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ESTÁGIO... Começo e fim em ciclos

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Antonio Brás Constante (Escritor maluco) · Canoas, RS
23/3/2007 · 65 · 5
 

Antes de começar, um frio percorre sua espinha, antecipando o medo do novo estágio. Trabalhar com pessoas estranhas, tendo de aprender uma série de rotinas totalmente desconhecidas do que agora é seu mundo.

No primeiro dia, a sensação de mal-estar se concentra no estômago. As horas vão passando, cheias de nomes e serviços que entram e saem de sua cabeça. Tudo é tão intenso, tão surreal. A cada momento algo novo, seja um rosto, uma tarefa ou um local dentro da empresa. Você não parece pertencer aquele lugar. Sentimentos de solidão e desamparo lhe possuem, lhe abraçam, acompanhando você na sua jornada de trabalho.

Chega o final do primeiro mês. A insegurança diminui diante de cada novo dia. Aos poucos começa a fazer parte daquele lugar. Não confia totalmente nas pessoas, mas o sentimento de acolhida de algumas lhe faz bem. A neblina do desconhecido desvanece. Vai conseguindo ir adiante, apesar dos tropeções, normais quando se está aprendendo. Começa a se sentir parte da equipe.

Após seis meses, sente-se uma peça importante na engrenagem daquele ambiente. Vários amigos conquistados. O domínio do trabalho que antes lhe assustava, agora é algo corriqueiro. Ainda há tanto para aprender, mas como é gostoso já poder fazer as coisas por suas próprias mãos, independentemente na maioria das vezes. Você tem as suas coisas, gavetas, folhagens, padronizações. Fazendo cada vez mais parte do dia-a-dia da Empresa.

Então vem o final do primeiro ano. Alguns amigos se vão. Um cansaço toma conta de seu corpo e mente. Tanto tempo já se passou. Parece que faz anos e não meses que está ali. A partir desse momento cada dia não será mais um dia. Agora a contagem é regressiva. Metade do estágio passou. Como um ano passa rápido.

Faltam seis meses para o final do seu contrato. Tantas pessoas novas nos setores. Você sente que sabe tudo do qual é encarregado. Esta ciente do lugar de cada pasta. Têm disponíveis em sua memória todos os contatos profissionais. Está com o conhecimento calejado dentro de si. Ensina os novatos, e se sente importante pelo domínio que tem das tarefas que executa. Vez que outra se despede de outros veteranos, logo será sua vez.

Começa o ultimo mês na Empresa, difícil de acreditar que se passaram quase dois anos desde o primeiro dia. Quanta coisa aprendeu ali. Conhece cada pessoa e equipe. Sente-se como parte do lugar, como a mobília. Tantas alegrias e tristezas vividas. Não parece justo ter que sair. Você gosta do que faz, porém logo terá de ir embora, mesmo não querendo. Pena, apesar de tudo, adora estar ali, não queria que acabasse assim.

Ultimo dia. Nos olhos dos colegas a saudade de alguém que está partindo e a dor da perda daqueles que tiveram seus corações tocados por você. Um nó na garganta insiste em lhe fazer chorar. O dia é tão normal, tão parecido com os outros, com exceção que este é o seu ultimo dia. No seu pensamento agora vem a lembrança de que todo seu conhecimento vai ser descartado, em sua maioria perdido. As suas gavetas passarão para outro, suas rotinas, anotações, pastas, tudo. Parece que sua vida será transferida para uma nova pessoa, que começara do zero em seu lugar, vivendo o que você viveu. É como se arrancassem parte de você. É cruel, mas não há o que se fazer. Somente aceitar.

Um dia após o termino do estágio. As sensações de vazio, tristeza e saudosismo mesclam-se em seus pensamentos. Você não verá mais todas aquelas pessoas, nem passará mais por aqueles corredores. Após dois anos tudo acabou. Não faz mais parte daquele lugar. Agora seu caminho é outro. Diferente daqueles com quem você por tanto tempo conviveu. A partir desse momento o jeito é respirar fundo e planejar um novo emprego. Quem sabe um outro estágio. Se for, um novo calafrio percorrerá sua espinha. Tudo novo... De novo.

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Autoria
Antonio Brás Constante
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celia p
 

Simples e verdadeiro. O percurso é um pouco sofrido, mas, a graça da vida é essa mesmo. A gente tem que "passar por", enfrentar a angústia. Só assim, sentimos o gosto bom da conquista.

celia p · Florianópolis, SC 22/3/2007 08:08
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Roberta Tum
 

Gostei, bem descrito, todo o processo. É mesmo uma viagem.

Roberta Tum · Palmas, TO 22/3/2007 15:41
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Antonio Brás Constante (Escritor maluco)
 

Olá jovens meninas (ambas jornalistas pelo que li),
Muito obrigado pelas mensagens, e um grande abraço deste aprendiz de escritor.
ABC.

Antonio Brás Constante (Escritor maluco) · Canoas, RS 22/3/2007 19:11
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Jailson de Macêdo
 

Legal Antônio. Você abordou de uma maneira bastante clara o que nós, estagiários, sentimos na pele. Gostei muito do seu trbalho. Parabéns!

Jailson de Macêdo · Rio Branco, AC 19/4/2007 20:25
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Antonio Brás Constante (Escritor maluco)
 

Valeu gente,
Gente valeu,
Valeu, valeu,
Gente valente, lá vou eu novamente, a ordem que impera é que um novo texto me espera, escrito, transcrito, as vezes até esquisito, mas enquanto minhas mãos se manterem livres de qualquer camisa de força, que tranquem minha força de vontade através de regras que tentem impor sanidade, viverei e registrarei... O quê? bem, isto ainda não sei...
Grande abraço.
ABC
P.S: se vc já leu esta mensagem, é pq eu repeti ela mesmo, várias e várias vezes. O mundo é um lugar realmente cruel.

Antonio Brás Constante (Escritor maluco) · Canoas, RS 20/10/2007 12:15
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