- O vinho não vai esquentar fora da geladeira?
Rosa odiava as perguntas cheias de obviedades que o marido sempre a fazia. Ao ouvir o questionamento do companheiro, mordeu fortemente os lábios e cerrou as mãos, como que segurando-se para não agir de forma impensada. Há tempos o relacionamento dos dois já não existia. Como uma máquina, ambos simplesmente repetiam as mesmas ações diariamente, suportando-se com falsidade impressionante, de dar inveja. Coisa a ser estudada.
Agoniada, a mulher guardou o vinho na porta da geladeira. Ao realizar a ação, sentiu-se mais uma vez dominada por uma vontade que não cabia dentro dela. Rosa queria explodir. Tinha vontade de achatar a cabeça do marido com a garrafa. Sim, a mesma garrafa do vinho que os dois bebericavam naquela noite fria. Uma noite qualquer. O marido continuava lá, apático, indiferente ao que se passava na doentia mente da esposa. Degustava o vinho lentamente, numa espécie de "transe momentâneo", que durava apenas os segundos que o líquido percorria entre sua boca e o estômago. Após, fixava os olhos num ponto qualquer da insignificante parede branca a sua frente e lá permanecia, até o próximo gole.
A mulher odiava a indiferença cada vez mais latente do companheiro. Principalmente quando perguntas óbvias saídas da boca do marido arrebatavam seus ouvidos. Os minutos passavam e Rosa sentia-se estranha. Poderia a vida ser mais cruel e mais angustiante do que ela sonhara um dia? Tudo indicava que sim. Rosa sofria com isso e sofria com aqueles instantes intermináveis em que era surpreendida por uma vontade louca de fazer uma besteira. "A maior de todas", pensava, com um sorriso cínico que sutilmente levantava a parte superior esquerda de seus lábios carnudos.
- Guardou o vinho? Por que?
Rosa não quis acreditar no que a realidade acabara de revelar aos seus ouvidos. Como que num ato desesperado, a mulher abriu a geladeira, sacou a garrafa de vinho e, olhando fixamente para o marido - que insistia em permanecer indiferente ao que se passava - acertou violentamente sua cabeça com o objeto. O sangue escorreu pelas lajotas brancas da cozinha. O líquido vermelho brilhava, misturando-se ao doentio olhar de Rosa que, agora sim, estava apática a tudo.
Sentiu uma vontade estonteante de bebericar mais um gole de vinho. Sem sequer um sinal de arrependimento, a mulher abriu mais uma garrafa da bebida - a última do estoque. Sentou ao lado do corpo do marido. O sorriso cínico novamente revelou-se. Rosa sentia-se estranhamente bem. Degustou aquele vinho que, deliciosamente, invadiu seu corpo. E permaneceu ali, sorrindo, olhando para um ponto qualquer da insignificante parede branca que outrora fora fitada pelos olhos do corpo que jazia ao seu lado.
Não sei pq as pessoas se "suportam" sabe em relacionamento? Claro, essa atitude e descrição do conto é uma perfeita "caricatura" mas da maneira que o mundo anda não duvido de nada!
adorei o conto!
abraços
Thiago,
Muito bom o conto, descreve bem o que é a solidão à dois, que gera indiferença e que gera uns outros tantos sentimentos, que vão se tornando insuportáveis, quando se tem uma estrutura emocional confiante, segura-se a onda ou cai fora dela, quando não, vem a estupidez como último sentimento gerado, e a violência explode quase silênciosa. Acontece sim, por aí, é que a gente não fica sabendo de tudo, ainda bem.rssssssssss
Parabéns. um abraço.
vinho...ou não vinho...eis a questão a ser pano de fundo de uma já relembrada "solidão a dois" pelo overmano Abraão. Trsite realidade comum no cotidiano urbano, onde as personas insitem em manter a caricata máscara cínica e entrestecida...Gostei muito de sua crônica. aguardo a votação. abços.
Cristiano Melo · Brasília, DF 2/6/2008 22:21
Graças a Deus,nem todo mundo tem esses ataques furiosos,mas a maioria já teve ímpeto de fazer isso com um cônjuge,com um empregado,com um patrão
Lembra aquele filme com Michael Douglas Um Dia de Fúria
e podem até me condenar pelo que vou escrever
Sei que nada justifica a violencia e o crime mas entendo essas pessoas,nem todos tem controle sobre os atos
Um beijo voltarei
Votado! Simplesmente única a forma como escreve...
Eric Araújo · Belo Horizonte, MG 4/6/2008 19:15Muito bom. Votado.
david.ang · Santa Cruz do Sul, RS 4/6/2008 20:27
Parece apenas um simples conto vindo de uma boa mente imaginativa. Mas já vi casos semelhantes acontecerem bem perto de mim. Recentemente aqui na minha cidade uma mulher aparentemente bem casada com um garçom e dona de um trailer de lanches. Simplesmente da noite para o dia matou, cortou em pedaços o marido e o guardou no freezer com a cruel intenção de ir se desfazendo dos pedaços aos poucos. Ninguém desconfiou de nada até que um cachorro desenterrou um braço possivelmente mal enterrado. Fala sério a vida real às vezes é mais surpreendente que qualquer boa ficção!
Voto e beijos querido!
Muito bom o conto! Curti a forma como tudo chega ao nosso alcance! E como mesmo as formas são bem descritas. Muito interessante mesmo. parabéns pelo trabalho
Patricia Moreira · Vitória da Conquista, BA 5/6/2008 09:39
Tinha vontade de achatar a cabeça do marido com a garrafa.
Já nem em contos de ficção se faz mais "Rosa" como antigamente.
Muito legal!
Votado!
Meu Deus Thiago! E depois?
Gostei do conto.
Até.
Seu conto ilustra bem a situação que reina em muitas casas, onde as pessoas vivem juntas, mas estão muito distantes, são estranhos vivendo debaixo do mesmo teto.
Voto e abraço.
Muito bom...essa falta de comunicação, essas perguntas, mesmices...di´alogos óbvios acabam com relacionamentos...
Parece-me Lya Luft no seu livro último " Silêncio dos Amantes", interessante tua maneira de escrever, muito boa mesmo.ab
Pois... já tinha te dito que gosto desse conto, né?
Muito bom... e supreendentemente "perverso", no melhor sentido da palavra, claro!
Ela poderia estar com algum problema psicológico ou então já estaria cansada de assistir o mesmo quadro que a todo dia se repetia. Mas agir com a violência que ela agiu foi realmente uma decisão muito mal tomada, um bom papo talvez seria melhor mas cada um tem um tipo de reação , fazer o que. Meus sinceros aplausos e abraços pelo belo texto amigo.
Carlos Magno.
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