ESTRANHO AMANHECER

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Suely Sousa · Recife, PE
17/2/2013 · 0 · 0
 

Acordei ao amanhecer, o dia estava parado, frio, cinzento. Um silêncio absoluto doía-me os ouvidos. Nada de falas, buzinas, choros ou risadas. Minha cidade era uma paisagem congelada! Não fossem as nuvens, que como preguiças moviam-se ao longe, estaria eu certamente morto. E assim pensei estar! Morto! Longos minutos circundaram esta sensação. Abri Janelas e portas à procura de vida, de movimento, de pulsação, de energia. Nada! Aflito, angustiado, temeroso, procurei-me morto sobre a cama. Nada! Toquei-me e senti o calor do sangue que corria em meu corpo. Suspirei aliviado! Aos poucos, lentamente, tudo começou a se mover, algo caiu sobre o teto, sinal de que meu vizinho do andar de cima estava vivo, alguém tossiu, um cachorro latiu, árvores balançaram ao vento. Festejei estar vivo! Corri, gritei, ajoelhei-me agradecendo a Deus:

- Obrigado Senhor, por dar-me a felicidade de estar vivo, de poder apreciar a harmonia da natureza, de ouvir o som do vento e o cantar dos pássaros.

- Obrigado Senhor, por dar-me a possibilidade de me redimir de atitudes negativas, maldosas, intolerantes.

- Obrigado Senhor, por dar-me a oportunidade de poder ser mais amigo, mais generoso, mais fiel a Ti!

Rezei, rezei, rezei muito! Rezei durante horas!

Retornando a sala questionei esta estranha sensação que me pareceu longa, constatei, entretanto, que o tempo transcorrido entre a hora em que acordei e àquele momento era inferior a um minuto. Estranho! Pareceu-me horas! Como podia tanta coisa ter acontecido em tão pouco tempo? Pensei-me morto, entrei em transe, rezei e só passaram-se alguns segundos? Não, não podia ser! Voltei a verificar no relógio a hora e constatei que, de fato, havia sido mais ou menos uns cinquenta e cinco segundos entre um momento e outro. Foi tudo um sonho, pensei. Confuso e intrigado voltei ao quarto e, sem que conseguisse evitar, visualizei-me morto sobre a cama. O impacto foi grande! Senti palpitar mais forte meu coração e tremerem minhas pernas. Passados alguns segundos, ainda tonto, sentei-me na beirada da cama e fiquei a olhar minha imagem ali projetada: Pálido, olhos fechados, expressão serena. Involuntariamente esbocei desejo de arrumar os cabelos daquele eu sem vida. Poxa, como é estranho imaginarmo-nos mortos, prostrados sob um mármore frio ou cobertos de flores dentro de um caixão! Naquele momento inúmeras coisas passaram pela minha mente: Família, amores, amigos, os erros que cometi, o filho que não tive tudo passara a ter um peso que jamais eu dera antes. A caixinha da memória derramara trinta anos da minha vida, como se toda ela tivesse sido vivida em poucos segundos. Quantas coisas poderiam ter sido diferentes. Quantos momentos foram vividos sem a devida intensidade. Quantas palavras não ditas e quantas outras jamais deveriam ter sido pronunciadas. Quantos vazios foram inflados com bobagens, com egoísmo, com presunção, enquanto por mim passavam pedidos de ajuda ou, simplesmente, de sorrisos.

Ainda abalado com o acontecido levantei-me da cama, tomei um banho gelado e, renovado, liguei o televisor para assistir ao noticiário. Uma notícia aterrorizou-me! O jatinho no qual eu iria viajar, não fosse a forte dor de cabeça que me acometera na noite anterior, havia caído em alto mar. Nenhum dos tripulantes tinha sobrevivido. Senti calafrios só de pensar que eu poderia ter embarcado naquele jatinho. Questionei, ainda com mais intensidade, o que acontecera minutos atrás:

- Por que meu Deus eu passara por toda aquela “experiência de morte”, como se eu também tivesse morrido naquele acidente?

Incrédulo com tudo aquilo, caminhava na sala de um lado para o outro, tentando obter resposta àquela pergunta. Meu pouco conhecimento sobre vida espiritual, fazia com que eu não encontrasse explicação para o que tinha acontecido. Tudo ficara envolto em mistério, não só a morte, mas, principalmente, o existir.


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