A brisa veio mansinha
Delicada insinuação dentro das minhas incertezas
E veio por uma fresta mais delicada ainda
Esgueirou-se habilmente até a passagem inteira
E liberta dentro de mim
A fenda exposta
Espraiou-se em ventania sedutora
Espaços abertos e longínquos
Amplas pradarias e descampados
Correu solta e desembaraçadamente
Terras estrangeiras do meu EU contido
Desbravou sem medo
Os meus desertos, a minha aridez, o profundo das minhas entranhas
Os subterrâneos inomináveis do caminho de dentro até à fonte
E assoprou desde a superfície ao fundo sem princípio o movimento
E a fertilidade das águas se fez para a promessa do encontro
De puro gosto e correr mais cristalino o tênue fio do tempo e da crença
De que os dias são bons e belos na corrente da vida
Eu bebi o cálice sagrado da sua ventania...
Bebi! Embriaguei-me até perder os sentidos
Em todos os dias idos e vindos, o vindouro!
Ali, naquele gozo de ventania o meu passo adiantado
Os pêlos eriçados à espera da certeza aconchegante e fresca
Todas as portas e janelas abertas ao infinito
Correndo com a ventania
Uma confiança íntima e só minha
O torpor, a cegueira, a chave atirada à perdição num dia qualquer
A chama inválida
Antes brisa
E bem mansinha atravessando a fresta
Depois a fenda no vão da janela em chamas
E já aberta escancaradamente à luminosidade da vida
À posse da ventania bendita
O torpor, a cegueira, a chave tilintando escorregadia no fosso de um dia qualquer
A chama inválida
A brisa antes suave
Insidiosa
A ventania amorosa
Instalada nos quatro cantos da casa
Em todas as camadas da pele
E na memória dos dias todos
Indistinguíveis do seu movimento
Ali, diante de mim, no meio da sala
Irreconhecível a palavra chama
Inválida a minha dor
Inválida a minha alma
Uma outra ventania acordando as fúrias
Puxando os fios de dias truncados
Diálogos de respiração entrecortada
O torpor parindo os meus espantos
A cegueira agonizando dentro do meu choro
O depois de agorinha mesmo em todos os passos adiante
Aquela ventania que varreu a minha alma de um jeito quente
Varre depois do torpor depois da cegueira depois da chave perdida
A minha alma de um jeito frio
Despojando-me de todas as paredes, por dentro e por fora
Respiro fundo, engulo seco e estendo a mão à brisa
De mansinho acordo a minha fúria
E (re) parto-me à tempestade
Eu mesma semeando a ventania
A minha ventania
Que ainda contemplo na palma da minha mão
Aberta
Ao infinito de todas as janelas
A ventania das minhas palavras
Em chamas
No espanto da tarde que move a montanha
E esculpe as fendas por onde encontro as brechas
E escorrego para um outro tempo
Um outro movimento
Depois do agorinha mesmo dos meus passos adiante
Ao meu encontro!
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