Acordei gargalhando no meio da noite.
Dei uma bronca na Glorinha Kalil. E também naquela repórter que acompanhava ela. Aquela que tinha jeito de ser uma moça do censo.
Estavam as duas sentadas naquele sofá meio bege que tinha lá em casa. Lá na casa da Venâncio Trindade, 271, no bairro Santo Antônio. A Glorinha bem na ponta de lá do sofá. A repórter – é a Renata Ceribelli? – ao lado dela mais pra cá. Daí a minha mãe. E eu.
Parece que elas estavam nos entrevistando. Ou tentando nos ensinar alguma coisa. Mais provável. Talvez tentando nos ensinar a coordenar listras e bolas. E eu ali.
O Chic lá na minha estante. Empoleirado. Eu sei. Palestra no Senac e coisital. Tempo pra tudo nessa vida.
O sofá bege. A conversa rolando. Súbito, com mil espinafres cósmicos, não sei de onde surgiu o assunto da alface. Te fazendo, né? O caso da alface vem pipocando há horas.
Olha aqui, Glorinha, decerto com o dedo já na cara empoada dela, eu corto a alface. Eu corto e corto mesmo. Esse negócio de ficar dobrando e enrolando a alface me parece uma palhaçada. Às vezes, a folha é enorme. E fica muito mais cômodo cortar. Pelo menos dar uma cortada antes de enrolar. Então se é mais prático cortar por que é que eu vou enrolar? Só pra ficar dentro da etiqueta e das boas maneiras? Eu acho que a gente tem que fazer as coisas do jeito que se sente bem.
Nisso a moça do censo, que é também a repórter e que nesse caso deve ser a Renata Ceribelli já está com a chapinha desfeita, totalmente incomodada, pobrezinha, eu quebrei completamente o protocolo. E quer saber, Glorinha, isso não quer dizer que eu despreze a boa educação e o bom comportamento. Eu nem vou sacar do meu folhão de alface verdinho e tenro e atracá-lo em exposição no prato do vizinho de mesa dizendo pra ele olha aqui eu corto a alface eu corto a alface eu corto a alface. Eu vou ficar ali quietinha no meu lugar, até vou usar garfo e faca, ué, e vou roc roc roc, é o barulho da faca na alface, vou cortar a minha alfacezinha. Até que dê pra enrolar numa boa. Sem estresse.
A Glorinha, não preciso nem dizer, né, tinha os olhinhos de jabuticaba esbugalhados. E eu acho que eu, eu mesma, tinha um pé de alface na mão. Crespa. Mas não parou por aí. Ô, Glorinha, vamos nos respeitar, num país em que as pessoas estão passando fome, os políticos estão roubando descaradamente, a violência assola de norte a sul, não há empregos, eu sei disso tudo e não – não, não, não – não leio os jornais, mas essa é uma outra história, tu vem me dizer que eu tenho que enrolar a alface? Tu vem me falar em etiqueta? Ô, minha filha, com todo o respeito, porque a rigor – e agora acordada – eu não estou falando contigo, mas com aquilo que tu representa e com quem te colocou a ensinar o povo a enrolar alface no domingo à noite, com todo o respeito, vai plantar batata.
E acordei morrendo de rir.
Estou falando seríssimo.
Que sonho divertido.
E eu também praticamente não assisto televisão, mas é que me contam.