e marcar um grupo qualitativo para seguir daí? Quais os planos?

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 31/3/2008 17:42
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Roberto Maxwell
 

Oi, Vitor, tudo bem? Teste de chi quadrado é um procedimento estatístico que relaciona variáveis dependentes e independentes. Eu vou deixar um link que explica melhor do que qualquer esforço que eu faça, já que eu não sou estatístico. http://en.wikipedia.org/wiki/Chi-square_test
Sobre a bibliografia, a base da minha pesquisa teórica é norte-americana. Portez, Zhou, Tsuda são parte de um grande movimento que estuda novos fluxos migratórios. Também trabalho com autores brasileiros, alguns radicados aqui no Japão, que estudam o movimento por uma perspectiva local (Brasil) ou transnacional. Há, ainda, as pesquisas realizadas aqui. Infelizmente, eu ainda não tenho nível de japonês para incluir japoneses na bibliografia teórica. Quer dizer, eu demoro muito tempo pra ler em japonês e muitos autores que deveriam estar influenciando meu trabalho estão, ainda, na gaveta. Mas, terão que se desengavetar logo hehehehe. Estão sendo desengavetados, na verdade.
Sobre o mestrado, haverá pesquisa qualitativa, sim. Estou estruturando a metodologia mas eu acho que vou acompanhar três grupos: um formado por crianças brasileiras que estudam em escola japonesa numa cidade sem opção por escola brasileira, um grupo de crianças que estuda em escola brasileira e um grupo que estuda em escola japonesa em uma cidade com opções variadas de escola brasileira. Também tenho pensado em meios de usar uma câmera como recurso de observação. Mas, eu estou receoso do melhor modo de fazer isso, já que eu não sou antropólogo e não sei como negociar o cineasta com o pesquisador em campo.

Roberto Maxwell · Japão , WW 31/3/2008 23:40
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Viktor Chagas
 

hehehe... Acho que eu preferia a sua explicação de não-estatístico sobre o chi quadrado. Mas, enfim, já deu pra notar que não tem muito a ver com kung fu ou taoísmo. :)

Sobre a sua bibliografia, o que eu quis dizer é que é realmente um alívio ver trabalhos sobre educação / ciências sociais com referências para além de Bourdieu.

Hoje, estava pesquisando nos arquivos da Revista Veja, para a minha dissertação, e meio sem querer encontrei esta materinha aqui que pode te interessar. Abraço.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2008 14:11
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Roberto Maxwell
 

Então, Viktor, aqui há uma discussão interessante acerca da aquisição da língua nas crianças que nascem ou vem muito pequenas para cá. Como, em geral, os dois pais trabalham, a criança precisa entrar numa creche. A creche pública é quase gratuita e são raras. Creches privadas japonesas também são raras. Mas, entre os brasileiros, na colonia, há muitas creches. Porém, os pais que conseguem vagas em creches públicas, optam por deixar seus filhos nelas e lá eles convivem boa parte do tempo com japoneses. Com o tempo, a criança perde a língua da família, já que não tem muito contato com os pais.
Ocorre, ainda, da escola desvalorizar a língua materna da família e, com isso, a criança se sentir desestimulada a falar o idioma dos pais. E, mais louco ainda, ocorre quando os pais não falam japonês e a criança não fala português. Imagina a situação.

mudando de assunto, oq ue vc está estudando?

Roberto Maxwell · Japão , WW 1/4/2008 14:34
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Viktor Chagas
 

Vou te responder em PVT pra não poluir sua colaboração com um assunto nada a ver, ok? :))

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2008 14:49
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Elio Cândido de Oliveira
 

Achei interessante e bom, votei. Parabens
abra~ços. Estou em edição com o texto Matando Saudades, confira.. Obrigado.

Elio Cândido de Oliveira · Ibiracatu, MG 3/4/2008 15:25
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leklam27
 

Amigo, gostei muito do seu artigo. Sua pesquisa em relação aos dados estatísticos foi muito cuidadosa e contribuiu para esclarecer, de forma objetiva, as hipóteses sobre seu objeto de estudo, dando ao conteúdo do texto um caráter realmente “acadêmico”, visto que você a todo momento busca romper as fronteiras entre suas observações empíricas e sua reflexão teórica, o que com certeza é muito difícil. Esta simbiose (empiria-teoria) deveria ser a base de todo trabalho que pretende ser chamado de “científico” em ciências sociais. É esse exercício, de articular a realidade com a teoria, que com certeza, é o grande desafio do intelectual que busca avançar com o conhecimento no intuito de construir novos paradigmas (o que você procurar fazer a todo o momento em seu artigo) e não apenas reproduzir os que já estão aí. Apenas duas questões, intimamente relacionadas, me “perseguiram” durante a leitura de seu artigo: a) Os donos dessas escolas levam em consideração ao abrir um estabelecimento educacional essas questões de ordem mais subjetiva como a “construção de uma identidade brasileira” nos alunos? Ou investem neste setor educacional apenas sendo atraídos por uma fatia de mercado “transnacional” que vem crescendo com a imigração dos chamados nikkei burajirujin “permanentemente temporários” ? Chamo atenção para essas questões, pois, penso que, mesmo que a preocupação com a construção da identidade seja descrita no PPP das escolas brasileiras no Japão talvez esta seja apenas um pano de fundo para um cenário empresarial que priorize apenas o econômico e não esteja realmente preocupado com o futuro dessas crianças e adolescentes no Japão

leklam27 · Rio de Janeiro, RJ 20/4/2008 21:28
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Roberto Maxwell
 

É amigão, isso é uma questão muito séria. Existem diversas controvérsias aqui acerca de qual seria a finalidade dessas instituições. Dá pano para a manga esse debate.

Roberto Maxwell · Japão , WW 20/4/2008 22:53
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