A encontrei ali... sozinha no pátio. Andava de um lado para o outro, parecia perdida. Em alguns momentos fazia círculos, noutros explorava as extremidades do piso. Por várias vezes pensei em me aproximar, recuei. Eu não queria parecer muito bobo aos olhos dos outros. Não queria que me vissem dando importância demasiada a ela.
Na verdade tenho esse problema: ainda dou importância ao que os outros pensam de mim. Sempre tento evitar me colocar em situações embaraçosas. Não gosto de ser preterido. Alguém gosta? Não gosto de dar importância à coisas/pessoas que não merecem. Volta e meia faço isso e, claro, me arrependo depois.
Enfim, me encontrava nessa situação novamente.
Dar ou não dar atenção. Ir ou não ir atrás dela?
Comecei a rodeá-la. Achei que se me fizesse se bobo poderia passar despercebido. Não tão despercebido que ela não me notasse, mas o suficiente para que os outros não percebem minhas intenções. E assim foi. Fui comendo pelas beiradas. Quando tinha a chance dava uma pequena olhadela. Um pequeno toque aqui e ali, só para ver como ela reagia.
E ela reagia bem... exatamente como esperado.
Não é que queira me gabar, mas tenho prática nessa técnica. Mostrar e esconder. Provocar e fazer-se de desentendido. Desde menino fui sendo treinado. Alguns poderão dizer que isso demonstra algum tipo de prática sádica de minha parte. Não me importo. Sim, é verdade... gosto de causar certo sofrimento, às vezes. Quem não gosta?
Na verdade não é bem sofrimento físico que me interessa. É mais a percepção de encurralar as criaturas. Levá-las até um ponto em que elas se percebam sem saída. Em que ela te olhe e não consiga mais sair do lugar. Sem saída! Imóvel.
Pelo menos eu admito que sinto prazer nisso... conheço vários que fazem a mesma coisa e não tem coragem de admitir. Dissimulados. Detesto gente dissimulada. Detesto gente que blefa. Detesto pôquer. Detesto joguinhos. Detesto...
Mas, voltando à cena. Lá estava eu. Rodeando e fechando o cerco. Levando-a a começar a ficar apreensiva. Ela já podia pressentir o fim de nosso jogo. Pelo menos o fim que ela imaginava.
Fui levando-a para perto de um banco de cimento que havia no pátio. Era mais prático ali porque eu podia seguir pressionando-a sentado e ninguém perceberia o que eu estava fazendo.
Como era fácil. Meu Deus, como era previsível... chegava quase a ser covarde o que eu fazia. Na verdade... era! Eu sabia dos seus pontos fracos. Eu a havia surpreendido em um momento frágil. Sozinha. Desesperada. Sob o sol. Sem ninguém para ajudá-la. Eu fui malvado... hoje me arrependo.
Mas a minha punição também viria logo... embora eu tentasse evitá-la.
Perto do banco ela acabou entrando em um lugar em que, sentado, eu não conseguia mais realizar minha tarefa. Fui obrigado a agachar-me. E, mesmo agachado, ainda tinha dificuldade para persegui-la. Só que agora já tinha tomado essa perseguição como algo pessoal. Faria o que fosse necessário para levá-la até o extremo. E assim eu fui me abaixando... cada vez mais...
E tão entretido eu estava que não me dei conta de que meus alunos haviam chego. Imaginem a cena. Quinze adolescentes chegavam ao pátio e encontravam seu professor de quatro. Metido perto de um banco... cercando com os dedos uma pobre formiga. Indefesa!
Max,
olha sua prosa é uma das melhores daqui do over, a tendência de ocultar situações até o final e com um desfecho inesperado é a sua maestria. E o seu lado, quer dizer, o lado do personagem da trama, sádico, seria de matá-la? matar a formiga, indefesa? Hum.....
Parabéns pelo trabalho e obra
abraços
PS: não resisti
Olá Cris...
Não sei se matar é a melhor das táticas nesses casos!
Aliás... sempre achei a morte um artifício fácil (dá pra ver pela quantidade dela nos meus escritos!)...
Acho que existem formas mais "cruéis" de tratar criaturas indefesas.. e acho que já estive nos dois lados da moeda!
Abraços e obrigado pelos comentários sempre tão "acertados"!!!
Não sou formiga e dei meu voto....rs
abraços
Max, impressionada com a versatilidade da sua prosa. Gosto da sua ousadia. É coragem boa. Não é irresponsabilidade. Muito bom!!1
beijos
Cortante e instigante.
Muito bom.
Abraço.
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