O que me recordo. Ele apareceu
à tarde, pedindo água. Veio da cidade a pé
após perder o emprego, deixar um recado para a mulher e o
irmão
e atar o seu cachorro à um depósito de carvão.
Preparamos para ele uma cama
e ele dormiu até segunda.
A semana passou e ele pendurou o casaco.
Um mês e nada de trabalho, uma palavra de agradecimento,
intenção de pagamento ou sinal de partida.
Uma noite mencionou uma receita
um suave sorvete de gooseberry sem semente
mas aí eu já estava cansado dele: sacando dinheiro com o cartão
do meu filho, explorando a minha mulher e, na sua
última noite,
dando em cima da minha filha. Fumava o meu cachimbo
enquanto mexíamos a sua sopa.
Onde termina a mão e começa o pulso?
Onde termina o pescoço e começa o ombro? A
fronteira,
o peso ou o que quer que seja que nos desequilibra
nesta lâmina fronteira entre
alguma coisa e nada, entre
o um e o outro.
Eu poderia ter-lhe dito isso
mas não dei a mínima. O levamos para uma banheira,
o mergulhamos na água, enxugamos, vestimos
e o jogamos atrás na picape.
Então dirigimos com os faróis apagados
para os limites do condado,
baixamos a porta traseira e, com o meu filho
segurando-o pelos bolsos, o arrastamos como um
colchão
pelo meio, contamos até 4
e o atiramos do outro lado da borda.
Isto não é do conhecimento geral, exceto
em época de gooseberry, quando relembro, e à mesa
sou conhecido por levantar uma sobrancelha, ou dividir
o sorvete
em cinco partes iguais, fazendo-o só por fazer.
Eu menciono isso por uma boa razão.
Simon Armitage é, sem dúvida, um dos grandes nomes da poesia
inglesa contemporânea. Uma vez que tenho traduzido alguns dos seus poemas para publicação no meu site (autorizado pelo seu agente), achei que seria interessante dividir um pouco do trabalho dele com os amigos que tenho feito aqui no Overmundo. Se a idéia for aprovada, publicarei outras traduções dele e outros poetas. Uma vez que ‘traduzir é trair’, quem quiser comparar com o original, basta visitar www.folhaderosto.com .
Abraço a todos.
Peço desculpas, pois deixei passar uma crase inexistente: 'atado a um...' e não 'atado à um'.
Perfeito!
Gostei demais e, por mim, continue sim, publicando.
Vou ver seu site.
beijos
Muito obrigado Saramar! Quanto ao site, qualquer critica, sugestão, comentário enfim, será muito bem recebido.
beijos
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