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Espantalhos, de Jeca Kerouac

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Luiz Zanotti · Campo Largo, PR
28/10/2010 · 0 · 0
 

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Introdução

Eu encontrei casualmente o Jeca Kerouac numa viagem que fiz pelo interior do Paraná, numa pequena estrada secundária que dá acesso a Morretes.
O meu carro teve um problema com a parte elétrica, parando vagarosamente na beira da estradinha, liguei pelo meu telefone celular para a Companhia de Seguro, sendo informado, depois de muita espera, que eles só poderiam ir me socorrer dentro de aproximadamente três horas.
Fiquei muito puto da cara, mas fui obrigado a me consolar, o local era bem longe da cidade, não passavam muitos carros por esta estrada e o sol do meio dia estava de rachar.
Procurei então, me abrigar do sol debaixo de uma araucária, de lá fiquei observando a beleza do pico Marumbi, até que passados alguns minutos notei uma casa não muito longe no pé de uma colina.
Tomei um gole de coragem e fui caminhando pela estrada até a casa, lá chegando encontrei um velho calvo, barba branca que com um sinal de mão me convidou para entrar. Entrei pela porteira de madeira e me dirigi para a varanda da casa, onde ele estava sentado, junto de uma mocinha linda, morena de olhos verdes, que até hoje eu não sei se é sua mulher ou sua filha.
Convidou-me para sentar, ao mesmo tempo em que a mocinha pediu licença e se dirigiu na direção dos campos de milho, aonde pude notar a presença de vários espantalhos que inibiam os pássaros de furtar as sementes e de atacar as espigas.
Jeca, que na verdade é o apelido de José Carlos, me ofereceu uma cuia de chimarrão, enquanto eu relatava o meu infortúnio.Começamos a conversar sobre assuntos variados, tendo ele me contado que já tinha corrido este mundão de Deus, e que assim como eu apreciava uma roda de violão e cachaça, hoje em dia era abstêmio, mas já tinha bebido um volume de cachaça semelhante ao volume do rio Nhundiaquara quando cheio. Este rio é famoso nas redondezas por suas corredeiras em meio às pedras, por onde a molecada costuma descer de bóia, no famoso boiacross.
Ao saber que eu gostava de literatura foi buscar os originais de uma estória ou historia, que segundo ele tinha realmente acontecido.Entregou-me um caderno azul bastante judiado pelo tempo.
Ele na sua maneira direta e franca pediu que eu verificasse uma forma de poder divulgar a sua estória, pois achava que as pessoas poderiam se tornar mais benevolentes e pacientes, após a leitura da mesma.
Acrescentou ainda o pedido para que eu fizesse a revisão ortográfica do mesmo, pois gramática não era um de seus principais predicados, também fez questão de frisar que ele não se incomodaria com mudanças que eu achasse necessárias, podendo até mesmo reescrever o conto, se assim eu desejasse.
Comecei a ler os originais escritos a mão, numa caligrafia que apesar de simples mostrava um forte traço, quando notei passar o caminhão guincho que tinha vindo me socorrer, fiz menção de devolver os papéis, ao que ele me solicitou que os mantivesse comigo e na medida do possível o publicasse.Tentei dizer que não era editor e que, portanto não teria grandes chances de publica-lo.Mas foi impossível convencê-lo, sai da sua casa agradecendo a guarida, tendo em minhas mãos os originais do conto “Espantalhos”.
O eletricista que veio no caminhão guincho demorou uma eternidade para fazer os reparos necessários no meu carro, de forma que quando o meu carro ficou pronto para eu seguir viagem já era tarde da noite e eu ao passar pela casa do velho Jeca vi tudo apagado e fiquei sem coragem de incomodá-lo naquela hora.
Cheguei na minha casa no meio da madrugada, exausto pelo dia atribulado, e depois de um banho reservado para os justos me enfiei na cama. A estória do velhinho não me saia da cabeça, não consegui resistir ao ímpeto de pegar os originais e lê-los, meu sono tinha se esvaído.
O livro como agora vocês poderão notar foi escrito por alguém que passou a vida procurando pela liberdade, esconde uma estória ou história que achei muito interessante pela imaginação, tendo ainda aqui e acolá, algumas poesias relacionadas com os espantalhos.
Os poemas são bem interessantes e eu acabei musicando-os nas minhas horas de folga junto com alguns amigos, estas músicas deram origem a um cd homônimo do livro. Dez anos se passaram desde aquele encontro fortuito, e eu por nunca ter publicado o livro, me sentia culpado e sem força para visitá-lo. Porém a poucos meses atrás, eu fui obrigado a repetir aquela viagem, e fiquei estarrecido ao passar pela sua casa e ver tudo trancado e abandonado, os campos de trigo tinham sido devastados, não notei sequer a presença dos espantalhos. Teria ele se mudado? Teria morrido, e sua mulher ou filha se mudado?
Com um complexo de culpa imenso resolvi agora como forma de homenagem, que eu espero não seja póstuma, publicar esta pequena edição.
Apesar de algumas passagens nem sempre fazerem sentido, eu fui totalmente fidedigno com a versão original, uma por razões obvias de respeito ao autor, e a outra, talvez a mais importante, é a de que Jeca deixa espaços para que nós mesmos construamos as nossas histórias, sendo que assim como numa pintura abstrata, nem sempre percebemos o objeto numa primeira apreciação, a cada leitura do conto este nos revela facetas diferentes.
Como não sei o seu sobrenome resolvi juntar o seu nome Jeca, que muito me recorda ao grande Monteiro Lobato, na maneira pura e simples de descrever seus personagens, ao sobrenome Kerouac, grande romancista americano da geração beat, um dos precursores da prosa espontânea e de linguagem ácida e prosa espontânea que de uma certa forma, também aparece presente no trabalho do velho andarilho.
Jeca, onde quer que esteja espero que fique contente se vier a saber que agora as pessoas poderão conhecer a sua história e aprender com ela.

Luiz Zanotti

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Zanotti, Luiz Roberto
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