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Escultura da ventania

Cida Almeida
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Cida Almeida · Goiânia, GO
14/3/2007 · 101 · 0
 



A brisa veio mansinha

Delicada insinuação dentro das minhas incertezas

E veio por uma fresta mais delicada ainda

Esgueirou-se habilmente até a passagem inteira

E liberta dentro de mim

A fenda exposta

Espraiou-se em ventania sedutora

Espaços abertos e longínquos

Amplas pradarias e descampados

Correu solta e desembaraçadamente

Terras estrangeiras do meu EU contido

Desbravou sem medo

Os meus desertos, a minha aridez, o profundo das minhas entranhas

Os subterrâneos inomináveis do caminho de dentro até à fonte

E assoprou desde a superfície ao fundo sem princípio o movimento

E a fertilidade das águas se fez para a promessa do encontro

De puro gosto e correr mais cristalino o tênue fio do tempo e da crença

De que os dias são bons e belos na corrente da vida

Eu bebi o cálice sagrado da sua ventania...

Bebi! Embriaguei-me até perder os sentidos

Em todos os dias idos e vindos, o vindouro!

Ali, naquele gozo de ventania o meu passo adiantado

Os pêlos eriçados à espera da certeza aconchegante e fresca

Todas as portas e janelas abertas ao infinito

Correndo com a ventania

Uma confiança íntima e só minha

O torpor, a cegueira, a chave atirada à perdição num dia qualquer

A chama inválida

Antes brisa

E bem mansinha atravessando a fresta

Depois a fenda no vão da janela em chamas

E já aberta escancaradamente à luminosidade da vida

À posse da ventania bendita

O torpor, a cegueira, a chave tilintando escorregadia no fosso de um dia qualquer

A chama inválida

A brisa antes suave

Insidiosa

A ventania amorosa

Instalada nos quatro cantos da casa

Em todas as camadas da pele

E na memória dos dias todos

Indistinguíveis do seu movimento

Ali, diante de mim, no meio da sala

Irreconhecível a palavra chama

Inválida a minha dor

Inválida a minha alma

Uma outra ventania acordando as fúrias

Puxando os fios de dias truncados

Diálogos de respiração entrecortada

O torpor parindo os meus espantos

A cegueira agonizando dentro do meu choro

O depois de agorinha mesmo em todos os passos adiante

Aquela ventania que varreu a minha alma de um jeito quente

Varre depois do torpor depois da cegueira depois da chave perdida

A minha alma de um jeito frio

Despojando-me de todas as paredes, por dentro e por fora

Respiro fundo, engulo seco e estendo a mão à brisa

De mansinho acordo a minha fúria

E (re) parto-me à tempestade

Eu mesma semeando a ventania

A minha ventania

Que ainda contemplo na palma da minha mão

Aberta

Ao infinito de todas as janelas

A ventania das minhas palavras

Em chamas

No espanto da tarde que move a montanha

E esculpe as fendas por onde encontro as brechas

E escorrego para um outro tempo

Um outro movimento

Depois do agorinha mesmo dos meus passos adiante

Ao meu encontro!


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informações

Autoria
Cida Almeida
Ficha técnica
Para quando setembros ensimesmados não doerem mais no contraluz de um dia de cristal, mesmo que partido, ido, transfigurado, cortante e cortado.


Goiânia, 9-9-2006
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