ESTA BOCA QUE TE AFAGA

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danlima · Brasília, DF
15/4/2008 · 128 · 22
 

O homem, lobo do homem,
fera entre feras,
perdido nas estrelas,
embriagado entre vãs atmosferas
não sabe se beija ou se morde
a boca que o afaga
não sabe se é carinho ou vício
a mão que o esmaga.

Nem de si o homem sabe, perdido
entre seus iguais.
E o peso de constelações
de constatações
e de contrições siderais
o aniquila
sem que possa ao menos
a pulmões plenos
gritar sua dor
em uivos primais.

O homem, lobo do homem,
Narciso, ego,
nega, nega
sua vã filosofia:
E se acredita mágico,
lírico cântico
como lírios brancos
ao cair da tarde
mas arde: de volúpia,
de gula animal
desejos irracionais que o arrastam
à lama, que renega.

Esta mão que te amordaça,
esta boca que te afaga
é o peso que te esmaga
é a força que te cala
que te encerra nesta cela
que tu próprio és.

sem quimeras, sem quereres,
sem ilusões de grandeza.
busca, na paz da poesia,
entender tua triste condição:
ser humano que és, pleno
de penas e contradição:
A Busca, amigo, nesta viagem,
que é miragem,
de um caminho
De libertação.

Brasilia( DF), 12/04/2008

Sobre a obra

Variações sobre o poema "Versos Ãntimos" de Augusto dos Anjos, grande poeta brasileiro, cantor das misérias materiais e imateriais do ser humano.

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Autoria
Danilo de Abreu Lima
Ficha técnica
poesia brasileira contemporânea
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Regina Lyra
 

Amigo Dan,
Coloco aqui alguns dados de um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, para enriquecer mais sua página.

AUGUSTO DE CARVALHO RODRIGUES DOS ANJOS, conhecido literariamente como AUGUSTO DOS ANJOS. Nasceu no Engenho Pau d’Arco, Vila do Espírito Santo, Paraíba em 20 de abril de 1884, filho de Bacharel Alexandre Rodrigues dos Anjos e de D. Córdula C. R. dos Anjos.
Na época do seu nascimento o Abolicionismo começava a crescer. Figuras proeminentes e presenças atuantes de Joaquim Nabuco e Rui Barbosa na tribuna parlamentar, de José do Patrocínio na imprensa e nos comícios populares, de Saldanha Marinho no Foro, de André Rebouças à frente da Confederação Abolicionista. Ondas que levariam num arrastão o barco monárquico que não tardaria a ir a pique.
Em 1903 ingressou na Faculdade de Direito do Recife, Pernambuco.
Em 1906 publica no jornal O Comércio seu soneto mais famoso: Versos Ãntimos;
Em 1907 conclui o Curso de Direito;
Em 1908 leciona Literatura no Liceu Paraibano;
Em 1909 inicia sua colaboração no diário oficial do Estado, A União;
Em 1910 casa-se em 04 de julho com D. Ester Fialho. Transfere-se para o Rio de Janeiro, em outubro desse ano.
Em 1911 nasce a 02 de fevereiro, morto seu primeiro filho. Leciona Geografia na Escola Normal, como professor interino e também no Colégio Pedro II.
Em 1912 publica o livro EU. Neste mesmo ano nasce sua filha Glória;
Em 1913 nasce seu filho Guilherme;
Em 1914 é nomeado diretor do grupo escolar Ribeiro Junqueira, em Leopoldina, Minas Gerais, em 01 julho. Muda-se para Leopoldina em 22 do mesmo mês.
Em 12 de novembro de 1914 morre Augusto dos Anjos, menos de 04 meses depois da sua mudança para Leopoldina, MG.
Em 1920 publicou EU (POESIAS COMPLETAS), reedição do EU, completado com uma coletânea de versos inéditos, organizada por Orris Soares, também prefaciador do volume.
Em 1928 lançamento da terceira edição de suas poesias, pela Livraria Castilho, do Rio de Janeiro, com extraordinário sucesso de crítica e público.

VERSOS ÃNTIMOS - Augusto dos Anjos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


ANJOS, Augusto dos. EU e outras poesias. 43ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2001.

Creio que este soneto Versos Ãntimos de Augusto dos Anjos que inspirou o seu poema irá fazer com que o leitor compreenda melhor a sua homenagem e o seu protesto.
Parabens!
Grande abraço,
Regina Lyra

Regina Lyra · João Pessoa, PB 12/4/2008 23:34
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Falcão S.R
 

Muito bem estruturado, digno da grandeza do grande mestre Augusto. Abraços

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 13/4/2008 05:59
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danlima
 

cara regina, obrigado pelas suas paalavras, incentivo e informações, que em mjuito enriquecerão a leitura da minha homenagem ao grande augusto dos anjos, que deedico também a você, grande poeta paraibana.
Amigo Falcão, obrigado pelas palavras.

danlima · Brasília, DF 13/4/2008 13:43
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Raiblue
 

Dan, meu querido, sempre gostei muito desse poema do Augusto dos Anjos..., realmente muito inspirador !!
Sua recriação foi perfeita...o homem , fera ferida, perdido e preso em sua própria jaula...de medos...contradições...comportamentos instintivos...capaz de beijar e morder com a mesma fome...antropofágica mente...involuindo no tempo...constatação de que o pós moderno homem é o velho homem primitivo...,e pior ainda,
pois agora tem mais consciência de tudo...
A nós poetas, resta uma possível trilha que poderá ,quiçá, despertar
uma revolução mais íntima...e,assim, talvez , trazer uma paz interior capaz de denunciar e alterar a rota do caos cotidiano instaurado
pelo próprio homem dito 'moderno'...

Aplausos!!Adorei seu poema!!

Um beijo azulzeninfinito...
Rai...blue

Raiblue · Salvador, BA 13/4/2008 14:39
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André Teixeira
 

danlima!!!

Se não fosse teu comentário nessa poesia, o comentário-poesia abaixo não teria nascido... imaterialidades movendo materialidades, cosendo-as com o fogo das palavras! E incendiando isso tudo junto com mais gasolina: dos Anjos!!! Boa inflamável mistura! Será que isso tudo junto vai incendiar mais idéias?!! Mais lenha pra poesia? Ou mais sonho pra poesia? Quem sabe isso tudo junto e mais!!!

Caro poeta, MUITO obrigado e

GRANDE abraço!!!

------------------------------


Materialidades e imaterialidades
vão se cosendo colcha de retalhos, manto-macro
sobre micro-cosmos de nós tantos, assim
meio que aos quartos, dividos, mil &m 1,
pós e tempestades de copos de ontem
movem ondas e algumas tempestades
das atemporalidades
de hoje.

A carne arrepia-se pelo fantasma que corre no vazio de suas células,
o passo vacila, o coração fica... depois vai..., corre
& joga-se ao vento comum à beira de Abismos,
peito-pipa, peito-folha, peito-vento-no-vento,
peito-saco-plástico, peito-coisa-incendiada-que-voa,
peito-balão a perder-se no emaranhado de uma noite escura...

Mas há de encontrar um bom dia seguinte logo ali, atrás daquela nuvem,
Alimento dos Sonhos de novas realidades
impregnando de horizontes reais
o fogo invisível engrenagem
que queima meus olhos
em versos públicos.

André Teixeira · Aracaju, SE 13/4/2008 14:49
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Marcos Pontes
 

Augusto dos Anjos, provavelmente, não faria reparo a essa emenda. Irretocável!

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 13/4/2008 14:53
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fernando ciscozappa
 

oi dan,
que forte imagem: contraditória e ambígua!
o que somos? contraditório e ambíguo!
bem, dan,
não é a constatação ou mero exercício de circunspeção...
é a dor e o esforço
coexistindo no interior do poema

hanna, de novo, arendt
o ser humano
não se fixa
nem se realiza em coisa alguma
que seja permanente,
que continue a existir
depois de terminado o trabalho...
contra a subjectividade dos humanos
ergue-se a objectividade do mundo feito por humanos
e não
a sublime indiferença duma natureza intacta
cuja devastadora força elementar
os forçaria a percorrer inexoravelmente
o círculo do seu próprio movimento biológico
em harmonia com o movimento cíclico
maior no reino da natureza.
apenas nós, que erigimos a atividade
de um mundo que nos é próprio
a partir do que a natureza nos oferece
que o construímos dentro do ambiente natural
para nos proteger contra ele
podemos ver a natureza como algo "objetivo".
sem um mundo interposto entre os homens
e a natureza
haveria eterno retorno
mas não objetividade...

fernando ciscozappa · Belo Horizonte, MG 14/4/2008 22:15
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clara arruda
 

Meu amigo,prestas aqui uma homenagem a quem no meu entendimento é e será sempre meu poeta favorito.
Sepre cito:
A mesma mão que te afaga é a mesma que apedreja.
Obrigada tb a nossa Poetisa Regina,>Seu trabalho Dan merece nosso aplauso.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 15/4/2008 00:33
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Saramar
 

Dan, releitura perfeita do clássico.
A alma presa sob o peso da vida, do que não vê mas sente, da dor de ser e não ser... são contradições que os homens carregam, pedras morro acima, como o castigo dado por um deus insano e invejoso.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 15/4/2008 00:54
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Falcão S.R
 

Relendo com prazer e votando com louvor. Abraços

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 15/4/2008 05:06
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POETA DA SAUDADE
 

BELO TEXTO.
CONFIRA.
http://www.overmundo.com.br/banco/musa-3
EM VOTAÇAO..
Visite

POETA DA SAUDADE · Campos Altos, MG 15/4/2008 06:49
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Regina - poesia em volta
 

Claro que também gostei. Passei e deixo um abraço.

Regina - poesia em volta · Volta Redonda, RJ 15/4/2008 07:36
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Raiblue
 

Vo(l)tando , relendo....e adorando...
bjks bluezenblues,Dan,querido...

Raiblue · Salvador, BA 15/4/2008 07:51
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PIERROFXZ
 

Ola pssoa!!

"...Esta mão que te amordaça,
esta boca que te afaga
é o peso que te esmaga
é a força que te cala
que te encerra nesta cela
que tu próprio és..."

Bela colaboração.
Spero poder ler mais de suas colaborações aqui no over...
At +, 1 abrço.

PIERROFXZ · Lages, SC 15/4/2008 10:47
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Regina Lyra
 

Dan,
Retorno para uma re_leitura
e para os votos.
Regina

Regina Lyra · João Pessoa, PB 15/4/2008 14:10
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danlima
 

amiga rai, obrigado pelas suas belas palavras, pela análise da minha releitura do augusto dos anjos, e pelo outro poema que são seus comentários tão inspirados...realmente vivemos o contraditório de sermos humanos, de aspirarmos a espiritualidades e ao mesmo tempo manter-nos ligados aos nossos desejos seculares... Obrigado

danlima · Brasília, DF 15/4/2008 14:38
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danlima
 

caro andré, obrigado pelas suas palavras e por este lindo poema, que comentarei depois na sua votação... que bacana, o poema engendrando novo poema, novo comentário, novo poema, nas releituras, na gênese de cada poeta... Parabéns, amigo!

danlima · Brasília, DF 15/4/2008 14:40
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danlima
 

Caríssimo, obrigado pelas suas palavras, pela leitura e viva Augusto dos Anjos, poeta maior da nossa lingua!

danlima · Brasília, DF 15/4/2008 14:41
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danlima
 

e aih, fernando, que bom que você voltou com seus comentários inteligentes e inspirados,,com seus textos instigantes e provocativos... é isso aí, poesia tem que ser instigante, criaztiva e provocativa, fazer pensar, provocar reações... Muito bom este teu texto-comentário, citando ana arendt, nossos contraditórios, nossa ambiguidade, nossa essência de humanos, afinal, que quer subir e ao mesmo tempo quer estar inserido no seu contexto secular, terreno, quer ser telúrico e ao mesmo tempo quer ser espirito. Obrigado pro comentarios tão inspirados.

danlima · Brasília, DF 15/4/2008 14:44
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danlima
 

amiga clara, que bom que você veio participar desta homenagem ao grande poeta... Obrigado pela leitura.

danlima · Brasília, DF 15/4/2008 14:45
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danlima
 

saramar, obrigado pela visita, pelo elogio da minha releitura onde projetei os meus conceitos acerca dos versos íntimos... Belo o seu comentário, muito inspirado.
Falcão, muito obrigado pela leitura e comentário. Abraço-o fraternalmente.
Poeta da saudade, obrigado pela sua visita.
Olá Regina, obrigado pela visita, leitura e comentário. Abraços fraternais.
PierroFXZ, obrigado pela visita, comentário e elogios,. Abraços fraternos
Amiga regina,
Obrigado mais uma vez pela visita, pelos comentários, pelo elogio, e pela colaboração quanto à biografia do poeta, seu conterrâneo. E viva Augusto dos Anjos, grande poeta e inspirado cantor das mazelas humanas!

danlima · Brasília, DF 15/4/2008 14:50
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Samuel Luciano Assunção
 

dan...demais...parabéns, poeta.

um abraço.

samuel

Samuel Luciano Assunção · Angra dos Reis, RJ 15/4/2008 22:41
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