Et Coetera do Amor
Ela sorriu. Cada linha expressiva do seu rosto foi impressa na memória de João. Ela sorriu. Um sorrisso-punhal, um sorrisso-lágrima. João a observou retirar “A Rosa do Povo” de Drumond da gaveta. Ele quis chorar. Implorar para que ela ficasse pelo menos aquela noite. Iria chover; ele tinha certeza. Mas, se convidasse Emily para passar à noite lá, talvez ela pensasse que o seu convite guardasse intenções sexuais. “Como se nós não tivéssemos já transado no auge de uma crise conjugal? Crise conjugal, não, pois não contraímos matrimônio. Contrair matrimônio? Será doença o casamento? É uma relação incurável?” Emily continuou a passear pelos cômodos. Da cozinha para a sala de jantar. Da sala de jantar para o quarto de leitura, e de lá para o quarto de dormir. João vigiava os passos da moça. Queria sorrir para compartilhar do fingimento dela.
- Tudo bem, João?
Ele balançou positivamente a cabeça, e depois cerrou os olhos sem nenhum propósito. Na verdade, acalentava o intento pueril de desfigurar a sua imagem para vê-la desfocada como se sumisse em uma penumbra espessa. Emily começou a mexer na gaveta de lingeries. João tentou contar mentalmente quantas vezes ele a havia despido. Sorriu voltado de costas para a mulher, e em seguida virou-se para ela e comentou.
- Você sempre gostou de comprar roupas íntimas. Lembra-se quando fomos a Milão? Você pirou e gastou horrores.
Emily, sem olhar para ele, disse:
- Anhã.
Ela respondeu com uma interjeição fria que correspondia a uma recusa de diálogo. “Lembrar do passado nem pensar”, lamentou-se o desafortunado amante.
Emily segurou nas mãos uma caixa com cds da Elis Regina. João estudava os movimentos da mulher atentamente. Viu que os olhos dela se tornaram incandescentes para depois uma sombra os deixar soturnos. João sabia que uma recordação a havia deixado abalada. “Com certeza, foi à noite em que nos beijamos após a morte da mãe dela. Aquilo foi reconfortante. Um ano e meio de namoro, e ela tendo a confirmação que realmente tinha encontrado um homem com o qual poderia contar”. O homem enxugou as lágrimas, ela não deveria perceber que aquela situação o deprimia.
- Emily – ele a chamou emocionando-se em poder pronunciar o nome dela. – você pretende levar os seus DVDs?
Ela se virou para o lado. Entreolharam-se. João Se felicitou por ter a chance de perder-se, ainda uma vez naqueles olhos castanhos. Estranhamente, Emily permaneceu calada olhando o ex-namorado. Ele feliz, mas frustrado por que ao olhar dela comunicava tristeza, frustração, abalo emocional e um pouco de raiva contida que aquelas íris não conseguiam bloquear. João ensaiou mentalmente um sorriso, chegou a esboçá-lo, contudo negou-lhe aparição. Ela o olhava com milhares de questionamentos. A jovem era um reservatório de perguntas. Porém, o silêncio ou à vontade de silêncio mostrou-se mais forte. Emily mexeu os lábios, mas não emitiu som nenhum. João temeu que ela pronunciasse palavras ríspidas, entretanto a moça nada disse. Ela coçou o couro cabeludo e dirigiu-se para a sala de estar, onde se debruçou sobre o rack e começou a ver os DVDs. Sem se voltar para João lhe falou:
- Eu não quero todos. Afinal, compramos em conjunto. Vou levar somente “Match Point”, “Cinema Paradiso”, “Lanternas Vermelhas”, “Babel” e “A Enguia”.
João bebeu cada palavra proferida. Os nomes dos filmes cintilavam como estrelas. Ele decidiu ousar e a autorizou sem medo.
- Emily, pode levar todos se quiser. Afinal, você é a cinéfila aqui.
- Eu era a apaixonada por cinema aqui – corrigiu a moça crente que sua resposta havia sido compreendida no ato.
Emily não recusou a oferta. Colocou na mala os cinquenta e nove longas-metragens adquiridos em três anos e sete meses de relacionamento. João sentiu-se aliviado. “Pelo menos, ela não considerou intolerável levar os filmes que assistimos juntos”.
Emily começou a fechar a mala. João sentiu um calafrio. Ele não conseguia a obediência do corpo. Sua boca permaneceu fechada e seus pés fixos no chão. Ela puxou com força o zíper da mala e o estrondo despertou João. Ele gritou a plenos pulmões.
- Não vá embora, Emily. Eu já pedi perdão.
Ela o olhou com certa surpresa. Talvez, a reação tão sincera, mesmo parecendo patética, causou-lhe inquietação. Novamente o silêncio surgiu como cicerone de um romance defunto. Todos os percursos de um amor que de início revelou-se intenso e inabalável, e no final convalescia das doenças da desconfiança e da traição fizeram-se presente. A sala reverberava uma excêntrica chama. Ninguém disse nada. Ambos se olhavam como se perguntassem o que viria daqui pra frente. Emily se recompôs. Passou as mãos na franja de seus cabelos ruivos e respondeu:
- A Kátia não vai aprovar o seu pedido. Ela é muito ciumenta.
A jovem riu com certa docilidade, mas sem esconder o prazer de fazer João sofrer. Ele parecia desconcertado. Decidiu não suplicar, nem se explicar mais. Porém, voltou atrás na resolução.
- Eu não tenho nada com a Kátia. Foi uma noite de bebedeira, de equívocos, e depois, de arrependimento.
Emily sorriu. Um sorriso-míssel, um sorriso cético. Abaixou lentamente, pegou a mala, ergueu-a e soltou-a. Suspirou profundamente e sussurrou uma frase que vagou pesada, pesarosa até atingir os ouvidos de João.
- O que nós vivemos foi o arrebatamento, a decepção e as demais coisas do amor, mas acabou.
João sabia que a frase pronunciada era lírica e assertiva, própria daquela moça estudante de Letras conhecedora de latim etc. “O que fazer? Ela vai embora”. O homem passou a mão direita pelo rosto, pensando se deveria pedir um último beijo ou exigir que ela ficasse. Ele deveria gritar que nas demais coisas do amor o perdão tem lugar cativo. Todavia, não ousou discursar sobre o que é o amor. Naquele instante sentiu-se fraco. Deveria primeira domar os nervos para depois domar a amada. Ele queria chorar, correr, se desesperar. Emily estava parada diante dele, parecia aguardar alguma coisa. João não conseguia entender aquela estátua na sua frente. Uma mulher linda estática consumida por algo que a paralisava. João encheu-se de coragem, e disse:
- Não acabou ainda. Eu te amo, não consigo enxergar minha vida sem você, você é tudo para mim e etc.
Emily readquiriu o viço na face, seus lábios tornaram-se rubro. Ela sorriu. Um sorriso-reconciliação, um sorriso-chuva. E a chuva começou. João temendo que ela declinasse o convite sugeriu, com certa inibição, que ela passasse a noite lá. Ela respondeu que sim. O jovem delirou e viu-se de novo fascinados por aquela mulher.
- Eu durmo no sofá e você, Emily, fica com a cama.
Ela assentiu. Como estavam concordes conversaram sobre trivialidades. As demais coisas do amor preveem que algo está implícito ele pode aflorar sem pressa, sem medo que não venha a acontecer, sem precisar torna-se presente com estardalhaço. É bom aparecer como a chuva daquela noite, devagar e duradoura, durante toda a madrugada. No entanto, amanheceria sem a chuva torrencial e a mala ainda estaria no corredor esperando um destino, um rumo, etc., e assim por diante.
Casal em crise discute sobre fim do relacionamento e paira no ar a possibildade do amor ainda existir.
Um conto poético que trata com lirismo e com uma discreta angustia, mas sufocante, o fim de um relacionamento. Dois jovens que tentam cada um ao seu modo trabalhar o conflito. Um relacionamento onde existe amor menos confiança.
Juliene Leite · Cuiabá, MT 27/4/2009 16:58Um conto que desvenda o universo misterioso e conflituoso dos casos amorosos, a paixão, o medo, a perda, o perdão...grandiosamente descrito nesse conto que nos leva a construção de imagens e sonhos! Admiro seu talento, grande amigo! Abraços!
Eurídice · Presidente Epitácio, SP 28/4/2009 20:35
há coisas no amor que talvez não recuperem outras que se perderam, não custa tentar mas as vezes o outro se recusa tão fortemente a mudar que não tenta...
eu fui o João da história
não pareceu adiantar...
um texto com vontade de continuidade...
a minha é de mais e mais paginas.
na verdade uma historia trivial... mas contada
assim é... empolgante!
bjssssss;
ufa! que passional, queria saber o final, me deliciei, uma trama de amor contagiante e verdadeira cheia de nuances do cotidiano, a vida por inteiro. Deslumbrada...bjs
MartaLucena · Natal, RN 7/4/2011 09:56Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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